"Consegui a morada de um certo atual primeiro-ministro". Foi assim que Bruno Gonçalves, chefe da PSP e um dos principais arguidos do processo do Movimento Armilar Lusitano, anunciou aos restantes membros do grupo que tinha obtido a morada completa de Luís Montenegro. Segundo a acusação, a informação saiu de documentos a que acedeu na Polícia Municipal de Lisboa e incluía o número de porta, o andar e a indicação de que a casa tinha policiamento permanente.
A frase aparece numa das mais de 700 páginas da acusação ao Movimento Armilar Lusitano, a que a CNN Portugal teve acesso, e ajuda a perceber o salto que, na leitura do Ministério Público, o grupo deu ao longo dos anos: de uma comunidade extremista alimentada nas redes sociais para uma estrutura que recolhia dados sobre figuras públicas, catalogava adversários, discutia armas e admitia cenários de violência política.
A mensagem foi enviada a 3 de março de 2025 no grupo de Signal “Lista dos Indesejáveis”, um dos espaços reservados onde os elementos mais ativos do movimento partilhavam informação sobre pessoas que consideravam como alvos e onde partilhavam moradas e outros dados sensíveis.
No caso de Luís Montenegro, Bruno Gonçalves avisou também que a residência tinha guarda policial. Ainda assim, não fechou a porta a uma eventual ação. Segundo a acusação, escreveu que “dava para planear à volta disso”. Ricardo Almeida respondeu que o tema justificava uma “conversação” com direito a “planificação”, sublinhando que o primeiro-ministro teria sempre de entrar e sair de casa.
A partir daí, a conversa avançou para o planeamento, tendo aquele arguido explicado aos restantes elementos que o pessoal da divisão de segurança não seria “propriamente operacional”, embora admitisse que pudesse estar armado com pistola-metralhadora e que Montenegro pudesse estar acompanhado por elementos do Corpo de Segurança Pessoal.
Dessa forma, a hipótese de sequestro foi afastada. Mas a conversa não ficou por aí. Segundo o Ministério Público, Bruno Gonçalves considerou que essa opção estava fora de hipótese para si e para os restantes membros do grupo, mas acrescentou outra possibilidade: “Sequestro é para esquecer, mas uma granada de 37mm disparada por uma janela adentro não está fora da ementa”.
Para os investigadores, esta troca de mensagens aponta que a chamada “Lista dos Indesejáveis” não funcionava apenas como uma lista de inimigos, mas também como uma ferramenta para recolher dados sobre personalidades políticas e públicas.
Luís Montenegro não era o único nome na mira do MAL. A acusação diz que o grupo recolheu informações sobre várias figuras públicas vistas como “ameaças e/ou alvos” pelo Movimento Armilar Lusitano. Entre elas estavam Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Cavaco Silva, Marques Mendes, Francisco Pinto Balsemão, Carlos Moedas, Rui Tavares e Carlos Abreu Amorim.
O Ministério Público sustenta que algumas dessas informações eram pessoais e não públicas e poderiam ser usadas em “ações futuras com recurso a armas de fogo”. Também de acordo com a procuradora Cláudia Porto, a recolha de dados servia para elementos do movimento estudarem que rotinas os alvos tinham e como poderiam ser atingidos.
A base de dados que teve como nome "A lista dos Indesejáveis" seria constituída por dezenas de pessoas, associações, grupos e organizações classificadas como “indesejáveis”, “elementos de interesse” ou “suspeitos”.
Entre os alvos coletivos surgia, por exemplo, a SOS Racismo. Numa conversa, os arguidos chegaram a discutir a possibilidade de entrar na sede da associação para recolher ficheiros com dados pessoais. Bruno Gonçalves escreveu que aquilo que não conseguissem recolher “incendiávamos”.
Movimento privilegiava militares e polícias
A génese do movimento é situada em círculos anti-imigração e xenófobos que ganharam expressão nas redes sociais, primeiro em torno da chegada de refugiados sírios a Portugal e, mais tarde, contra muçulmanos, judeus, ciganos, imigrantes, pessoas LGBT e forças políticas identificadas como sendo de esquerda.
À medida que o movimento se foi estruturando, Bruno Gonçalves foi assumindo um papel cada vez mais central. De acordo com a acusação, o chefe da PSP estava envolvido na triagem de novos elementos e participava nas decisões sobre quem podia integrar os núcleos mais restritos do grupo. De resto, o processo de seleção começava logo antes de qualquer encontro presencial. Os candidatos eram sujeitos a questionários onde indicavam a profissão, a condição física, eventuais competências militares, conhecimentos de primeiros socorros e experiência no manuseamento de armas.
Segundo a acusação, o movimento privilegiava militares, polícias, antigos elementos das forças de segurança, seguranças privados, sobrevivencialistas, negacionistas, anti-vacinação e pessoas anti-sistema.
Existia também latente uma lógica de preparação lenta. Numa das mensagens citadas na acusação, Bruno Carrilho, outro dos elementos centrais do grupo, escreveu que “o segredo deste movimento é passar pela sombra”. O objetivo, acrescentava, era ter “militantes para o dia D” e estar “preparados”.
Para o Ministério Público, grande parte dessa preparação passava por ter acesso a armamento. Nas páginas da acusação há descrição de contactos com armeiros, treinos de tiro e interrogações sobre que tipo de armamento não levantaria alarmes. É neste ponto que a procuradora chega a uma das dimensões mais sensíveis deste processo, o fabrico de armas com recurso a impressoras 3D.
Os arguidos, especialmente o chefe da PSP, terão feito várias experiências com este tipo de armas. Durante as buscas realizadas pela Polícia Judiciária, os investigadores apreenderam computadores, telemóveis, discos de armazenamento e outros suportes digitais onde encontraram ficheiros, manuais técnicos, imagens, esquemas de montagem e instruções detalhadas relacionados com modelos de armas impressas em 3D, como a FGC-9, a Not-a-Glock e a YEET22. Segundo a acusação, foram ainda localizados componentes e acessórios destinados a este tipo de armamento, bem como documentação digital compatível com o fabrico artesanal de armas, incluindo ficheiros que permitiriam produzir ou adaptar peças através de impressão tridimensional.
Na acusação, o Ministério Público sublinha que estas armas “representam uma ameaça crescente à segurança pública”, já que podem ser produzidas “fora dos mecanismos legais de controlo, registo e rastreabilidade”. No caso do Movimento Armilar Lusitano, alguns dos arguidos procuraram mesmo desenvolver capacidades próprias de fabrico e manutenção ao mesmo tempo que, em fóruns, discutiam testes com estas armas e procuravam resolver problemas técnicos relacionados com elas.
Armas 3D na mira da PJ
Em janeiro de 2023, segundo a acusação, Bruno Carrilho, um dos arguidos, enviou a Bruno Gonçalves componentes e armas produzidas com recurso a impressão 3D. Numa das conversas analisadas pelos investigadores, Bruno Gonçalves explicou que ainda não tinha conseguido concluir a montagem de duas armas de calibre .22 porque lhe faltavam os canos. Noutras trocas de mensagens, os dois discutiram aspetos técnicos relacionados com a construção e funcionamento destas armas, incluindo peças, sistemas de disparo, corrediças, filamentos de impressão e formas de as tornar operacionais.
Mais tarde, a investigação encontrou referências a adaptadores para silenciadores impressos em 3D. Nuno Pais escreveu então que estava ligado o “modo furtivo”. Bruno Carrilho acrescentou que ter armas “sem fazer barulho” dava vontade de ir “dar uma volta à Amadora experimentar”. A acusação apresenta estas conversas como mais um indício da passagem da retórica para a preparação.
À medida que surgiam referências a armamento impresso em 3D, explosivos e possíveis alvos políticos, os investigadores foram consolidando a convicção de que o movimento tinha ultrapassado o plano teórico. Na acusação, o Ministério Público sustenta que os arguidos atuavam já numa lógica de preparação operacional e não apenas de discussão ideológica, descrevendo um processo de “recolha de informação suscetível de ser utilizada em ações futuras com recurso a armas de fogo”.
Mas a escalada tornou-se mais visível nos dias anteriores às detenções. A 10 de junho de 2025, Bruno Gonçalves gravou um vídeo a manusear uma arma impressa em 3D do tipo lançador de granadas. “Isto está bastante avançado”, dizia, enquanto mostrava o objeto e explicava que ainda faltavam peças e que a granada estava em desenho, mas concluía: “Está no bom caminho.”
No dia seguinte, o canal público do MAL no Telegram voltou a apontar para o topo do Estado. Bruno Carrilho publicou uma imagem de Marcelo Rebelo de Sousa a beijar o escudo armilar e perguntou: “O que merece este filho da puta?” Um utilizador respondeu: “Destituído da presidência e enterrado bem fundo ou matá-lo em público para dar o exemplo.”
A 16 de junho de 2025, a Polícia Judiciária avançou. Quando a Unidade Nacional Contra-Terrorismo fez as buscas e detenções, encontrou no telemóvel de Bruno Gonçalves vídeos de treino de tiro, imagens de armas e um vídeo em que Bruno Carrilho manuseava uma peça de arma impressa em 3D.
O Ministério Público acusa nove arguidos de um total de 29 crimes, incluindo chefia e adesão a grupo terrorista, infrações terroristas, recrutamento, incitamento, financiamento do terrorismo, tráfico e mediação de armas, detenção de arma proibida, acesso ilegítimo e abuso de poder. O despacho distingue o núcleo central do Movimento Armilar Lusitano dos restantes arguidos ligados sobretudo ao circuito das armas.
No caso de Bruno Gonçalves, chefe da PSP e um dos arguidos apontados como operacionais do movimento, acrescem ainda dois crimes de acesso ilegítimo e dois crimes de abuso de poder, relacionados com o acesso a sistemas informáticos usados para obter informação.
Os restantes quatro arguidos surgem ligados sobretudo ao circuito das armas. José Carrilho é acusado de tráfico e mediação de armas e de detenção de arma proibida. Gonçalo Marques responde por tráfico e mediação de armas. Vítor Marques e Richard Santos são acusados de detenção de arma proibida.
Para o Ministério Público, a atuação do grupo ultrapassou “totalmente” os limites da liberdade de pensamento e expressão. A procuradora sustenta que os arguidos agiram com o objetivo de intimidar e aterrorizar pessoas que identificavam como “alvos” ou “ameaças”, apenas por “terem ou defenderem uma forma diferente de ser, de existir, de pensar ou de viver”.
A acusação vai mais longe e descreve os valores defendidos pelo núcleo do MAL como “característicos dos regimes fascistas”, apontando o “belicismo”, a “violência como forma de luta política”, o racismo e a exaltação de Adolf Hitler. Na leitura do MP, a recolha de dados, o recrutamento e o arsenal em preparação faziam parte de uma atuação “muito perigosa” e “subversiva”, capaz de “instigar à ação violenta para derrubar o regime democrático”.