"É de um amigo meu. Poderoso". Dúvidas sobre pagamentos a empreiteiro que trabalhou para a PJ colocam pressão no ministro Luís Neves - TVI

"É de um amigo meu. Poderoso". Dúvidas sobre pagamentos a empreiteiro que trabalhou para a PJ colocam pressão no ministro Luís Neves

  • CNN Portugal
  • 11 jul, 20:58

Polémica que envolve o ministro da Administração Interna continua, depois de Luís Neves ter recusado apresentar comprovativos de pagamentos feitos a um empreiteiro que fez obras numa propriedade sua – construtor esse que já tinha trabalhado para a Polícia Judiciária.

As obras feitas por um empreiteiro que trabalhou para a Polícia Judiciária em casas do ministro da Administração Interna estão a transformar-se numa dor de cabeça política para Luís Neves. O caso já motivou perguntas do Chega ao Governo, bem como a exigência de mais esclarecimentos.

 A polémica começou com uma manchete do jornal Nascer do Sol, do mesmo grupo da TVI e CNN Portugal. O semanário revelou que João Carvalho, empreiteiro de Barcelos que realizou obras para a Polícia Judiciária quando Luís Neves era diretor da instituição, está agora a fazer obras num imóvel adquirido pelo atual ministro em São Teotónio, no concelho de Odemira.

Para Felícia Cabrita, autora da investigação, “estamos aqui, no mínimo, com um problema ético”, como afirmou na antena da CNN Portugal.

O jornal revelou ainda que o empresário foi investigado pela Polícia Judiciária, em 2017, por suspeitas de falsificação de documentos e insolvência dolosa.  

“O que o historial desta empresa nos mostra é que é uma empresa, ao nível financeiro, de elevado risco e com um historial de litigância”, insistiu Felícia Cabrita, lembrando que João Carvalho teve “variadíssimas outras empresas que já foram à falência”.

Mas a investigação não ficou por aí: a empresa Construbarcelos trabalhou para a PJ entre 2019 e 2025, em obras na Guarda e em Évora. Ao longo desse período, terá faturado dois milhões de euros.

O Nascer do Sol divulgou também áudios que, segundo o jornal, evidenciam uma relação de proximidade entre o empreiteiro e o governante.

“Ainda ontem estive aí num sítio, não vou por nomes. No Alentejo. É de um amigo meu. Poderoso. Algumas coisas até aluga. E não aluga muito caro. É num bom sítio. Odemira, São Teotónio. Às vezes só vai para lá quem quer ir lá passar umas férias boas. Tem piscina. E não é caro. Ele explora aquilo… o filho. Uma coisa acessível, até demais. Um sítio sossegado, boa vinhaça, uma adega”, ouve-se num deles.

Durante um almoço com potenciais clientes, João Carvalho falou do ministro, mostrou dele no telemóvel e chegou mesmo a receber uma chamada de Luís Neves.

“Vocês não falem, é o ministro. Estou, senhor ministro? Está em Coimbra? Ah, está bem. Jantamos aí num bom sítio. Umas paletes, de quê? Estou. Estou, senhor ministro… Posso ligar daqui a meia horinha? O doutor ligou-te para sexta-feira? Sabes um bom sítio em Guimarães, para irmos jantar com eles? O Conselho de Ministros é lá, em Guimarães”, ouve-se.

Na conversa, o ministro falou da agenda oficial dos dias seguintes e pediu aquilo que descreve como umas paletes de relva para a propriedade no Alentejo. O empreiteiro tratou de imediato da encomenda, chegando mesmo a organizar um jantar com Luís Neves e o ministro da Agricultura.

Em resposta ao Nascer do Sol, Luís Neves garantiu que não existiu qualquer tratamento preferencial ao empreiteiro João Carvalho e que os procedimentos seguidos pela Polícia Judiciária obedeceram às regras legais.

Entretanto, o Observador procurou perceber como foram pagas as obras do ministro. O jornal refere que foram emitidas faturas pela empresa do empreiteiro, num total de cinco mil euros, mas diz que Luís Neves recusou apresentar os respetivos comprovativos de pagamento. Ao todo, a empresa que está em nome da mulher do ministro já gastou mais de 27 mil euros nestas obras.

Também Felícia Cabrita, autora da investigação, insiste na necessidade de que Luís Neves apresente um "comprovativo documental do pagamento das faturas" em causa.

As explicações não convenceram toda a oposição. O caso já levou o Chega a enviar dez perguntas à ministra da Justiça, exigindo esclarecimentos.

“Não podemos ter um ministro da Administração Interna que não só recusa o escrutínio como ameaça partidos com investigações ou com o uso e abuso de poder pelas funções que teve ou pelas funções que têm de titularidade das polícias como órgão de soberania. Uma democracia não pode tolerar, muito mais quando isso é para esconder a falta de transparência no uso do dinheiro público ou o seu conflito com interesses de natureza privada”, afirmou André Ventura, presidente do Chega.

Para já, ficam as dúvidas sobre a relação entre o ministro e o empreiteiro que trabalhou para a Polícia Judiciária. E também a pressão política para que sejam dados mais esclarecimentos sobre este caso.

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