Assumiram o “difícil” e “ingrato” papel de serem madrastas: “Não sou mãe. Sei que não sou. Mas tenho um carinho por ele que não tenho por outras crianças. É minha família” - TVI

Assumiram o “difícil” e “ingrato” papel de serem madrastas: “Não sou mãe. Sei que não sou. Mas tenho um carinho por ele que não tenho por outras crianças. É minha família”

Abraço (Getty Images)

Quando iniciaram as atuais relações, Raquel, Anabela, Patrícia e Inês tornaram-se peças fundamentais na vida de outras pessoas: crianças e adolescentes filhas dos companheiros. Tornaram-se madrastas. Nuns casos, são histórias felizes. Noutros, há muitas mágoas pelo meio. Todas são histórias muito diferentes dos contos infantis que tão má fama trazem às madrastas

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Raquel Pereira é administrativa bancária na região de Lisboa. Mãe de uma menina de cinco meses e madrasta de um menino de três anos. Quando começou a namorar com o marido já sabia que ele tinha um filho bebé, com guarda partilhada. Aliás, conhecia bem o caso. Trabalha na mesma instituição do que o marido e acompanhou de perto a sua história.

“Nunca foi algo que fosse impedir seja o que for. Comecei a vir aos poucos a casa do meu namorado, a estar com o menino. Ele é muito pequenino. Tinha um ano quando começámos a namorar, mas decidimos fazer tudo com calma para ele se habituar. Damo-nos muito bem, eu e o menino. É a realidade dele desde sempre. Não tem memórias de outra realidade”, resume Raquel, de 30 anos.

Garante que o que sentiu pelo enteado foi “amor à primeira vista”. Sentiu até, reconhece agora, um excesso de proteção: “Sentia que o pai não fazia as coisas bem e queria eu fazer tudo. Sentia que só comigo é que o bebé estava bem, que só comigo é que estava a salvo, que só comigo é que não se magoava. Acho que a coisa mais difícil foi mesmo essa, a de aceitar que há coisas que não passam por mim.”

“É um amor que nasce no coração que não se explica. Não sou mãe [dele]. Sei que não sou. Mas tenho um carinho por ele que não tenho por outras crianças. É minha família", acrescenta. 

Raquel prefere não mostrar a própria fotografia, para preservar a identidade do enteado. Engravidou, entretanto, e tem agora uma bebé de cinco meses. Reconhece que as rotinas diárias são mais fáceis na semana em que o enteado está em casa da mãe. Mas admite também que morre todos os dias de saudades quando não o tem por perto. E assume a mágoa de não poder estar em todas as ocasiões da vida da criança. A relação com a mãe do enteado não é das melhores e a administrativa bancária é, por isso, obrigada a falhar datas importantes.

“Não sei se ela tem receio que eu lhe tire o lugar, se tem ainda algum sentimento pelo pai, mas ainda esta semana o menino fez anos e foram cantar os parabéns à escola e ela não autorizou que eu fosse. Nem eu nem a irmã. Fiquei muito triste… eu, ainda vá… mas a irmã?! É um bebé!”, lamenta.

A história de Raquel como madrasta é muito diferente das histórias da Disney ou dos ditos populares que retratam as madrastas como seres maléficos que tanto mal fazem aos enteados. Raquel Pereira garante que não vê grandes diferenças entre o que sente pelo enteado e o que sente pela filha: “É muito parecido. É evidente que o amor por um filho é muito especial, mas o que eu sinto por ela, sinto por ele. Quero tanto a felicidade dele como quero a dela. De coração.”

“Sempre disse que nunca na vida ia ser madrasta”

 A experiência de Inês Neves Rosa, da página Somos Madrastas, é em tudo semelhante e em tudo diferente da de Raquel. Tornou-se madrasta há oito anos de uma menina que está agora a entrar na adolescência.

“Sempre disse que nunca na vida ia ser madrasta. Eu própria fui enteada e a minha mãe era madrasta e eu percebia as dificuldades das famílias recompostas”, começa por revelar, na conversa telefónica que manteve com a CNN Portugal.

Mas a vida trocou-lhe as voltas e apaixonou-se por um amigo que já tinha uma filha. “Quando nos aproximámos amorosamente, eu tinha de tomar uma decisão, ou avanço ou fico no meu preconceito e não faço nada. Mas foi um percurso com muitas dores, muitos desafios… nessa altura, eu já estava a fazer terapia e por lá continuei”, admite.

E se a relação com a enteada sempre foi relativamente fácil, “muito natural” e “muito espontânea”, havia questões interiores a resolver. “Tinha a ver com questões minhas, como encarava este papel. Eu não era mãe, queria muito ser mãe, mas sabia que não era a mãe dela. O papel do meu marido foi muito importante. Conversámos muito. (…) Tive de lidar com ciúmes que eu tinha deles os dois. Tinha começado a namorar e fim de semana sim, fim de semana não, eu era colocada de parte. Com a terapia, percebi que estava a viver na relação deles as minhas próprias dores, porque era filha de um pai ausente”, revela.

Inês Neves Rosa é madrasta de uma menina

Inês viveu então uma solidão que nunca tinha experienciado. Queria desabafar sobre o que sentia, assegurar-se de que não estava sozinha, mas o tema parecia ser tabu: “As madrastas calam-se mais porque sentem que têm associado a si o estigma da bruxa má. Não desabafo com ninguém, porque vou ouvir ‘Já sabias ao que ias’ ou então ‘não tens de suportar isso, vai-te embora’. E eu não queria suportar aquilo que sentia, mas também não queria deixar tudo para trás e ir embora.”

Foi então que criou a página de Instagram Somos Madrastas, que funciona, assume, como “um pólo aglutinador de muitas histórias”. “A minha página visa falar sobre o tema. Mostrar às mulheres que se tornaram madrastas que não estão sozinhas. Não fomento qualquer tipo de rivalidade com a mãe, não pretendo denegrir o papel da mãe ou apontar-lhe o dedo”, sublinha, até porque, conta, a relação com a mãe da enteada “é pacífica, respeitosa, cordial e gentil; não somos as melhores amigas, mas damo-nos bem”.

“Um lugar de mãe”

Inês luta para tirar ao termo madrasta a carga negativa que lhe está associada. É contra os trocadilhos como “mãedrasta” ou “boadrasta”, mas sonha alterar o significado ao termo no dicionário. E viaja até à Dinamarca para dar um bom exemplo: “Em dinamarquês madrasta é stedmor, que, traduzido à letra, quer dizer ‘um lugar de mãe’. E é isso que nós somos: não somos as mães, mas estamos no lugar de mães, sem lhes roubar o lugar.”

“Não gosto que substituamos a palavra. A palavra não é bonita, até soa mal, mas é a que temos. Temos é de lutar para lhe mudar o significado e mudar a realidade. Madrasta não é um palavrão”, argumenta.

Também Patrícia Castilho, 39, gestora de projetos, criou a página Querida Madrasta para lutar contra o preconceito, que começa, precisamente, no dicionário: “A definição de madrasta tem uma coisa factual e duas coisas negativas.”

Patrícia Castilho, a "Querida Madrasta"

De acordo com o Priberam, “madrasta” é "esposa ou companheira do pai, ou da mãe em casais do mesmo sexo, em relação aos filhos por eles tidos em relacionamento anterior; Mãe que não cuida bem dos filhos; Mulher má”. Inês e Patrícia querem tirar carga negativa ao termo, sem desresponsabilizar ninguém.

“Fala-se tanto agora da representatividade, até a Pequena Sereia agora é morena… Mas a madrasta continua a ser a vilã das histórias infantis”, sublinha Patrícia.

“Não estou a dizer que as madrastas são uns seres iluminados, santas, que só fazem o bem. Também as há más. Mas a maioria não são”, acrescenta Inês.

Quando criou a Somos Madrastas, há dois anos, “não havia nada, mesmo nada!”. Inês começou a seguir a página homónima no Brasil e foi a mentora da “irmã mais velha” brasileira que a incentivou a criar o projeto em Portugal. Agora, a Somos Madrastas já se transformou num grupo de WhatsApp, em que se partilham histórias, desabafos e procuram conselhos. E a vida de Inês Neves Rosa, 37 anos, jurista de profissão, também mudou por causa das redes sociais: “Faço encontros, sessões individualizadas de apoio, participações em televisão, em podcasts…”

O que Inês quer é que se fale do assunto, para que mais ninguém se sinta sozinho nas dúvidas e na dor. “Quando se fala, só se fala do lado bonito. Não se fala de nada que doa, que não seja bonito. Há muito poucas histórias sem espinhos. Diria que 20% (se forem 20%...) não terão espinhos. Não é a maioria, nem de perto, nem de longe”, assegura.

“Maternar sem ocupar o lugar da mãe”

A experiência de Anabela Grilo, 42 anos, assistente virtual, não está isenta de espinhos, está longe de se enquadrar nos 20% de que fala Inês Neves Rosa, mas também está longe de ser um reflexo na vida real dos filmes de Hollywood, onde madrastas e enteados se odeiam. Há três anos, em plena pandemia, tornou-se madrasta de três adolescentes, duas meninas que agora têm 12 e 20 anos e de um rapaz que agora tem 16.

Não sou mãe nem está nos planos tornar-me mãe. Mas ganhei a oportunidade de poder maternar sem ocupar o lugar da mãe”, resume.

Até julho, Anabela, que também tem uma página sobre parentalidade e o papel das madrastas, a Madrasta de Fresco (embora assuma que não a alimenta com a regularidade que devia) tinha contacto com os enteados aos fins de semana, de 15 em 15 dias, e todas as semanas às quartas-feiras, quando iam jantar lá a casa. Em julho, o cenário alterou-se e a enteada mais velha foi morar com ela e com o pai.

“Com ela está a correr tudo bem, já vamos à zumba juntas e tudo. Com os outros não está a ser muito fácil. Ainda se estão a adaptar à irmã ter vindo viver para aqui”, revela.

Apesar de tudo, não se pode dizer que haja conflitos com os enteados. “Não existe porque eu não tenho exercido qualquer ascendência, precisamente para não criar os conflitos”, assume.

Anabela diz que sempre olhou para os enteados como três seres que precisam do seu espaço “e como adolescentes que são a gostarem muito disso”. Mas recorda um episódio, “logo ao início”, com a mais nova, “que devia ter 10 anos”: “eu mostrei preocupação à mesa em relação a qualquer coisa que ela estava a comer e ela reagiu”.

Anabela Grilo tornou-se madrasta de três adolescentes

Três anos depois, admite que há dias em que "é mais difícil" gerir as suas próprias emoções. "Mas vou fazer algo que goste, vou à rua dar um passeio… Também procuro estar alinhada com o pai. Ele considera-me e eu também o considero a ele.” “Se eles vivessem 50% aqui e 50% em casa da mãe, a confiança estava mais construída. Às vezes, em 15 dias, porque são adolescentes, parece que há uma regressão… Chegam à sexta-feira e sinto que não estão à vontade. Depois ao domingo está tudo bem. À quarta-feira é tudo muito rápido, jantam e vão embora”, descreve.

Há uma certa resignação à espreita nas palavras de Anabela Grilo. “A maior dificuldade é quando eu gostava de educar, mas não educo. Quem educa é o pai e a mãe. Houve um exercício que fiz logo ao início: custava-me muito ver os quartos desarrumados e perguntei a mim própria porque é que era assim. Então, antes de eles irem embora, eu dizia ‘Vou aqui fazer a tua cama antes de sairmos’. Percebi que sou eu que gosto de os ver arrumados, então sou eu que tenho de os arrumar. Eu não quero ter um quarto desarrumado 15 dias”, exemplifica.

A relação com a mãe dos enteados é inexistente: “Eu não tenho sequer o telefone dela. Nos meus sonhos cor-de-rosa, eu não queria que fosse assim. Acho que até podíamos ser amigas. Na medida que eu estou a ser amiga dela ao ser amiga dos filhos dela.”

Anabela não tem dificuldades em classificar o que sente por cada um dos enteados: “É como se eles fossem meus sobrinhos. É o amor pelos filhos do meu companheiro. Trato-os como idealizo que deviam ser tratados os filhos do meu companheiro.”

Desmistificar a questão

Patrícia Castilho também faz questão de separar papéis: “Desempenho um papel parental com elas, mas não sou mãe biológica. Sempre tive esta vocação cuidadora.” E é nesse papel de cuidadora que assenta a relação com as enteadas.

“Há coisas que são da esfera parental. Eu posso dar a minha opinião, mas a decisão final é do pai e da mãe. Onde é que elas vão ao médico, em que escolas vão estudar…”, exemplifica. E é por isso que estas decisões são tratadas entre o marido e a mãe das filhas sem a sua interferência.

A história de Patrícia até estará, apesar de tudo, mais próxima da ausência de espinhos do que o contrário: “Fui conhecendo algumas situações à minha volta e fui vendo algumas diferenças. E eu fui pensando ‘fogo! Eu tenho imensa sorte, porque no meu caso tem sido super pacífico’.”

“Elas sabem que eu não vou substituir a mãe, que as trato como minhas filhas, que as amo e que as quero ver felizes”, resume.

Foi no processo criativo para fundar a Querida Madrasta que Patrícia Castilho se deparou com a página de Inês Neves Rosa. Mas, em vez de travar a fundo e desistir, avançou com o projeto, que fez agora um ano. Sublinha que são experiências diferentes e que “quanto mais falarmos deste tema, mais desmistificamos esta questão”.

Agora, preocupa-se com problemas específicos deste ato de “maternar sem ser mãe”: “É por isso, por exemplo, que ainda recentemente fiz uma live sobre saúde mental para madrastas.”

Patrícia é feliz com isto de ser madrasta e isso também se reflete na relação com a mãe das enteadas. “Ela foi percebendo que eu trato bem as filhas, que as filhas gostam de mim. Acredito que no início fosse complicado saber que o pai das filhas constituiu outra família. Empatizo com a posição dela”, adianta.

Uma opinião secundada por Inês Neves Rosa: “Todo o ataque é um pedido de socorro e ser madrasta não faz de nós vítimas.”

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