Taira e o conflito no Médio Oriente: «Foi mais tranquilo do que pareceu em Portugal» - TVI

Taira e o conflito no Médio Oriente: «Foi mais tranquilo do que pareceu em Portugal»

Afonso Taira (Abha Club, X)

Formado em gestão para lá do futebol, Afonso Taira encontra espaço no calendário desportivo para a família, economia e geopolítica. Em entrevista ao Maisfutebol, o médio esclarece o que viveu na Arábia aquando do escalar da tensão entre EUA e Irão. Outrora na formação do Sporting, Taira conquistou a segunda divisão saudita e tem o futuro em aberto. Até porque política e futebol misturam-se - PARTE I

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A dois jogos de concluir a terceira época na segunda divisão da Arábia Saudita, Afonso Taira espreita o “salto” para ombrear com Cristiano Ronaldo, João Félix e Rúben Neves. Aos 33 anos, o médio formado entre Estoril e Sporting liderou o Abha Club à conquista do campeonato. Há dois anos, pelo Al Kholood, festejou a subida à liga.

Em entrevista ao Maisfutebol a partir de Abha, no sul da Arábia, Afonso Taira revela nuances competitivas daquele país, aborda o futuro – até para lá do futebol – e esclarece o contexto geopolítico à boleia da tensão entre Estados Unidos e Irão.

Para este português com formação académica em gestão, no calendário preenchido pelo futebol há espaço para política, economia e cultura.

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Maisfutebol (MF): Porquê continuar na segunda divisão e rumar ao Abha Club?

Afonso Taira (AT): Foi um terceiro passo. No Al Kholood conseguimos a subida, não poderia ter começado melhor a aventura na Arábia. Pelo Al Batin foi diferente, porque falhámos a subida. Neste terceiro ano, o Abha apresentou-me um projeto mais estruturado, as escolhas de jogadores e treinador [o croata Damir Buric] foram bem feitas. O sucesso desta época – campeões e sempre dominantes – é fruto de um clube com um nível de profissionalismo muito alto.

MF: Qual a diferença entre o Abha e os últimos classificados da primeira divisão?

AT: Tenho quase a certeza de que, neste momento, se jogássemos contra eles, seríamos superiores. Já faltaram jogadores-chave para jogos-chave e a equipa funcionou sem sobressaltos. Não é sorte.

[Entrevista interrompida por anúncios repetitivos que ecoam na rua]

MF: Não posso ignorar o som ambiente. Quer contextualizar?

AT: [Risos] Claro. Neste momento são 12h20 [10h20 em Portugal Continental] e está na hora da reza. O som vem das mesquitas, é a chamada para a reza. Cada aldeia tem a própria mesquita. À nossa volta, num raio de 500 metros, devemos ter três mesquitas. São cinco rezas por dia e as horas variam consoante a posição do sol. Por isso é que os nossos jogos têm horários peculiares, como 14h55 ou 18h25. Neste momento, se eu fosse muçulmano, teríamos de interromper a entrevista.

MF: Foi fácil gerir a época desportiva com o Ramadão?

AT: Nunca é fácil. A adaptação total obrigaria a virar o dia para a noite. Não o faço porque tenho a família comigo e a escola dos meus filhos continua nos mesmos horários. Ou seja, requer criatividade para conjugar horários de refeições, treinos e sono. Muitas vezes chegava ao balneário, após o treino, e já passava da meia-noite.

MF: (…)

AT: É complicado antecipar a dinâmica num estágio, porque os hotéis não vão estar preparados para te servir à hora normal do pequeno-almoço, almoço e lanche. Em alternativa, levo comida de casa e ovos para cozer no quarto. O clube dá o máximo de apoio, mas há que salvaguardar.

MF: Na segunda divisão está também o Al Ula de José Peseiro, na luta pela promoção. Apenas os dois primeiros sobem direto.

AT: O Al Ula (4.º) e o Al Diriyah (2.º) são clubes fora da nossa dimensão e de interesse estratégico para o país, à semelhança do Neom e do Al Qadisiyah. O Al Ula está no destino turístico mais trabalhado e o Al Diriyah está no centro histórico de Riade. Portanto, têm de subir – sim ou sim. Além disso, o Al Ula tem um bom plantel, uma boa equipa técnica e boas estruturas. A subida, mesmo que aconteça via play-off, é muito possível.

MF: (…)

AT: Em todas as épocas defrontei clubes de interesse estratégico, por norma são campeões com larga vantagem, com orçamentos muitíssimo superiores. A esse nível só ficam atrás do top-5 da primeira divisão. Esta época, o Abha conseguiu estar por cima no relvado, o que gerou impacto.

 

MF: Está em final de contrato. O próximo passo está definido?

AT: É difícil decidir algo nesta fase. Quando se sobe de divisão há reestruturação do projeto e estamos dependentes de interesses superiores. O governo e a federação influenciam várias situações e a gestão do clube não é independente. Claro que ambiciono jogar no topo, até porque tenho duas subidas de divisão.

MF: Já pensa em cumprimentar Cristiano Ronaldo e os restantes portugueses do Al Nassr e Al Hilal?

AT: Seria uma cereja no topo do bolo. Poder ombrear com essas estrelas seria um passo bonito.

MF: Mas há o desejo de regressar a Portugal.

AT: É inevitável. Há a vontade de disputar a Liga, uma competição fantástica. É casa. Há sempre essa vontade e porta aberta.

MF: Qual é o próximo passo para o futebol saudita?

AT: Se for um projeto efetivamente diferente da China e da Rússia, têm de pensar e planear o sistema de formação. O jogador saudita tem de crescer. É algo que já acontece nos principais clubes. No Neom, por exemplo, todos os escalões subiram. Há que investir em estruturas, equipas técnicas, olheiros, nutricionistas e psicólogos para a formação. É um passo importante.

MF: Fora do campo, o Afonso investiu na formação académica, na área da gestão, e interessa-se por geopolítica e sociologia. Como lidaram com o escalar do conflito entre Estados Unidos e Irão, que implica vários países do Médio Oriente?

AT: Todos esses interesses são intrínsecos, porque entendo que posso aportar mais ao futebol do que apenas como jogador. Quanto ao conflito militar, a princípio foi complicado de prever a dimensão, mas relativamente fácil de compreender a questão do estreito de Ormuz, extremamente relevante para as indústrias e economias de vários países. A Arábia manteve-se estável e tranquila, tomando as devidas precauções – o que nos impossibilitou de viajar e jogar. Abha não teve qualquer problema. Foi mais tranquilo do que pareceu em Portugal.

MF: (…)

AT: Para mim e para a minha mulher esta situação não foi novidade. Nunca passámos por algo semelhante, mas joguei em Israel, um país que vive um conflito como parte do quotidiano.

MF: Para lá do relvado, o que consome de desporto? E fora desse âmbito, o que gosta de fazer?

AT: Futebol. Não vejo outras modalidades de forma consistente, por vezes ténis e Fórmula 1. Fora do desporto, gosto muito do mundo empresarial e financeiro, e de praia. Temos muita e boa em Portugal, felizmente. Para lá da família, amigos e praia, de Portugal sinto falta da comida, do nosso peixe e da nossa carne.

Prossiga para a segunda parte desta entrevista.

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