O chefe de Estado português considera que o recém-empossado presidente do Brasil, Lula da Silva, deu sinais de uma "visão multilateral" e "protagonismo internacional" que contrastam com a administração de Jair Bolsonaro.

Em declarações aos jornalistas, num hotel de Brasília, após a cerimónia de posse, em que esteve presente, Marcelo Rebelo de Sousa comentou os dois discursos de Lula da Silva, nos quais viu "sinais de novidade".

No seu entender, em termos de política externa, a mensagem de Lula "tem muito de novo, porque é uma visão multilateral do Brasil, é uma visão de intervenção no mundo, é uma visão não defensiva, mas ofensiva no bom sentido do termo, de protagonismo internacional".

"Tudo analisado, são sinais, para quem vê de fora e tem a experiência de duas posses em dois mandatos diferentes, tem o significado de uma visão muito diversa, se quiserem muito contrastante [com a administração anterior]", considerou Marcelo Rebelo de Sousa.

Segundo o Presidente português, Lula "dá muito relevo ao regresso do Brasil ao mundo".

"Nessa medida, o que o presidente Steinmeier alemão diz é aquilo que qualquer dos chefes de Estado ali presentes poderia dizer – confirmando, aliás, as expectativas que havia em relação ao Presidente Lula".

Marcelo Rebelo de Sousa referia-se à afirmação do Presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, de que com a posse de Lula se abriu uma "nova era política" no Brasil.

O Presidente português realçou que Lula da Silva falou no "regresso a organizações latino-americanas" e em "aposta em matéria ambiental" e destacou "os Estados Unidos da América e China".

De acordo com Marcelo Rebelo de Sousa, Lula "mostra como quer manter uma abertura para essas duas realidades".

Por outro lado, assinalou "a importância que dá à Argentina para o diálogo com os países vizinhos".

"Não seria de estranhar que Argentina, Estados Unidos e China sejam possíveis destinos privilegiados na intervenção diplomática do Presidente Lula nesta fase intensa de vida internacional", disse.

O chefe de Estado português defendeu que os discursos da posse "confirmam a expectativa anterior" em relação à nova administração brasileira.

No plano interno, salientou a ideia de que "não há dois povos, há um povo", o que "significa tratar os brasileiros todos da mesma maneira, tenham ou não votado no novo Presidente".

Questionado se não antevê um ajuste de contas, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que "todo o discurso do Presidente Lula, começando por recordar o passado recente e a campanha eleitoral e a experiência de campanha, é virado para o futuro".

Marcelo realça importância dada a Portugal pela administração Lula

O chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, realçou a importância dada a Portugal pela administração brasileira de Lula da Silva na cerimónia de posse do Presidente do Brasil.

"Hoje no Congresso dos deputados o primeiro país a ser colocado: Portugal. A cumprimentar o Presidente empossado: Portugal", referiu Marcelo Rebelo de Sousa.

Interrogado sobre a que se deve, no seu entender, esse destaque dado a Portugal, o chefe de Estado respondeu: "Eu acho que se deve a duas razões, uma formal, outra substancial. Formal: Portugal foi o primeiro país a felicitar Lula da Silva aquando da vitória".

"Substancial: eu penso que há compreensão da importância de Portugal em vários dos domínios de que falou. Por exemplo, na União Europeia, é uma prioridade obviamente o tentar avançar com o dossiê União Europeia/Mercosul – Portugal é importante nisso", acrescentou.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, "Portugal é importante pelo simples facto de haver um português secretário-geral das Nações Unidas", e também "pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)".

"Portugal é importante porque, ao longo do tempo, Lula foi conhecendo muito bem Portugal, conhece Portugal, e conheceu em fases diferentes da sua vida, e quem passou por fases diferentes, no poder e na oposição, sabe de uma constância fundamental da posição portuguesa no mundo", sustentou.

"Por isso, tem lógica isso", considerou.

"Como tem lógica a posição que dá a outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)", prosseguiu.

O chefe de Estado português assinalou que "nos cinco primeiros países a cumprimentar o Presidente Lula" houve "três da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – além de Portugal, em primeiro lugar, Timor-Leste em terceiro, Cabo Verde em quarto".

/ AM