"Não há favorecimento nenhum". Luís Neves não se compromete a divulgar faturas pagas ao empreiteiro: só o fará "se entender que ainda é necessário" - TVI

"Não há favorecimento nenhum". Luís Neves não se compromete a divulgar faturas pagas ao empreiteiro: só o fará "se entender que ainda é necessário"

  • CNN Portugal
  • 12 jul, 21:12

Em entrevista à TVI e CNN Portugal, o ministro da Administração Interna argumenta que a maioria dos contratos do empreiteiro com a PJ teve lugar num período em que não conhecia João Carvalho – e que há também registos de concursos perdidos pela Construbarcelos. Luís Neves confirma que se tornou “amigo” do empreiteiro, a quem pediu aconselhamento em relação à obra na casa de São Teotónio. Os cinco mil euros pagos, diz o ministro, foram para “pequenas despesas e fundo de maneio”. O custo final da obra – que só agora tem o processo de licenciamento em curso - ainda não foi liquidado.

O ministro da Administração Interna não vê necessidade de apresentar publicamente os comprovativos dos pagamentos feitos ao empreiteiro que trabalhou também para a Polícia Judiciária (PJ) enquanto o governante era diretor nacional desta polícia.

“Não tenho nenhum problema em apresentar as faturas”, afirmou em entrevista à TVI e CNN Portugal. Mas quando o fará? “Logo que as tenhas e se entender que ainda é necessário, apresentarei as faturas”.

Luís Neves garantiu ainda que não existiu qualquer vantagem, como um desconto face aos preços de mercado. “Não há favorecimento nenhum”, defendeu.

Em causa está a empresa Construbarcelos, de João Carvalho, que trabalhou para a PJ entre 2019 e 2025, em obras na Guarda e em Évora, faturando dois milhões de euros.

“Desses dois milhões de contratação pública que teve com a PJ, mais de 70% é num período em que eu não conheço o senhor de lado nenhum”, justificou Luis Neves, lembrando que assinou “centenas de contratos” enquanto diretor nacional da PJ.

No mesmo período, insistiu, “a polícia tem centenas de contratos a que ele não concorreu ou em que perdeu contratos”. “Não há nenhum conflito de interesses”, resumiu.

“As faturas que estão no E-Fatura foram declaradas às Finanças”

Luís Neves continua sem apresentar comprovativos de pagamento ao empreiteiro, depois de ter sido tornado público que emitiu faturas num total de cinco mil euros à empresa de João Carvalho.

Na entrevista à TVI e CNN Portugal, o governante insistiu que as faturas que tem “estão no E-Faturas, na Autoridade Tributária, de materiais que eu adquiri”.

“As faturas que estão no E-Faturas foram declaradas às Finanças. Há um fornecedor e há aquele que foi fornecido, que sou eu”, disse.

O ministro referiu que ainda “não teve oportunidade” de ter as faturas públicas desde que foi confrontado sobre este caso na passada quinta-feira. Mas irá fazê-lo? “Não penso que seja absolutamente necessário”.

“Isto não é clicar de um botão para o outro, tenho outras coisas para fazer”, reagiu, acrescentando que “a faturação está na contabilista, está guardada”.

Ainda assim, o governante admitiu que, perante o que sabe hoje, “teria contratado outra pessoa” para realizar a obra.

Antes de a notícia se tornar pública, com a manchete do Nascer do Sol (do mesmo grupo da TVI e CNN Portugal) na sexta-feira, Luís Neves comunicou o caso ao primeiro-ministro, Luís Montenegro.

Cinco mil euros “para pequenas despesas e fundo de maneio”

Luís Neves concretizou o destino dos cinco mil euros pagos a João Carvalho através da empresa da mulherdiz: “Isso são cinco mil euros que lhe fui dando aos fins de semana para pequenas despesas e fundo de maneio”.

“As obras são três paredes e uma casa de banho, com sete metros quadrados, um alpendre e um tanque”, explicou.

O ministro estima que as obras na propriedade em São Teotónio, Odemira, vão custar entre 20 e 30 mil euros, “quando a obra estiver acabada”. A propriedade será destinada a alojamento local.

“Hei de pagar quando for apresentada a fatura final”, garantiu. E acrescentou: “As obras vão sendo feitas aos fins de semana, quando é possível. Se eu tivesse a obra pronta, já tinha pago três, quatro, cinco, seis vezes mais a obra do que ali está”.

Luís Neves revelou que tem apenas contratos verbais e que não pediu licenças atempadamente.

 “São contratos absolutamente verbais. Não é preciso contratos [escritos] para uma coisa desta natureza”, afirmou.

Ainda assim, adiantou, o processo de licenciamento já avançou junto da autarquia. “Entendi que, se calhar [para] aquelas obras, não precisavam de ser pedidas” licenças, justificou.

Neves diz não ter informações sobre investigação da PJ à empresa

Luís Neves assegura que não recebeu qualquer vantagem, como um desconto face aos preços de mercado, por escolher um empreiteiro que já tinha trabalhado para a instituição que liderou. Conheceram-se ambos durante uma grande obra para a PJ na Guarda e acabaram por se tornar amigos, uma vez que gostou do trabalho desenvolvido por João Carvalho.

“Tornei-me amigo de uma pessoa. Pedi-lhe uma opinião. Nunca na minha cabeça me passou que ele ia fazer as obras”, lembrou o ministro.

“Esta pessoa quando lá vai é para me dar uma opinião, não é para fazer obras nenhumas, é para me dizer o que faria se fosse ele, ainda bem que o levei que teve boas ideias”, explicou.

Luís Neves insistiu que João carvalho é “pessoa idónea”, dizendo não ter informações relativas à alegada investigação levada a cabo pela PJ ao empreiteiro. O jornal Nascer do Sol, que avançou com este caso, revelou que o empresário tinha sido investigado pela PJ, em 2017, por suspeitas de falsificação de documentos e insolvência dolosa.  

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