Matteo Denaro era o criminoso mais procurado em Itália e um dos mais procurados do mundo. Há 30 anos que as autoridades o tentavam localizar mas sempre sem sucesso. O “último padrinho” da máfia siciliana, que acabou detido no início desta semana, esteve afinal sempre tão perto.

Conhecido na comuna de Castelvetrano, onde nasceu, foi perto dali que se decidiu estabelecer durante a sua fuga. Em Campobello di Mazara, a cerca de oito quilómetros. Naquela pequena localidade da Sicília fazia uma vida normal. Ia ao café, ao supermercado ou ao restaurante com a maior das facilidades. O homem, hoje com 60 anos, passou despercebido de todos os seus conterrâneos, mesmo sendo a personalidade mais famosa da localidade que tem pouco mais de 10 mil habitantes. Mas como?

A resposta está na omertà, um termo do calão napolitano que significa a manutenção de um código de honra entre as organizações mafiosas do sul de Itália. A polícia estranhou este cenário, até porque, como dizem algumas fontes ao jornal El País, “quando chega um forasteiro e o veem por três noites seguidas num restaurante começam logo a averiguar quem é”. Isso não aconteceu com Matteo Denaro, cujo clã governa há várias décadas a comunidade local. “Ele está muito envelhecido. Como íamos reconhecê-lo?”, refere um cidadão citado pelo jornal espanhol.

Mas a descoberta da sua localização mudou a postura da população. “Muitos associaram a fotografia ao homem que viam na pizaria, no bar ou no supermercado”, contou o chefe da polícia local, Giuliano Panierino. Entre esses locais está a pizaria Don Peppe, onde alguns habitantes dizem ter visto Matteo Denaro. O dono do restaurante nega: “Não sou o único que faz pizas aqui, será outra pizaria. Se veio, não o vi. Passam aqui muitas pessoas, para nossa sorte”.

A população parece estar assegurada pelo autarca, que negou que tenha existido proteção ao mafioso: “Seguramente houve conivência de gente que o protegeu. Mas de 11 mil habitantes, quem sabe terão sido cinco ou seis”, afirmou Giuseppe Castiglione, negando um cenário de que ali viva um “povo mafioso”.

Matteo Denaro numa imagem de videovigilância divulgada pela polícia italiana quando estava a caminho de um clínica em Palermo, na Sicília (Polícia italiana)

Segredos da máfia encontrados

Muitos ou poucos anos, a verdade é que a base de Matteo Denaro era ali, na comuna de Castelvetrano. Foi lá que o italiano foi encontrado, em Campobello di Mazara, onde foi feita outra descoberta que pode tornar este caso ainda mais importante. A polícia militar italiana encontrou aquilo que acredita ser um bunker utilizado pelo “último padrinho” da máfia siciliana.

No local, dizem as autoridades, podem estar milhares de documentos que ajudem a resolver vários casos que ainda estão nos tribunais à espera de fim.

Entre aquilo que pode ser uma descoberta inédita podem estar documentos relacionados com Totò Riina, o conhecido “chefe dos chefes”, que morreu em 2017. Documentos relacionados com o italiano foram roubados por Matteo Denaro, e alguns deles podem ser a resposta para crimes cometidos há mais de 40 anos, muitos deles homicídios ao serviço da máfia.

As autoridades acreditam mesmo que esse arquivo possa ter respostas para crimes como o atentado bombista de 1992 que matou os magistrados Giovanni Falcone e Paolo Borsellino ou o assassínio de Giuseppe Di Matteo, um rapaz de 12 anos que era filho de um membro da máfia e que virou testemunha do Estado, acabando por ser estrangulado e dissolvido em ácido.

Quanto a Matteo Denaro: tem à sua espera uma pena de prisão perpétua, à qual foi condenado em 2002, mesmo não estando presente em tribunal. Também conhecido como “Diabolik” ou “O Magricela”, o italiano terá sido o autor ou o mandatário de dezenas de assassínios.

António Guimarães