Não conseguiu nem quis fugir à política e aos seis anos ganhou uma luta na autarquia. Um outro olhar sobre Mariana Mortágua - TVI

Não conseguiu nem quis fugir à política e aos seis anos ganhou uma luta na autarquia. Um outro olhar sobre Mariana Mortágua

Seguiu as pisadas do pai, Camilo Mortágua, resistente da luta antifascista. Pelo meio não esquece a forma como cresceu, sempre a olhar de frente as injustiças

Ainda era criança quando, com a irmã gémea, pediu ao presidente da Câmara Municipal de Alvito para colocar uma passadeira junto à escola. E conseguiram. Foi o primeiro ato político das irmãs Mortágua.

Desta vez conhecemos melhor a “mais nova” – Mariana nasceu dois minutos depois de Joana. A coordenadora do Bloco de Esquerda esteve à conversa com Cristina Ferreira e Cláudio Ramos no Dois às 10, onde falou dos tempos em que subia às árvores e recordou o passado antifascista do pai.

Seguir as pisadas do pai

Camilo Mortágua era um dos rostos da luta antifascista. Talvez por isso era quase impossível fugir à política. “Não tentei e não quis”, assume Mariana Mortágua, que sempre quis expressar os valores com que cresceu, admitindo mesmo que se teria revoltado caso tivesse sido educada de outra forma.

“Eu sei que no dia em que já não estiver aqui, em que não for deputada, vou continuar a defender exatamente as mesmas coisas e a lutar. É uma forma de estar na vida”, reitera, mesmo que tenha vivido a infância sem noção de quão importante o pai era.

Essa noção, explica, ganhou-a também com os amigos que iam lá a casa ou com quem viam na rua. “Íamos a algum lado e as pessoas, principalmente de uma certa geração, reconheciam-no e ao papel que teve. Há uma geração que o vê como um herói contra o fascismo e contra a ditadura”, aponta, assumindo a herança do apelido, mesmo que tenha passado de filha de Camilo Mortágua para alguém com um nome próprio. Entretanto foi o homem que passou a ser o “pai da Mariana Mortágua”.

A família do coração e a passadeira

A mãe estava sempre ocupada. Trabalhava como assistente social enquanto tirava um mestrado. O pai estava sempre ocupado também, mas as irmãs nunca estavam sozinhas.

Em Alvito, terra com 1.500 habitantes, nunca se está sozinho. E Mariana, como Joana, teve a sorte de ter uma “família de coração”, com quem cresceu.

Era a vizinha Rosa que tomava conta delas. “Tive a sorte de crescer com duas avós, com muitas irmãs, com uma família, que ainda hoje eu sinto como minha família, que é essa outra família”, afirma.

Foi nesse entra e sai que Marianam e Joana tiveram a primeira “experiência” política. Era preciso uma passadeira para a avenida dos Bombeiros. Uma estrada “onde passa muita gente” e que tem uma escola num dos lados. “Os meus pais tinham uma coisa que era ‘tens um problema, filha? Resolve’”. E ela resolveu, ficando com a boa sensação de ajudar os outros.

Ela e a irmã, porque é sempre difícil de se dissociarem.

A irmã gémea mais nova que é mais velha

Mariana nasceu dois minutos depois. Para todos os efeitos é mais nova que Joana, mas foi Joana quem sempre viu a irmã como mais velha.

“Das primeiras vezes que olhei ao espelho e me dei conta de que estava lá alguém, olhei para o espelho e apontei e disse Miana”, conta, apontando a irmã como “mais responsável, mais ponderada”.

Já Joana era “mais terrorista”, tinha sempre as “piores ideias”. Mas Mariana ia atrás, mesmo que com alguma cautela. “Quando os meus pais impunham horários e eu queria sempre tentar transgredir um bocadinho, lá estava a Mariana para me voltar a pôr no sítio”, explica.

Isto numa infância a correr de um lado para o outro, a construir casas na árvore, mas também a ler, sobretudo “Sherlock Holmes” ou “Os Cinco”.

Na música também se aproximavam: ambas gostavam de Jorge Palma, foi uma “fase”, mas foi Mariana quem ficou mais ligada a Ornatos Violeta.

A discutir à mesa

Nunca houve divisões ao jantar. Não havia mesas de adultos ou de crianças, todos discutiam a mesma coisa e os mais pequenos tinham direito de participar.

É nesse ritmo que há “determinados valores, valores de esquerda, de noção de injustiças sociais, que vêm sempre ao de cima”.

“É difícil ter consciência das desigualdades, ter uma explicação para elas e não fazer nada para mudar isso. A Mariana é exatamente aquilo que parece ser. Ela é perfecionista, é super-trabalhadora, é obcecada com a perfeição do trabalho que faz, com a seriedade do seu trabalho”, conta Joana.

O regresso a casa

Com o avançar da idade cada vez gosta mais de voltar ao Alvito. Até lhe dá preguiça de ir, tem de pegar no carro e ainda é uma viagem longa. “Mas depois, quando uma pessoa chega, já não quer voltar a sair de lá”, confessa.

Houve mesmo uma semana em que prometeu várias vezes que se ia embora mais cedo. Era para sair do café do Américo às 16:00, mas ficava sempre mais umas horas, até acabar a abaladiça – a última cerveja.

“Alvito tem isto, que não é só paz”, diz, referindo que a comunidade se vai alargando e que já há muita gente, incluindo amigos, que querem ficar lá a viver e estão a fazer “projetos incríveis”. Hoje, confessa Mariana Mortágua, há alguma inveja desses amigos.

Intranquilidade, exigência, mas compromisso

Mariana Mortágua reconhece que seria muito mais fácil optar por outra via, mas assumiu um compromisso e tem de responder às pessoas que a ajudam a formar o Bloco de Esquerda.

É uma vida “pouco tranquila e muito exigente”, sim, mas foi a sua escolha, que só foi possível graças a pessoas como Francisco Louçã.

O antigo coordenador do partido deixou algumas palavras para a “coragem serena” e determinação” de Mariana Mortágua.

“Nós que adoramos este país percebemos quão importante é haver uma voz contra a indecência. Uma voz pelas pessoas, uma voz pela fraternidade, pela humanidade, uma voz por todos nós. E isso tem sido a Mariana Mortágua”, afirmou, falando num “trabalho extraordinário”.

Sabe bem ouvir estas palavras, assume a coordenadora do Bloco de Esquerda, que destaca a essência coletiva do projeto, que agora fez 25 anos. Ainda hoje pede conselhos a Francisco Louçã ou à antecessora, Catarina Martins.

“Eu faço este exercício muitas vezes. Quando acho que as coisas estão mais difíceis, mais duras, mais exigentes, penso ‘o meu pai fez política na clandestinidade, foi condenado à prisão perpétua pela PIDE, viveu fora deste país, emigrou quando tinha 17 anos e só pôde voltar a Portugal no 25 de abril e sentou-se na Avenida da Liberdade’. E muitas destas pessoas fizeram política na clandestinidade”, atira. [ndr. Camilo Mortágua não foi efetivamente condenado a prisão perpétua, até porque essa pena não existia na altura do Estado Novo].

Agora atiramo-nos para o 25 de Abril, que vai fazer 50 anso, e que Mariana Mortágua lamenta que tenha vindo a ser descurado. Até lá há eleições e o Bloco de Esquerda quer assumir-se como alternativa.

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