“Parece que tenho um cão a ferrar-me”. Há três fatores que estão a levar cada vez mais pessoas a sofrer de dor nas costas - TVI

“Parece que tenho um cão a ferrar-me”. Há três fatores que estão a levar cada vez mais pessoas a sofrer de dor nas costas

  • CNN Portugal
  • ARC
  • 2 jul 2023, 16:00
Dor lombar

Estamos mais velhos, a vida sedentária a ganhar cada vez terreno e a postura a ficar mais incorreta. Três fatores e um resultado: o aumento dos casos de lombalgia. E, apesar de parecer óbvio, há também algo a dizer sobre o impacto do tabaco na dor lombar. Falamos de uma dor que afeta mais de 600 milhões de pessoas no mundo e uma em cada três em Portugal e que não para de aumentar

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Lúcia Pereira, de 39 anos, está sentada à secretária. O computador aberto à sua frente exibe o projeto em que trabalha afincadamente. O prazo é apertado. Mas a dor “insuportável” teima em não deixar o fundo das costas da designer, especialmente do lado direito. Não consegue concentrar-se, não consegue ver bem. E descreve: “Parece que tenho um cão a ferrar-me”.

É assim o dia a dia de Lúcia há 18 anos. O da designer e de uma em cada três portugueses, que sofrem de dor lombar crónica, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).

E são cada vez mais os casos de pessoas que vivem com dores nas costas. Os números “estão a aumentar”, garante o ortopedista Jorge Mineiro. Não é, no entanto, uma tendência exclusiva de Portugal, mas sim algo que se verifica por todo o mundo, acrescenta o ortopedista e cirurgião Luís Teixeira. 

A dor lombar vai afetar mais de 800 milhões de pessoas em 2050. A previsão é da revista The Lancet Rheumatology, que fala num aumento de 36% face a 2020, ano em que cerca de 600 milhões sofriam de lombalgia

Lúcia, que vive com lombalgia há quase vinte anos, é também presidente da Associação de Pessoas com Dor Crónica. Nessa função, Lúcia perceciona esse aumento: "Há cada vez mais pessoas a sofrerem de lombalgia e há maiores queixas no trabalho".

Mas a que se deve este aumento? As razões são variadas, como explicam os especialistas Jorge Mineiro e Luís Teixeira, em entrevista à CNN Portugal.

1. Estamos mais velhos e a esperança de vida continua a aumentar

80 anos: este é o valor aproximado da esperança média de vida tanto em Portugal como na União Europeia (UE) e que tem vindo a aumentar. Ao mesmo tempo, a população envelhece. 

Ora, "quanto mais velhos ficamos, mais frequente se torna a dor lombar" ou, pelo menos, mais elevado é o risco de vir a acontecer, como explica o também diretor clínico da Spine Center, Luís Teixeira. 

O cirurgião refere ainda que 90% das pessoas com mais de 40 anos já tiveram este tipo de dor no mínimo uma vez na vida. Mas desengane-se se pensa que isto significa que os mais novos escapam à dor lombar. Pelo contrário, esclarece o ortopedista Jorge Mineiro, os mais novos estão a ser cada vez mais afetados por ela.

2. Ser sedentário não ajuda, a obesidade também não

Ter um estilo de vida sedentário é um fator de risco para a maioria das doenças e, no caso da lombalgia, não é diferente. Passar muito tempo sentado e não exercitar o corpo leva ao enfraquecimento dos músculos, um dos melhores aliados ao desenvolvimento de lombalgias.

“É cada vez mais difícil ter tempo para o exercício físico”, admite o cirurgião e ortopedista Luís Teixeira. Esta é a realidade de mais de metade dos adultos da UE, que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), não praticam desporto e têm cada vez menos um estilo de vida ativo. Em Portugal, são quase três quartos dos adultos a seguir esta tendência.

O sedentarismo está, em muitos casos, ligado à obesidade, também ela “um problema gravíssimo” para a região lombar, diz o diretor clínico da Spine Center. O peso por si só funciona como um “fator nefasto” pela “carga que exerce no tronco”, mas o peso associado à flacidez muscular também tem influência, já que “a gordura passa a ocupar as estruturas que seriam músculos”, gerando a dor.

3. Atenção à postura no trabalho

Horas a fio sentados e colados a um computador: este cenário diz-lhe alguma coisa? Pois, tenha cuidado. É um quadro laboral comum a muitos hoje em dia e parece favorável ao desenvolvimento de lombalgias, porque, como afirma o ortopedista Jorge Mineiro, a postura rapidamente se torna “incorreta” e o “equilíbrio” da coluna fica comprometido.

E as cadeiras não ajudam em muitos locais de trabalho, refere Luís Teixeira, da Spine Center. Não sabe se uma cadeira é uma boa cadeira? O cirurgião e ortopedista ajuda: ter apoio de braços e ser flexível é indispensável, os pés devem chegar ao chão enquanto as costas desenham um ângulo de 100 graus. Ah, e não se esqueça de verificar se contém o manípulo para a ajustar.

São estes três fatores que parecem estar a contribuir para fazer disparar o número de casos de lombalgia. Esta é “a dor na região mais baixa da coluna, que liga a parte superior e a parte inferior do corpo", explica o ortopedista Jorge Mineiro. Em causa está, como garante o cirurgião e ortopedista Luís Teixeira, uma das dores mais incapacitantes e que se tornou a primeira causa de absentismo laboral bem como a segunda maior razão para procurar o médico de família.

Alerta tabaco, alerta tabaco, alerta tabaco

Sabia que quem fuma tem mais dores nas costas? Pois, parece não haver relação, mas acredite que há, como garantem os especialistas Jorge Mineiro e Luís Teixeira.

O tabaco e a idade juntos formam uma equação positiva para a discopatia: o desgaste dos discos invertebrais, que se encontram entre as vértebras da coluna, que começam a “estragar-se” e criam dor nas costas, explica o ortopedista Jorge Mineiro.

Luís Teixeira, o diretor clínico da Spine Center, diz ainda que “fumar diminui o desenvolvimento dos vasos sanguíneos”. Responsáveis por transportar o sangue pelo corpo, os vasos tornam-se mais pequenos, o impacto sobre a coluna aumenta e as lombalgias podem vir dizer-lhe "olá".

“Vamos aprendendo técnicas para esquecer a dor”

Fisioterapia, analgésicos, anti-inflamatórios e opióides. Opções de tratamento para a lombalgia não faltam, mas nada “tira completamente a dor”, conta o ortopedista Jorge Mineiro.

Lúcia Pereira, a presidente da Associação de Pessoas com Dor Crónica que toma anti-inflamatórios e opióides para combater a lombalgia de que sofre há quase vinte anos, confirma-o: “Aliviam mas não tiram a dor”. “Os medicamentos são só um disfarçador da dor”, acrescenta.

A designer, de 39 anos, convive com a dor “insuportável” há tanto tempo que até já lhe consegue dar a volta em "dias melhores": “Vamos aprendendo técnicas para esquecer a dor e começamos a tolerá-la”. No trabalho, ajustou-se à “condição”, como lhe chama. Agora, em vez de passar o tempo todo sentada ao computador, opta por “fazer pausas mais regulares, levantar-se e alongar”.

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