Em entrevista à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), no último domingo, o atual ministro da Administração Interna, e antigo diretor nacional da Polícia Judiciária, desvalorizou a empreitada no seu monte em São Teotónio, concelho de Odemira.
Luís Neves desvalorizou também a fórmula de pagamento combinada com o amigo Luís Santos Carvalho, empreiteiro de Barcelos responsável pela empresa Construbarcelos, que fez contratos com a PJ entre 2019 e 2025 e está a remodelar os montes alentejanos do ministro.
"Isso são cinco mil euros que eu lhe fui dando aos fins de semana, quando ele ia lá, para pequenas despesas, para fundo de maneio", afirmou Neves na TVI, referindo-se a duas faturas que ele próprio tem exibido à comunicação social - e que, em rigor, consistem numa fotografia ao ecrã de um computador ligado ao Portal das Finanças com dois registos de faturas de 2.500 euros cada uma em 2025.
Acrescentou: "Ele [o empreiteiro] há de apresentar… As obras são três paredes, uma casa de banho com sete metros quadrados e um alpendre e um tanque que foi feito. É disto que estamos a falar".
Questionado sobre se tem ideia de quanto irá pagar no fim, Luís Neves disse: "Irei pagar uns 20 mil euros, 25, 30 mil, à volta disso".
Acontece que pelo menos a piscina está terminada. E por isso já deveria estar paga integralmente.
O Exclusivo consultou alguns construtores, que garantiram que só a piscina custaria entre sete e nove mil euros, sem contar com os custos de deslocação e de alojamento dos trabalhadores da Construbarcelos. De Barcelos a Odemira são cerca de 520 quilómetros de distância, ou cinco horas de viagem.
Além disso, os mesmos construtores contactados afiançaram que o total das obras nos montes supera em muito 20 a 30 mil euros. E que um preço tão baixo, como o que o ministro referiu, só pode ser um ‘preço de amigo’.
A Câmara de Odemira garantiu nesta segunda-feira que qualquer piscina é uma obra urbanística e por isso precisa de licença.
À CNN Portugal, Luís Neves disse no domingo, sobre se tinha pedido alguma licença para as obras, que «estão a tratar da licença, são questões muito simples, interna, externamente». Mas porque é que não pediu logo a licença? «Entendo que se calhar aquelas obras não são precisas de ser pedidas, no que está feito internamente».
Segundo fonte oficial da autarquia de Odemira, após pedido do Exclusivo «não foi possível encontrar qualquer processo de licenciamento/comunicação de obras» para os montes do ministro em São Teotónio.
Há mais. Ao Nascer do SOL, cuja edição impressa, na sexta-feira, adiantou a notícia da cumplicidade entre Luís Neves e João Santos Carvalho, o ministro disse que só tinha feito obras num dos montes - e tem pelo menos dois em São Teotónio.
O Exclusivo visitou o local e colheu imagens que uma vez mais desmentem Neves. Há equipamentos da Construbarcelos nos dois montes. Há um alpendre, uma cozinha exterior e uma retroescavadora que indicia que obras em curso.
Neves declarou que se um dos montes já estivesse pronto, o seu alojamento local já estaria a render. Ainda ao Nascer do SOL, o empreiteiro de Barcelos disse que o alojamento local já estava a render e que Neves "aluga e não é caro".
A empresa que explora o monte, no que a turismo diz respeito, é a AL Campos, gerida pela mulher de Luís Neves, que é a única sócia. A AL Campos foi registada em Almada em 16 de junho de 2023, era Luís Neves diretor nacional da PJ.
Abriu com um capital social de 500 euros para, entre outras atividades, se dedicar a negócios imobiliários e a alojamento local.
Apesar da insistência do Nascer do SOL e da TVI, nesta segunda-feira à tarde o ministro continuou sem mostrar os comprovativos de pagamento das obras nos montes. Não o fez até à hora de publicação desta notícia.