Vinte segundos fizeram mais de 2 mil mortos. Em Marrocos continuam as operações de busca por sobreviventes no meio dos destroços - TVI

Vinte segundos fizeram mais de 2 mil mortos. Em Marrocos continuam as operações de busca por sobreviventes no meio dos destroços

  • CNN Portugal
  • MJC
  • 9 set 2023, 22:35

24 horas depois do sismo em Marrocos, as autoridades oficiais contabilizam mais de 2 mil mortos e mais de 2 mil feridos, mas estes números poderão continuar a aumentar

Vinte segundos fizeram mais de mil mortos. O balanço provisório do terramoto que atingiu Marrocos na sexta-feira à noite subiu para 2.012 mortos e 1.400 feridos, dos quais 1.220 em estado grave, anunciou o Ministério do Interior marroquino.

Entre as vítimas mortais não há portugueses, pelo menos para já, garantiu ao final da tarde o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho. No entanto, há dois feridos portugueses, um pai e uma criança, que tiveram de receber cuidados hospitalares mas estão já "fora de perigo", assegurou. A família estava de férias em Marrocos quando foi surpreendida pela tragédia. A mãe e mais dois filhos encontram-se bem.

Ao longo do dia, as autoridades acompanharam a situação dos cerca de 300 cidadãos nacionais que se encontram em Marrocos, dos quais 75 manifestaram vontade de voltar para casa. Para esses, o Governo enviou um C130 da Força Aérea Portuguesa que, em princípio, regressará a Lisboa ainda esta noite.

Gomes Cravinho voltou a apelar a todos os portugueses que se encontrem na zona para que contactem as autoridades: "Os portugueses que estejam na região afetada devem inscrever-se na aplicação informática dos viajantes e contactar o gabinete de emergência consular ou a nossa embaixada em Rabat".

O tremor de terra, cujo epicentro se registou na localidade de Ighil, 63 quilómetros a sudoeste da cidade de Marraquexe, foi sentido em Portugal e Espanha. Este foi o sismo mais mortífero de Marrocos dos últimos 60 anos. O terramoto mais mortífero de que há registo no país aconteceu em 1960 em Agadir, 260 quilómetros a sudoeste de Marraquexe. Mais recentemente, em 2004, pelo menos 628 pessoas morreram num sismo de magnitude 6,3 em Al Hoceima.

O reino de Marrocos decretou três dias de luto nacional.

"Mal tive oportunidade de pegar nas crianças e sair a correr"

Tudo aconteceu durante a noite. "Eu estava a dormir. A primeira vez que senti a cama a tremer não acreditei, a segunda vez tive a certeza que era um terremoto", contou um homem, carregando a filha ao colo.

 "Fomos surpreendidos por uma vibração intensa, tudo em casa se mexia. Não sabíamos o que tinha acontecido", contou uma rapariga, entrevistada pelas agências internacionais. "De repente, vimos coisas a cair. Pratos e outras coisas que estavam fixas na parede. Naquele momento não nos conseguíamos levantar, porque tudo abanava. Depois fugimos para fora de casa como todas as outras pessoas", contou uma outra testemunha.

“Mal tive oportunidade de pegar nas crianças e sair a correr, vi a minha casa a desmoronar-se à minha frente. A casa do vizinho também se desmoronou e há duas pessoas mortas debaixo dos escombros”, contou Fátima à CNN Internacional.

Fugiram agarrados a pouco mais do que a roupa que vestiam, quando a terra tremeu, pouco depois das 23:00 de sexta-feira. O abalo durou apenas 20 segundos, mas teve uma magnitude de 6,8 na escala de Richter. Foram momentos de medo e caos. Depois do primeiro abalo, seguiram-se as réplicas. As ruas das localidades mais afetadas encheram-se de gente. Milhares passaram a noite ao relento com medo de réplicas. Parques, praças e estacionamentos ficaram transformados em acampamentos improvisados.

A verdadeira destruição só foi visível de manhã. Casas, templos, pontes, estradas, tudo reduzido a escombros. 

Em Marraquexe, uma cidade com 800 mil habitantes, o sismo deixou um rasto de destruição. Apelidada de “Cidade Ocre”, a cidade é um dos grandes destinos turísticos mundiais. Pelo menos 2,3 milhões de visitantes percorreram este ano as ruas estreitas da medina, ou cidade velha, declarada Património Mundial pela UNESCO em 1985, cujos edifícios de adobe foram particularmente danificados pelo terramoto.

“Estávamos a passear na Jemaa el-Fna quando a terra começou a tremer, foi uma sensação realmente espantosa”, disse Houda Outassaf, residente na cidade à agência francesa AFP. “Estamos sãos e salvos, mas ainda estou em choque. Pelo menos 10 membros da minha família morreram em Ijoukak [comuna rural de Al-Haouz]. Não posso acreditar, porque não há mais de dois dias estava com eles”, acrescentou.

O rei de Marrocos mobilizou as forças armadas para se juntarem aos meios da proteção civil nas operações de busca e salvamento. A prioridade é encontrar sobreviventes e cuidar dos muitos feridos.  

Ajuda internacional está a postos. Reconstrução vai demorar anos, diz a Cruz Vermelha

De todo o mundo chegaram reações e ofertas de ajuda ao reino de Marrocos. Na índia, o primeiro-ministro abriu a cimeira do G-20, o grupo das maiores economias do mundo, com palavras para as vítimas do sismo. A solidariedade de vários líderes internacionais chegou também via redes sociais.

O governo português, à semelhança de muitos outros, já mostrou disponibilidade para ajudar Marrocos e enviar meios que possam ser úteis e necessários no terreno. Em declarações à CNN Portugal, José Luís Carneiro, ministro da Administração Interna, revelou que Portugal está disponível para auxiliar as autoridades marroquinas, estando o ministério apenas à espera de um pedido formalizado por parte de Marrocos. “A nossa disponibilidade é total, foi comunicada às autoridades de proteção civil de Marrocos”, diz o governante, que adianta que “os meios que estão identificados como disponíveis são meios de busca e salvamento, meios de apoio médico, também meios relacionados com a identificação de corpos, binómios com capacidades de deteção de corpos, e também de resgate e receção de cadáveres”. Mas para já, ainda não recebeu qualquer pedido de ajuda oficial. 

O rei de Marrocos, Mohammed VI, foi informado sobre a destruição provocada pelo sismo devastador do país e deu ordens para criar uma comissão para fornecer ajuda, informou o Palácio Real no sábado. De acordo com a CNN Internacional, o rei presidiu uma reunião de trabalho onde funcionários do governo o informaram sobre os danos e a perda de vidas nas províncias que foram afetadas pelo sismo, incluindo locais que não ficaram acessíveis durante horas. As medidas de emergência tomadas até agora incluem o aumento das operações de busca e salvamento; fornecimento de água potável; e distribuição de kits de comida, tendas e cobertores, disseram as autoridades ao rei.

O rei também emitiu instruções para “criar imediatamente uma comissão interministerial responsável pela implementação de um programa de ajuda, reabilitação de emergência e assistência na reconstrução de habitações destruídas em áreas de desastre, o mais rapidamente possível”.

A comissão será responsável por “cuidar de pessoas em perigo, especialmente órfãos e pessoas vulneráveis” e fornecer “cuidados imediatos a todas as pessoas que se encontram sem abrigo devido ao terramoto, particularmente em termos de alojamento, alimentação e todas as outras necessidades básicas”, de acordo com o palácio.

O trabalho de reconstrução após o sismo pode demorar anos devido ao nível de devastação, afirmou a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha (FICV). "A reconstrução não levará uma ou duas semanas...estamos a prever muitos meses, senão anos, de reconstrução", disse Hossam Elsharkawi, diretor regional da FICV para o Médio Oriente e Norte de África, afirmando que todos os apoios estão a ser mobilizados para a região.

Caroline Holt, diretora de operações da FICV, disse que as próximas 24 a 48 horas serão críticas em termos de salvar vidas: “Os esforços de busca e resgate serão realizado em paralelo, é claro, com a garantia de que aqueles que sabemos que sobreviveram recebam cuidados”, disse, citada pelas agências.

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