«A criação da SAF foi a solução para que a Portuguesa se mantivesse no âmbito nacional» - TVI

«A criação da SAF foi a solução para que a Portuguesa se mantivesse no âmbito nacional»

Cauan de Almeida no treino da Portuguesa de Desportos (FOTO: Facebook)

Com uma forte ligação a Portugal, a Associação Portuguesa de Desportos procura reerguer-se nos escalões inferiores com Cauan de Almeida, também ele com uma «história portuguesa» e que sente que é o homem certo para concretizar um «fado bonito» depois do forte investimento no clube

Associação Portuguesa de Desportos. Um clube centenário do Brasil que procura reerguer-se na quarta divisão daquele país, agora com a junção de uma SAF [o mesmo que uma SAD] ao projeto e um processo ambicioso para chegar ao principal escalão em cinco anos.

As ligações a Portugal são óbvias, não só pelo nome, mas pela história. E, talvez por isso, o treinador escolhido para o projeto tenha também ele uma «ligação portuguesa». Cauan de Almeida, com apenas 36 anos é um dos mais jovens treinadores da série D do Brasil, vê Mourinho como exemplo e acabou por estudar no Porto quando percebeu que a carreira como futebolista não tinha futuro.

O Maisfutebol esteve à conversa com o técnico que tem por prato preferido «bacalhau com natas», é admirador de Mourinho e espera que o fado da Portuguesa, idealmente cantado pela mascote do clube «Maria Severa», represente os adeptos não só em São Paulo mas em Portugal.

Na segunda parte desta entrevista, Cauan de Almeida refletiu sobre a importância que teve para a Associação Portuguesa de Desporto a criação de uma SAF, com forte investimento, de forma a que o clube centenário não desaparecesse do panorama nacional do futebol brasileiro, olhando para exemplos como o Mirassol, que passou também da quarta divisão para o principal escalão em poucos anos.

Vi que passa pelo Internacional de Porto Alegre, é vice-campeão da Série A, semifinalista da Libertadores, depois vai para o seu primeiro projeto como treinador principal no América Mineiro, ainda na Série B, e agora, aparece a Portuguesa na Série D. O que é que o fez aceitar um projeto assim?

«Eu tentei construir a minha carreira de uma forma planeada, porque eu acho isso muito importante. Ter a consciência dos passos a serem seguidos, das trajetórias e objetivos que têm de ser cumpridos, é muito importante. E aí essa transição de treinador-adjunto para treinador principal, aconteceu num tempo que eu considerei que era o ideal. Eu já tinha ali mais ou menos seis anos como treinador-adjunto de futebol profissional. Passando pelo América [Mineiro], passando pelo Internacional [Porto Alegre], passando pelo Vasco da Gama, uma curta trajetória, depois passando pelo próprio Corinthians aqui em São Paulo, também numa trajetória mais curta, mas com diversos treinadores de diversas nacionalidades, brasileiros como Mano Menezes, como Vágner Mancini, internacionais como Eduardo Coudet, Alexander Medina. Consegui absorver com bastante intensidade, com bastante conhecimento e curiosidade. E sentia-me pronto para esse novo desafio de ser treinador principal. Como eu tinha uma identificação e ainda tenho com o América muito grande, logo ali surgiu a primeira oportunidade.»

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«Os resultados alcançados foram interessantes, mas naquele momento os adeptos não estavam com toda a paciência do mundo, por causa da despromoção do ano anterior. E nós acabámos por pagar um pouquinho por isso. Quando uma equipa como o América, que pela primeira vez na história fica três anos seguidos na Série A, disputando a Taça Libertadores, a Taça Sul-Americana, a exigência dos adeptos torna-se muito maior. É natural. Então não tinham a paciência necessária para uma reestruturação, para uma equipa que juntasse uma juventude de jogadores identificados com o clube, mas que naquele momento para uma Série B, que era o caso do América, era necessário.»

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«E em seguida a Portuguesa chamou-me para o mesmo caminho. Então o facto de aceitar o desafio da Portuguesa, que agora se tornou SAF aqui no Brasil, uma empresa que está a investir na nova estrutura da Portuguesa. É um clube tradicionalíssimo aqui, não só no estado de São Paulo, mas também no Brasil como um todo. Uma equipa que teve várias décadas ininterruptamente na Série A. E o trabalho maior a ser feito nesse momento é exatamente isso: recolocar a Portuguesa com a sua tradição de volta à Série A do Campeonato Brasileiro, mas para além disso reestruturar o clube e reestruturar a identidade de jogo, identidade de cultura e o legado do clube como um todo.»

Cauan de Almeida no América FC em 2024 (Facebook/America FC)

Tivemos em Portugal, clubes históricos que acabaram por ir à falência por causa da criação de SAD's. Qual foi a reação dos adeptos, neste caso da SAF, da Portuguesa?

«Geralmente, raras exceções aqui no Brasil, ou algumas exceções, os clubes têm constituído SAF’s justamente por esse motivo, não estão com equilíbrio financeiro, estão próximos da falência e procuram essa alternativa. Aqui no Brasil tem sido visto por esse ponto de vista, principalmente a Portuguesa. A Portuguesa nesse momento tornou-se numa SAF e os adeptos entenderam que era a solução única e exclusiva para que a Portuguesa se mantivesse no âmbito nacional. Os adeptos, claro que num primeiro momento têm dúvidas, isso é natural de todo um processo que é novo, mas quando o processo gera credibilidade, e nessa primeira fase nós conseguimos fazer isso no Campeonato Paulista, conquistar um objetivo mais cedo. Todos os anos a Portuguesa tinha muita dificuldade de permanecer no campeonato, ou seja, sempre lutava até a última jornada pela manutenção. E esse ano conseguimos com três jornadas de antecedência a manutenção e isso já gera uma credibilidade maior. Nós acreditamos que nessa primeira fase concluímos um objetivo, que é o início da reestruturação da identidade da Portuguesa, do restauro da identidade de forma de jogo, como clube, como camisola, como tradição que é. E ao mesmo tempo o resultado desportivo que foi alcançado.»

O CEO há uns meses disse que queria colocar a Portuguesa em 2029 de volta à série A. Sente que é o homem certo e que vai fazer o trajeto até ao fim?

«Nesse momento o que chama a atenção do projeto, esse objetivo da Portuguesa SAF é um objetivo ambicioso. Porque principalmente a primeira barreira que é a Série D, se vencer, é uma competição complexa, porque na primeira fase é composta por grupos, mas na segunda fase já é 'mata-mata'. Passando da Série D para a Série C, acho que as coisas podem acontecer mais ao natural se tiver o investimento adequado para isso. Então é o que a SAF deve construir, ter essa lógica ambição é muito importante. Tem casos no Brasil que já aconteceram, como o Novo Horizontino, o Mirassol, para citar equipas de São Paulo, mas principalmente o Mirassol, que há poucos anos estava na série D e hoje é um clube de série A. Então é possível e acho que a cultura portuguesa também ajuda e auxilia muito nesse sentido. Quando todos estiverem focados para o mesmo objetivo, ou seja, todos estiverem com a mesma energia, acho que as coisas vão acontecer mais naturalmente e isso acho que vai acontecer e tem acontecido aqui. E nós esperamos alcançar esse primeiro objetivo o mais rápido possível.»

Uma das mascotes da equipa da portuguesa é Maria Severa. Muito conhecida em Portugal, uma das primeiras fadistas. Qual é o fado da Portuguesa?

«Eu acho que se nós continuarmos a executar esse trabalho que temos feito todo os dias, se a Portuguesa, como eu disse, conseguir criar essa identidade, conseguir recuperar tudo aquilo que a Portuguesa já foi um dia, como esses casos de sucesso que citei, pode acontecer. E nós esperamos que esse fado seja um fado, como eu gosto também, mas seja um fado, antes de tudo, uma trajetória muito bonita. Esperamos, uma trajetória marcante. E que possamos, sem dúvida nenhuma e acima de tudo, o futebol é isso, é entretenimento, que possamos representar muito bem os adeptos não só da Portuguesa SAF, de São Paulo, mas também de Portugal.»

Cauan de Almeida no treino da Associação Portuguesa de Desportos (Facebook/Associação Portuguesa de Desportos)

 

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