Dos escalões secundários para a Liga: as tendências num mercado cada vez mais global - TVI

Dos escalões secundários para a Liga: as tendências num mercado cada vez mais global

Bola genérica

Sporting reforçou-se na II Liga, caso raro entre os chamados «grandes». Mas a reforçar a ideia de que há talento nos escalões secundários, com visibilidade crescente, num mercado que tem Portugal como ponto de foco obrigatório.

O Sporting olhou para uma promessa da II Liga para se reforçar neste mercado de inverno. Ousmane Diomandé é um caso particular, um talento que jogava no Mafra cedido pelo Midtjylland já com cotação alta, e este é um movimento raro entre os chamados «grandes» do futebol português. Mas reforça a ideia de que há talento nos escalões secundários, com visibilidade crescente, num mercado cada vez mais global que tem Portugal como ponto de foco obrigatório.

Os clubes da Liga vão estando atentos ao que acontece nos outros escalões. No início da atual temporada, chegaram de novo à Liga mais de duas dezenas de jogadores oriundos da II Liga e também da Liga 3, ao fim da época de estreia da nova competição. Alguns desses reforços ganharam rapidamente embalo no primeiro escalão, como Jota Silva, que foi do Casa Pia para o V. Guimarães, Moustapha Seck (ex-Leixões) e Yago Cariello (U. Santarém), reforços do Portimonense. Ou ainda Rodrigo Martins, que trocou o Mafra pelo Estoril, e Onyemaechi, cedido pelo Feirense ao Boavista. Outros ainda vão procurando espaço, como os casapianos Diogo Pinto, grande destaque no Estrela da Amadora na época passada mas que ainda não se afirmou na equipa-sensação da Liga, e Léo Bolgado. Outros ainda não conseguiram afirmar-se, alternando entre a equipa principal e as formações secundárias. Também já houve jogadores que sairam neste mercado de inverno, como Danilo Veiga, que no verão chegou do Felgueiras para o Gil Vicente e rumou agora ao Rijeka.

Ainda que as contratações nos escalões secundários nacionais tenham representado no verão passado apenas 10 por cento do total de reforços dos clubes da Liga, esse número é superior às últimas duas temporadas e foi uma tendência no mercado de verão em clubes como o Portimonense ou ainda os recém-promovidos Casa Pia e Desp. Chaves, naturalmente mais conhecedores desse mercado.

Esta é uma linha de atuação natural, considera o treinador Nuno Campos. «Não é fácil para os clubes da Liga na maioria dos casos terem a capacidade financeira para irem buscar jogadores a mercados melhores, digamos assim. Então têm de ir um pouco aos mais emergentes e também à II Liga. Acho que tem acontecido, se calhar não tanto como noutras alturas, mas se calhar também é fruto de o mercado ser mais global neste momento», diz ao Maisfutebol o técnico que foi durante muitos anos adjunto de Paulo Fonseca antes de iniciar uma carreira como treinador principal, com passagens por Santa Clara e Tondela.

Como os «grandes» atraem cedo muito do talento

Essa tendência não se estende aos chamados «grandes». Desde logo porque eles fazem desde muito cedo um recrutamento alargado. Se não há mais jogadores a passarem dos escalões secundários para a Liga, isso deve-se também ao facto de muitos deles chegarem muito cedo aos principais clubes. A capacidade de prospeção, em Portugal como por todo o lado, é exponencialmente maior à medida que aumenta a dimensão do clube. Aliada, naturalmente, à capacidade financeira. A rede e o poder de atração dos chamados «grandes», sobretudo Benfica, FC Porto, Sporting ou Sp. Braga, permite-lhes detetar talento muito cedo e recrutar para os seus quadros muitos jogadores que noutras circunstâncias fariam um percurso pelos escalões secundários antes de chegar à Liga.

E quando não o fazem em idades mais precoces, os «grandes» recrutam muitas vezes jogadores jovens nos escalões secundários, sim, mas para os seus vários escalões competitivos abaixo da equipa principal. Uma tendência reforçada pela existência de cada vez mais espaços competitivos onde os jogadores podem crescer, como constata Nuno Campos: «Se recuarmos 10 anos, houve uma grande mudança com as equipas B ou o campeonato revelação. E os clubes maiores têm a capacidade de recrutar a maioria dos jogadores que jogariam numa II Liga, antigamente na IIB, e que hoje jogam nas próprias equipas B, jogam nos campeonatos revelação e nas equipas que compõem esses mesmos clubes.»

Muitas vezes os outros clubes da Liga preferem recorrer precisamente aos quadros dos «grandes», onde estão jogadores de elite, em vez de olharem por exemplo para jogadores de escalões secundários. Mas não são só eles. «A qualidade do trabalho que foi feito torna o jogador de equipa grande filtrado em termos de talento. É normal que esses jogadores sejam muito apetecíveis», observa Nuno Campos. Tanto assim é, que, continua, «já não é fácil as equipas da Liga conseguirem jogadores das equipas grandes»: «Os sub-19 de um clube grande têm mercado numa Holanda, numa Bélgica, num mercado que lhes dá uma competitividade grande e que eles preferem porque financeiramente também é muito superior.»

«Acho que isso não é culpa de ninguém», nota: «Nós formamos muito bem. Agora, o mercado é global, os outros países também olham para o nosso como um mercado formador de excelência e vêm aqui buscar jogadores que possivelmente em anos anteriores iriam ter mercado cá. Os jogadores em Portugal são muito bem formados, na maioria dos casos, e com isso também têm mercado num Chipre ou numa Roménia, que não são mercados de topo mas têm já a capacidade de ir buscar jogadores a Portugal. Isso torna-nos um país sempre mais exportador do que um país que depois retém a sua matéria prima. É inevitável. O dinheiro acaba por mandar um bocadinho nas coisas, é natural.»

«A captação de scouting que se faz em Portugal é muito forte»

O mercado é cada vez mais global e as boas apostas, mesmo nos escalões secundários, não captam apenas a atenção de clubes nacionais. Nuno Campos dá o exemplo do Desp. Chaves, que depois da última época na II Liga transferiu Alexsandro, que tinha vindo do Amora, para o Lille de Paulo Fonseca, no principal escalão francês.

Isto resulta de um cada vez melhor trabalho de prospeção e desenvolvimento dos jogadores em Portugal. É a constatação de Nuno Ferreira, que faz trabalho de scouting no Monza, em Itália, já tendo trabalhado em Portugal com a FPF e ainda na Grécia, no Olympiakos, e em Inglaterra, no Nottingham Forest. «O mercado português é muito bom para desenvolver jogadores, não há qualquer dúvida sobre isso», diz o observador em conversa com o Maisfutebol.

«A captação de scouting que se faz em Portugal é muito forte. As pessoas que trabalham no scouting em Portugal trabalham muitíssimo bem e acabam por recolher a informação e ir buscar o jogador numa fase muito precoce do seu desenvolvimento. Quer a primeira quer a segunda Liga conseguem desenvolver o jogador de uma forma positiva para chegar ao mercado europeu», observa, dando o exemplo do seu trabalho: «Portugal é prioritário. Sempre tivemos atenção à I e II Liga portuguesas. Sobretudo a I Liga, naturalmente. Porque temos que ver também a questão financeira. Nós temos capacidade de comprar jogadores da Liga portuguesa. Podemos sempre esperar que os jogadores se desenvolvam um pouco mais, acompanhá-los e perceber se vale mesmo a pena.»

«É normal que o clube grande não vá buscar jogadores à II Liga»

O observador português toca aqui noutro ponto. Os clubes de maior dimensão, com maior grau de exigência, são tradicionalmente mais reticentes em apostar em jogadores dos escalões secundários. «Os clubes grandes, fruto de terem maior capacidade financeira, são normalmente obrigados, entre aspas, a olhar para mercados de maior dimensão. Quando estamos numa dimensão maior é normal que os nossos olhos se foquem em jogadores que também são internacionais e os jogadores internacionais também já jogam em clubes de dimensão um bocadinho maior», observa Nuno Campos, que trabalhou no FC Porto e no Sp. Braga ao lado de Paulo Fonseca: «É normal que o clube grande não vá buscar jogadores à II Liga, fruto de ter mais capacidade financeira e poder contratar internacionais. Há uma escala natural que se cria, como também o Chelsea vem buscar ao Benfica e não vem buscar normalmente ao V. Guimarães.»

Pode haver outro fator a ter em conta, nomeadamente maior resistência, nomeadamente por parte dos adeptos, a jogadores sem «nome», vindos de um lugar mais baixo na pirâmide do futebol nacional. «A massa adepta de um clube grande é um bocadinho diferente da de um clube mais pequeno. Esses compreendem mais que o clube não tem muita receita e num clube grande os adeptos não compreendem tanto e querem nomes mais sonantes», admite Nuno Campos: «Pode haver alguma frustração para os adeptos por aquele nome não ser tão sonante.»

Nuno Ferreira, por seu lado, considera que há efetivamente um fator de exigência acrescida ao mais alto nível e isso é ponderado pelos clubes na hora de contratar. «Todas essas situações são sempre ponderadas ao máximo. Como eram no Olympiakos. Não é fácil chegar a um campeão grego e começar a ter sucesso. No mercado português contratávamos já com alguma capacidade competitiva assumida pelos jogadores na I Liga portuguesa, em patamares médios. Porque é difícil essa transição», afirma, acrescentando: «E porque às vezes os clubes também não têm facilidade em dar tempo aos jogadores para se adaptarem. Também para não prejudicar o jogador, se vemos que um jogador tem potencial, é melhor deixá-lo evoluir um bocadinho.»

«Nunca é fácil ir buscar um jovem jogador de uma Liga inferior e fazer uma transição para um patamar muito competitivo. É preciso alguma parcimónia nesta decisão», defende, acrescentando que é mais fácil dar esse passo para enquadrar os jogadores noutros escalões do clube, dando exemplo de Baba Fernandes, hoje no Accrington, que o Forest contratou no V. Setúbal: «Em Inglaterra tínhamos equipa de sub-23, para rodar alguns jogadores. Na altura fomos buscar um jogador jovem ao V. Setúbal.»

Para Nuno Campos, não é inevitável que um jogador que venha de escalões secundários tenha mais dificuldades de adaptação. «Por vezes temos uma ideia, se calhar até mais a nível de adeptos, que se for um nome que vem do estrangeiro é um jogador melhor e está mais do que provado que não é verdade», defende: «Eu não tenho medo de apostar em jogadores de onde que que sejam, porque para mim o que conta são as características deles, o talento que demonstram. E depois, têm de ser formados à imagem do treinador do momento.»

O passado já lá vai: agora, o talento está identificado

O sucesso de um jogador depende de muitos fatores. «Há sempre jogadores que nós vamos dizer em todos os sítios e em todos os contextos que passaram ao lado de uma grande carreira. Mas há n situações que levam a isso», observa Nuno Campos. Mas não é fácil, no contexto atual, que um jogador não vingue por não ter sido identificado o seu potencial talento. «As coisas estão muito identificadas, mas há muitos fatores para ser um grande jogador de futebol. Não chega ser um jogador talentoso. Há n fatores que levam a que por vezes se diga: ‘Como é que este jogador chegou ali, ou como é que este jogador não chegou ali?’»

O talento está identificado. No passado não seria tanto assim. Há casos paradigmáticos, como os de Pauleta ou Costinha, e mais tarde Bruno Fernandes, jogadores que se tornaram referências já depois de terem emigrado, antes de terem chegado a jogar na Liga. Mas isso hoje «é muito difícil de acontecer», considera Nuno Campos, falando concretamente dos casos de Pauleta ou Costinha, seus contemporâneos do tempo de jogador: «Na nossa altura era muito difícil ir dos juniores para os seniores. Hoje não há dificuldade em conhecer os jogadores e dar-lhes oportunidades. Hoje o que há é dificuldade em retê-los, porque a capacidade financeira não é a mesma. Eles antigamente estavam escondidos, não havia scouting pelo mundo todo a vê-los. Hoje jogam numa seleção sub-15 e têm 25 pessoas a observá-los.»

«Os clubes em Portugal nessa altura tinham muito poucas pessoas fixas a trabalhar. Hoje os departamentos de scouting têm cinco, seis pessoas. Antigamente eram os amigos que indicavam um jogador… Não havia observadores, a equipa técnica eram três elementos. Eu e o Paulo, até chegarmos ao Paços – e mesmo no Paços éramos três –, trabalhámos assim, ficava difícil contratar nem que fosse um miúdo para nos ajudar. Hoje as equipas técnicas têm cinco elementos, o departamento de socuting tem pelo menos dois e depois vai por aí acima», observa Nuno Campos: «Hoje é difícil passar despercebido um jogador. E ainda bem, sinceramente, acho que Portugal é um caso de grande sucesso nesse aspeto.»

Nuno Ferreira concorda que hoje é difícil haver talento em Portugal que passe por baixo do radar. «É difícil. O mercado já é muito global, há muita informação disponível, há muitos vídeos disponíveis. Agora também na Liga 3, que tem muitos jogos televisionados, o que acabam por dar mais visibilidade e importância também. É uma coisa muito importante que fizeram em Portugal, porque havia jogadores que eram bons mas não estavam a ser promovidos. Neste momento isso chega a muito mais países», observa, concluindo com uma constatação, do ponto de vista de quem vive à procura de talento: «Está cada vez mais complexo e tem que ser cada vez mais rápida a decisão, se não vai outro.»

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