O chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, tem sido defensor entusiasta de uma "aliança fraterna" entre Portugal e Brasil, e nem o almoço cancelado em julho pelo presidente Jair Bolsonaro o demoveu desse desígnio.

Mesmo depois desse incidente, Marcelo Rebelo de Sousa esteve com Jair Bolsonaro em Brasília, em setembro, durante as celebrações do bicentenário da independência do Brasil, no que qualificou de "gesto histórico", e agora desloca-se pela oitava vez a este país, para representar o Estado português na posse presidencial de Lula da Silva, no domingo, 1 de janeiro.

A 30 de outubro, logo que foi oficialmente declarada a vitória de Lula, à segunda volta, contra Bolsonaro, o chefe de Estado português felicitou-o pela eleição e manifestou a certeza de que o seu mandato "corresponderá a um período promissor nas relações fraternais" entre Portugal e Brasil.

Neste intervalo de tempo até à posse, Marcelo Rebelo de Sousa já recebeu Lula da Silva no Palácio de Belém, em Lisboa, em 19 novembro, durante uma hora e quinze minutos, quando o Presidente eleito visitou Portugal depois de ter participado na 27.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP27), no Egito.

Em meados de novembro, o chefe de Estado português descreveu o Brasil como uma das "potências regionais" que estão em "processo de transição" e como um país que "acompanha as tensões populistas à esquerda e à direita que vão adiando o futuro da América Latina, mas pode ter mais uma oportunidade geoestratégica, se conseguir preservar a coesão interna, se afirmar um duradouro poder económico e uma prospetiva visão internacional".

Em setembro, perante o Congresso Nacional em Brasília, Marcelo Rebelo de Sousa fez uma intervenção de agradecimento aos "queridos irmãos brasileiros" pela sua independência e pela nação que construíram, pedindo que o Brasil continue uma "pátria de liberdade, de democracia, de justiça, de sonho, de esperança, de reinvenção ilimitada, potência universal".

"Nós, portugueses, amamos profundamente no Brasil e em vós, brasileiros, essa alma enleante, indomável, tenazmente obstinada, que vos faz diferentes, que vos faz irrepetíveis na humanidade", afirmou.

"Que para sempre viva o Brasil, que para sempre viva a fraternal amizade entre o Brasil e Portugal", acrescentou.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, iria fazer o discurso de encerramento dessa sessão solene comemorativa dos 200 anos de independência do Brasil, mas não compareceu e Marcelo Rebelo de Sousa acabou por ser o último a falar.

Na véspera, os dois chefes de Estado estiveram lado a lado no desfile do 07 de setembro, em Brasília, que decorreu com ambiente de campanha eleitoral, e no dia anterior reuniram-se por cerca de vinte minutos no Palácio Itamaraty.

Marcelo Rebelo de Sousa negou desconforto por estar ao lado Bolsonaro naquela ocasião e afirmou que estava no Brasil "num gesto histórico".

"Eu estou aqui para representar Portugal num momento histórico, fosse qual fosse o Presidente. As pessoas têm de perceber o seguinte: a campanha eleitoral dura X tempo, o mandato do Presidente dura muito mais e a História de 200 anos dura muito mais. E o que fica para a História é que Portugal esteve presente num momento histórico", justificou.

O importante, defendeu, "é que há um milhão de portugueses a viver no Brasil e há 250 mil brasileiros a viver em Portugal – e esses continuarão a viver qualquer que seja o Presidente, qualquer que seja o Governo".

Marcelo Rebelo de Sousa assinala com frequência a sua ligação pessoal ao Brasil, para onde emigrou o seu avô no fim do século XIX, para onde os seus pais se mudaram após o 25 de Abril, e onde vive o seu filho com dupla nacionalidade e uma neta.

Em julho, quando Bolsonaro cancelou o almoço em Brasília para o qual o tinha convidado, numa reação ao seu encontro com Lula em São Paulo, o Presidente português desdramatizou.

Invocando a história peculiar de D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, que reinou e deixou descendentes no trono dos dois países, Marcelo Rebelo de Sousa observou: "Tudo entre nós é um problema de família".

O Presidente português foi ao Brasil logo no seu primeiro ano de mandato, em 2016, para a abertura dos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, e mais tarde para a Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Brasília.

Em 2017, esteve novamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, a comemorar o Dia de Portugal, com o primeiro-ministro, António Costa.

A 1 de janeiro de 2019, representou Portugal na posse de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil, que o recebeu no dia seguinte no Palácio do Planalto, em Brasília.

Entre 2021, voltou ao Brasil para a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde esteve com os antigos presidentes brasileiros Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, antes de ser recebido por Bolsonaro em Brasília.

Em julho deste ano, esteve no Rio de Janeiro para assinalar o centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul e na inauguração da Bienal do Livro de São Paulo, onde voltou a reunir-se com Lula, Fernando Henrique e Temer.

Esta sexta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa, viaja de Lisboa para Brasília, onde irá representar o Estado português na cerimónia de posse do presidente do Brasil, Lula da Silva, no domingo.

Na posse de Lula da Silva são esperados pelo menos 19 chefes de Estado, incluindo o rei de Espanha e os presidentes da Alemanha, de Angola, Argentina, Bolívia, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Equador, Guiné-Bissau, Peru, Timor-Leste e Uruguai, entre outros.

Esta é a sua oitava deslocação enquanto Presidente da República ao Brasil e a terceira deste ano.

/ AM