We are bacalhau. We are salários baixos. We are vergonha alheia - TVI

We are bacalhau. We are salários baixos. We are vergonha alheia

    Pedro Santos Guerreiro
    Diretor executivo CNN Portugal
  • 18 set 2023, 15:37

Pedro Santos Guerreiro escreve a propósito do recente discurso "We are..." de Marcelo Rebelo de Sousa na viagem ao Canadá e aos Estados Unidos. E estabelece contrastes de um discurso que euforiza e infantiliza.

“Of course, we are fado. We are bacalhau. We are caldo verde. We are cozido à portuguesa.” We are muito de comer e beber mas comer e beber nesta vida está pela hora da morte, o quilo do tal bacalhau está quase a 12 paus e o litro de azeite a mais de 7, we are cada vez mais a precisar de ajuda para pagar contas e o dobro a pedir comida ao Banco Alimentar. We are empregados mas we are trabalhadores com salários tão baixos que 10% de we are pobres, we are uns brutos salários de 1215 euros, we are pensionistas a 550 euros and we are em busca de remédios esgotados nas farmácias como se fossem tesouros no fim do arco-íris. We are casas caras, we are rendas altas, we are créditos à habitação com prestação de martelo-pilão, we are combustíveis a 2 euros, we are pão de quartos a 1 euro, pescada a 10 e a laranja a quase 2, we are inflação que nos sobe os preços and we are combate à inflação que nos sobe os juros, de um lado e do outro we are menos dinheiro ao fim do mês e mais mês ao fim do dinheiro, we are, we are...

We are the vira, the corridinho and the fandango.” We are muito de dançar, de festejar, we are the políticos do pão e circo, we are comícios com ginjinha, comitivas ao vinho e desfiles à poncha, como disse aquele impronunciável holandês, we are “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e depois pedir ajuda”, we are para o raio que o parta, são disputas e vinho verde, porque we are 50 anos de liberdade and we are a geração mais bem preparada de sempre que sai pelas próprias pernas daqui para fora and we are braços abertos aqui para dentro, we speak English, quartos, rooms, chambres, zimmer, às vezes até falamos português. We are #vaificartudobem, we are livros de autoajuda, governos de copo meio cheio, gestores do salário emocional e mentores de hinos da alegria mas we are benzodiazepinas, ansiolíticos, sedativos e outros psicofármacos para a depressão, ansiedade e insónia, porque we are muito a favor da saúde mental e do fim do estigma mas we are listas de espera de meses para a primeira consulta e de anos para a segunda no psicólogo no centro de saúde, we are SNS and we are hospitais a perder médicos para o privado e a perder doentes para o privado and we are tribunais parados e escolas a perder horários e professores, mas “we have a soul”, alma portuguesa loja online, we are saudade, “we are fado”, we are a luz do viajante e a sombra do esclavagista, we are riqueza vendida e património fendido, we are Vasco e Fernão, we are da Gama e Magellan, we are Camões, Pessoa, Herberto, Belo, Pina, we are, we are…

We are Cristiano Ronaldo”. Peço desculpa, senhor Presidente, mas o caraças é que somos, o Cristiano Ronaldo é o contrário do que we are, porque we are improviso, desenrasca e talento quanto o há e a tentar escapar às presas da repartição do chefe e do chefe da repartição, enquanto o Cristiano Ronaldo é trabalho, método, sacrifício, obcecação em cima de talento, ele é chefe de si mesmo e ídolo de nós todos e isso é lindo mas tirando isso tudo, que é muito, não é o Cristiano Ronaldo que me vai pagar a renda este mês, we are em crises vai para 15 anos, financeira 2008, dívidas soberanas 2010, resgate até 2014, pandemia 2020, guerra 2022, we are outra vez Fado Fátima Futebol, we are, we are…

We are so many champions in so many fields”, o Presidente dos afetos já está a descolar para Neverland, sonha a banda sonora original para um filme repetido, “We are family”, “We are the World”, “We are the Champions”, esse género, “You’re simply the Best”, querem ver?, ora vejam a construção retórica, "We are" tipo "Yes we can", o crescendo euforizante: but the best champions of Portugal are you: the Portuguese people!”. Palmas! Marcelo dá-nos de novo o comprimido motivacional e o placebo aspiracional de que somos “o melhor país do mundo”, como um dia Vítor Gaspar disse “o povo português revelou-se o melhor povo do mundo e o melhor ativo de Portugal”, o que fez temer que nos queria privatizar mas afinal era só o mesmo discurso, este paternalismo de um Presidente que nos infantiliza, we are um povo a assistir a isto tudo and we are meio povo que já não vota and we are uma comédia stand-up numa cultura sit-down de uma realidade layed over, we are game over com arroz de lavagante, we are IVA a 23%, we are greves desvalorizadas and manifestações menorizadas we are franjas irrepresentadas, we are contas certas, we are quase 700 mil na pobreza energética severa mas ainda apanha uma gripe, já viu bem esse decote?, we are a filha é mais bonita que a mãe, we are all of this”, we are Marcelo, muitos avés e muitas Marias, we are fogo de artifício na noite escura do lado de cá do rio.

 

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