O climatologista Mário Marques critica a lentidão dos processos de decisão, a atuação da Proteção Civil e a forma como são emitidos os alertas meteorológicos. Em entrevista à CNN Portugal, o climatologista diz que “os militares só são convocados quando é comunicado através da Proteção Civil, mas só passado dois dias é que isso aconteceu”.
Em declarações no programa Top Story, Mário Marques afirma ainda que a resposta às recentes tempestades voltou a expor fragilidades estruturais na gestão pós-catástrofe em Portugal, até porque existe uma cadeia de comando “extremamente burocrática e muito longa”, incompatível com a necessidade de resposta rápida após eventos extremos.
Segundo o especialista, as falhas começam logo na previsão meteorológica, que considera insuficiente por se basear “apenas num modelo”, defendendo uma análise mais ampla, com recurso a observação remota, imagens de satélite e informação pública disponível.
"Em termos de pós-catástrofe temos de ser rápidos - aliás, começa com a previsão. A previsão, na minha ótica, foi errada porque seguiram só um modelo. Nestas situações, independentemente dos protocolos que temos com outras entidades estrangeiras, devemos reger-nos pelas experiências de observação de deteção remota e outras informação que existe disponível e é pública. Se não existe experiência de observação deste tipo de fenómenos ou capacidade de análise, teremos de mudar também, logo no princípio, o tipo de informação."
Sobre os avisos emitidos, critica a eventual banalização dos níveis de alerta. “O distrito de Lisboa esteve em alerta laranja, mas não choveu intensamente para ter um alerta laranja e, sobretudo, choveu numa faixa estreita. Ao longo dos anos temos banalizado e as pessoas às vezes não acreditam."
Relativamente à tempestade Kristin, Mário Marques garante que já durante a tarde de terça-feira existiam indicações claras sobre a zona de entrada em Portugal, o que teria permitido o pré-posicionamento de meios, à semelhança do que acontece nos incêndios.
“Há muitos meios e muito dinheiro para os incêndios, mas na climatologia continuamos sem aprender.”
Quanto aos próximos dias, o especialista prevê continuação de precipitação, mas sem fenómenos extremos imediatos, alertando, no entanto, para uma nova depressão - que poderá trazer chuva mais intensa e persistente em algumas regiões.
"Podemos esperar a continuação de alguma precipitação. Hoje de tarde, sobretudo durante o almoço, irá entrar o pós-frontal, poderemos ter aguaceiros, por vezes fortes, mas existirá um abrandamento significativo das condições atmosféricas, sobretudo nas próximas horas e depois durante a tarde e noite. E amanhã será um dia de aguaceiros não tão intensos em todo o território nacional."
Mário Marques alertou ainda que "no dia 7 para dia 8" há uma depressão que "não tem nada que ver com o Leonardo e que irá atravessar o Atlântico em 48 horas".
"Está associada à corrente de jato, que poderá permitir as precipitações mais intensas e persistentes a sul dessa depressão."