Ex-promessa do Sporting joga no Marinhense: «Alvalade é um sonho de criança» - TVI

Ex-promessa do Sporting joga no Marinhense: «Alvalade é um sonho de criança»

Gonçalo Batalha ao serviço do Sporting (Foto: Sporting)

Gonçalo Batalha jogou 11 anos na formação leonina e foi capitão numa geração de grandes jogadores como Nuno Mendes, Tiago Tomás ou Gonçalo Inácio. A pandemia de Covid-19 mudou-lhe o rumo e procura agora voltar a patamares cimeiros

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O Sporting-Marinhense, marcado para o próximo sábado, no Estádio José Alvalade, será especial para Gonçalo Batalha. O médio de 23 anos atua pelo Marinhense mas representou o Sporting durante 11 anos, na formação. Passou quase metade da sua vida a trabalhar para estrear-se em Alvalade de verde e branco. Porém, isso nunca aconteceu.

Visto como uma das grandes promessas da geração de 2002 em Alcochete, juntamente com Nuno Mendes, Gonçalo Inácio, Eduardo Quaresma ou Tiago Tomás, a pandemia de Covid-19 impediu a afirmação do médio no clube. Em entrevista ao Maisfutebol, o internacional jovem por Portugal conta que o fecho da Academia por força do confinamento geral «afetou a cabeça» do jogador.

Isto porque voltar a casa, na Marinha Grande, e regressar à Academia, com o regresso das competições, em meados de 2020, trouxe-lhe desafios inesperados e até repercussões físicas - três lesões no espaço de um ano. Desde aí, tem vindo a procurar o seu espaço nas divisões inferiores nacionais até chegar ao clube da sua terra - o Marinhense, onde até já dá treinos nas camadas jovens.

Não escondendo que pode cumprir «um sonho de criança», Batalha põe o foco no Campeonato de Portugal e não na Taça. Alvalade será apenas uma «recompensa» do destino. E recorda-nos ainda uma história marcante (e reveladora) sobre Nuno Mendes.

MF: Qual é a sensação de saber que vai jogar contra o Sporting, em Alvalade, depois de tantos anos na formação?

GB: É um sonho de criança. Não será da maneira que eu queria porque, com tudo o que se passou, com toda a formação que tive, o meu desejo era estrear-me em Alvalade pela equipa principal do Sporting. Não dando, é uma recompensa por todo o trabalho feito desde que saí de lá até então. É um sonho tornado realidade.

Gonçalo Batalha celebra golo pelos juniores do Sporting, em 2019/20. Marcou nove vezes em 24 jogos nessa época.

Quando houve o sorteio e percebeu que jogar contra o Sporting era uma possibilidade, qual foi a sua primeira reação?

Foi giro, engraçado. Quando soube, também comecei a receber muitas mensagens dos meus amigos que, na maior parte, são sportinguistas. Pensei que o jogo mais importante da minha vida seria com o Anadia e não com o Sporting. O Sporting é apenas o desfrutar de um sonho. O mais importante naquela altura era ganhar ao Anadia. Só acontecendo isso é que seria possível atingir esse objetivo e o realizar desse sonho.

Ficou motivadíssimo com o jogo contra o Anadia. Nem foi preciso grande palestra? 

Eu e todos os outros. Nós, em patamares mais baixos, queremos lutar por este tipo de jogos e certamente que o Anadia teria o mesmo sonho.

Como é que foi o filme do jogo? Pelo que sei, falhou um penálti. Quais foram as sensações?

É curioso [risos]. Foi um jogo muito difícil, tal como são todos no nosso campeonato. Temos de estar focados naquilo que é o campeonato, porque é o mais importante. O Sporting é um extra. Infelizmente, falhei o quinto penálti que poderia dar logo a passagem. Mas, felizmente, os meus colegas conseguiram marcar nos penáltis seguintes. O nosso guarda-redes já tinha defendido um penálti no prolongamento e voltou a fazer das suas nos penáltis. Deu-nos esta alegria. E ficámos todos muito contentes com isso. Saiu-me um peso dos ombros [risos].

Como é que vai lidar com o entusiasmo até ao jogo?

Lidar com o jogo é o mais fácil. É ter a mentalidade certa. Neste momento, o foco é o campeonato. Vamos jogo a jogo e fazendo os nossos pontos, indo em busca de melhores resultados. Temos um grupo unido, forte e que está a trabalhar bem. O resultado disso é esta passagem. Mas esta passagem não vale nada se nós não continuarmos a fazer aquilo para que trabalhamos, aquilo para que treinamos, que é o campeonato.

Gonçalo Batalha (último à direita na fila de baixo) ao lado de jogadores como Nuno Mendes, Tiago Tomás ou Eduardo Quaresma.

Provavelmente, vai defrontar ex-colegas seus. O Eduardo Quaresma e o Gonçalo Inácio, por exemplo. Já falou com algum deles? Vai ser engraçado defrontá-los agora, passados alguns anos?

Vai ser muito giro. Não falei ainda com nenhum deles. Acho que pode acontecer mais para a frente essa conversa. Nós temos de esquecer um bocado esta emoção e esta vontade de jogar em Alvalade porque temos o campeonato aí à porta.

Gostaria de recuar um bocadinho atrás no tempo. Você era uma grande promessa do Sporting. Como é que as lesões tiveram impacto na carreira?

Eu costumo dizer que a culpa é inteiramente minha. Não gosto de culpar ninguém, porque não me preparei da melhor forma. O mais difícil foi o Covid-19. Quando veio, apanhou-nos a todos de surpresa. Tivemos de voltar para casa, parámos todos por vários meses. Ao voltar, eu andava com alguns problemas aqui em casa, os pais sem trabalho... E isso afetou muito a minha cabeça. Nesse ano, tive três lesões e a partir daí não consegui reerguer-me. Fui-me muito abaixo, tanto física como mentalmente. Agora, fui à procura de outros objetivos e posso dizer que atingi bons feitos. Já subi duas vezes divisão, já fui campeão da Liga 3. Não estou onde queria estar, mas estou a trabalhar para chegar lá. Acho que ainda há tempo, ainda sou novo. Sou uma pessoa com muito querer, muita ambição. Um bocadinho chatinho ou até 'ranhoso', como se diz no futebol. Mas só quero o bem da equipa.

Nesse ano [2020] tive três lesões e a partir daí não consegui reerguer-me"

É interessante dizer que as lesões vieram ou decorreram do teu bem-estar mental. Porque, em muitas das vezes, as pessoas pensam que as lesões podem vir através de uma má preparação física. Porém, o mental dita o resto.

É muito importante. Especialmente para quem vive fora de casa anos e anos. Eu vivi desde os meus 12 anos sem sentir o que é estar em casa. Muitas das vezes nós estamos na Academia e havia problemas em casa, mas nós não os sabíamos. Os nossos pais tentavam evitar, para estarmos focados naquilo que é o nosso sonho. Estive seis ou sete anos sem viver com os meus pais e voltei. Depois, saí outra vez. Voltei a não ter o conforto que tinha de casa, voltei a ter de adaptar-me. Mentalmente, não é fácil. Agora estamos aqui na luta.

Voltar para o Marinhense foi uma decisão muito pessoal, pois é da Marinha Grande. Como é que tem sido representar o clube da terra? 

Tem sido giro. Estou a tirar o curso de treinador e também estou focado nisso. Estou a treinar uma equipa de miúdos aqui do clube. Tenho os meus amigos, a minha família por perto. Ter esse apoio que se calhar não tive em grande parte da minha vida, devido à distância. É muito importante. E muito giro, muito engraçado. Foi onde eu comecei e é onde estou, é onde pretendo dar a vida. E, pelos vistos, já tive algumas recompensas que, se calhar, nunca imaginei vir a ter. Muito menos no clube da minha terra.

Batalha celebra primeiro golo ao serviço do Marinhense, diante da Naval 1893.

Está a treinar que escalão? Vê-se numa carreira como treinador? 

Eu estou a treinar o escalão infantis sub-13, em futebol de nove. Tirei o curso na Associação de Futebol de Lisboa. Acho que ainda sou muito novo e que muita coisa pode mudar na minha vida. Mas estou a preparar-me para o futuro, é para isso que tiro os cursos e faço o meu estágio. Tento conjugar as duas coisas porque me é possível. No futuro logo se vê. Há pessoas que dizem que tenho jeito, outras que se calhar não o acham o mesmo. É o que é.

Ainda sobre o Sporting. Que memórias positivas é que guarda dos anos todos de formação?

Tenho memórias mais recentes, outras mais antigas. Lembro-me muito bem quando ganhámos um Mundialito [em 2010]. Ainda era muito pequeno, mas era um grande torneio. Memórias de ter ido a tanto lado do país e do mundo. Tenho perfeitamente a memória de quando meus colegas se estrearam na equipa principal, o que é um orgulho. São muitas memórias e amigos que ficaram. Não é fácil lidar com o rótulo 'formação Sporting'. É engraçado que, agora na formação, um amigo que está comigo a ajudar-me nos treinos disse que não podia ter a mesma mentalidade que me incutiram no Sporting. Os miúdos aqui não têm as mesmas qualidades, os mesmos incentivos. Tenho muita essa dificuldade, mas acho que é uma coisa boa. Tenho muito essa mentalidade vencedora que me ensinaram lá.

Nuno Mendes lesionou-se, foi para o hospital, e o pós-recuperação dele foi incrível"

Há um jogador em particular com quem você se cruzou nos escalões jovens – o Nuno Mendes. Imaginava que fosse chegar onde chegou?

Eu tenho uma imagem na minha cabeça do nosso balneário desfeito depois de um jogo em Loures [de juvenis, em 2018]. O Nuno Mendes sofreu uma lesão gravíssima. E lembro-me muito bem que até tirámos uma foto no fim do jogo com a camisola dele. Ele tinha ido para o hospital. E o pós-recuperação dele foi incrível. O que ele lutou e batalhou era de quem tinha a mentalidade certa para chegar onde está. Evoluiu fisicamente mesmo estando lesionado, deu um passo gigante. É de quem merece estar onde está e a lutar por tudo.

E ele ainda teve outra lesão grave, já a nível sénior [no PSG].

É mais uma luta que ele passou. Está a lutar para ser melhor jogador do mundo e eu acredito que ele o consiga alcançar.

Olhando mais para o futuro, ambicionas voltar aos campeonatos profissionais? Já disseste que és novo. 

Sim, sonho em voltar e trabalho todos os dias para que isso aconteça. Esse é o principal objetivo. Para além de ser melhor todos os dias. O principal objetivo é chegar às Ligas acima. O objetivo não é jogar uma vez em Alvalade, será sempre conseguir chegar lá mais vezes. E não só a Alvalade, mas também outros palcos. Jogar a Liga, a II Liga, fazer todas essas etapas se for possível. Mesmo com todas as adversidades de jogar nos patamares inferiores.

Tem-lhe surpreendido a qualidade na Liga 3 e no Campeonato de Portugal?

Há muita qualidade nos Campeonatos não profissionais. A prova disso é que me cruzo com muita gente com quem joguei na formação do Sporting ou com quem joguei contra, tanto do Benfica como do FC Porto. Estamos a falar de plantéis de 30 miúdos em que cinco ou seis chegam às equipas profissionais. O resto anda por aí espalhado, uns com mais sorte, outros com menos. Eu acredito que, com oportunidade e com o trabalho certo, todos terão oportunidade.

Última pergunta. Qual o seu prognóstico para o duelo com o Sporting?

Faço das palavras do meu míster as minhas. Temos um por cento de chance. Vamos agarrar-nos a esse um por cento. Sabemos quão grande o Sporting é. São bicampeões nacionais, coisa que tanto lutaram e que tanto merecem. Mas sabemos do nosso um por cento. Vamos trabalhar naquilo que for preciso e vamos lutar até o fim por um bom resultado.

Gonçalo Batalha em ação no duelo contra o Anadia, o «jogo mais importante» da sua carreira
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