Matteo Messina Denaro era conhecido como "Diabolik". Um mafioso implacável que, só foi depois de ter andado 30 anos fugido à justiça, foi detido esta segunda-feira numa clínica privada em Palermo, na Sicília, onde, dizem as autoridades italianas, estaria a fazer quimioterapia.

Segundo o Corriere Della Sera, frequentava esta clínica com uma identificação falsa: Andrea Bonafede, nascido em 1963. Sempre passou despercebido entre os outros pacientes, também eles surpreendidos com a detenção. Quando estava no exterior da clínica, apareceram de repente um conjunto de homens armados. Matteo Denaro, agora com 60 anos, ainda tentou fugir, mas foi apanhado pelos carabinieri (polícia militar italiana).

As autoridades italinas já tinham alguns sinais de que Denaro teria algumas patologias. Em janeiro de 1994, ele tinha estado em Barcelona a realizar uma cirurgia à retina. Também havia indicações de que sofreria de insuficiência renal crónica e que recorreria à diálise. Para não correr o risco de ser apanhado no caminho para os tratamentos, instalou equipamentos de diálise na casa onde vivia.

Perante o juiz, esta segunda-feira, Denaro, que garantiu estar a responder com sinceridade, quando questionado qual era a sua ocupação, respondeu: "agricultor". Tem uma explicação, mas já lá vamos.

Detenção de Matteo Messina Denaro - 16 de janeiro 2023 (Carabinieri - polícia militar italiana - via Associated Press)

"Consegui encher um cemitério sozinho"

Filho de pai mafioso, Messina Denaro cometeu o primeiro homicídio aos 18 anos de idade. A este terá juntado mais cerca de 50. "Consegui encher um cemitério sozinho" é a citação mais famosa que lhe é atribuída, e que ilustra a crueldade singular do siciliano. 

Era o líder da máfia mais procurado de Itália e apontado como um dos três principais cabecilhas do grupo Cosa Nostra. Além dos homicídios, Denaro enfrenta uma condenação de prisão perpétua pelo seu papel em ataques bombistas em Florença, Roma e Milão, que provocaram dez vítimas mortais. É ainda suspeito de ter provocado outros dois atentados em Sicília em 1992.

De acordo com a CNN Internacional, que falou com o procurador Maurizio de Lucia, Matteo estava em parte incerta desde 1993 e estava na lista da Europol como um dos homens mais procurados da Europa. 

Em 1992, também foi condenado por ter participado no assassinato de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, dois juízes de Palermo que atingiram o pico da notoriedade no final da década de 80 com o denominado Maxiprocesso, o maior julgamento de elementos associados à máfia até então realizado em Itália. No total, 338 pessoas foram condenadas neste processo. Giovanni e Paolo foram brutalmente assassinados, juntamente com familiares, em dois ataques bombistas. As autoridades acreditam que, apesar de não ter sido ele a dar a ordem, Messina Denaro foi fundamental no planeamento e execução destes atentados.

Foi também condenado pelo homicídio do filho de um 'vira-casaca' da máfia. A vítima, na altura com 12 anos, foi sequestrada, mantida em cativeiro mais de 700 dias, estrangulada e o corpo foi dissolvido num tanque de ácido. 

Modus operandi

Matteo Messina Denaro usava mensagens codificadas e reunia-se em pontos rurais isolados. Tinha ainda toda uma rede de apoiantes discretos que o ajudavam a comandar o império criminoso. Em agosto de 2015, a polícia italiana deteve 11 pessoas que dizia serem membros da máfia. Alguns não tinham qualquer antecedente criminal - como por exemplo um pastor, o dono de uma leitaria, um camionista e um hidrógrafo. Pessoas que passariam completamente despercebidas aos olhos das autoridades e que  tinham uma relação muito próxima e de confiança com o líder e por isso eram conhecidos como os "homens de honra".

Estes tinham como função transmitir as ordens de Denaro e comandar as operações. Encontravam-se em locais estrategicamente isolados no interior de Itália, mas sempre em campo aberto, e entregavam cartas do chefe ou, como eles apelidavam nas mensagens de código, "pizzini". No fundo, eram pequenos pedaços de papel embrulhados em fita adesiva que eram destruídos logo após a leitura.

Para não chamar a atenção das autoridades, os "pizzini" eram entregues de três em três meses e estavam repletos de palavras de código. As chamadas que a polícia italiana conseguiu intercetar permitiram perceber que estes "mensageiros" utilizavam uma linguagem típica de um agricultor. Falavam, por exemplo, de uma "ovelha para tosquiar", de "legumes para recolher" ou de "queijo ricotta".

Foram também examinadas várias contas em bancos suíços que os investigadores suspeitavam que poderiam estar a ser usadas para financiar a vida em fuga de Messina Denaro.  

O criminoso tinha uma rede de proteção muito grande e de confiança. Só assim conseguiu fugir às autoridades ao longo de décadas, mantendo sempre a atividade do Cosa Nostra no ativo, mesmo após sócios, amigos próximos e familiares, incluindo a irmã, terem sido detidos e condenados. Denaro, ao contrário de outros cabecilhas no Cosa Nostra, nunca esteve preso e em raras eram as fotografias do seu rosto. Aliás, foi sempre procurado pelas autoridades através de retratos robô, sendo o mais recente de 2014.

Cláudia Évora