O ex-secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo aponta diversos erros a Donald Trump na defesa do presidente russo, Vladimir Putin, no seu livro de memórias a lançar na terça-feira.

No livro intitulado "Never Give An Inch" e a que o site de notícias Axios teve parcialmente acesso, Mike Pompeo, que liderou a diplomacia dos Estados Unidos da América (EUA) entre 2018 e 2021, sob a presidência de Donald Trump, descreve aquele que foi o seu "primeiro grande trabalho relacionado com a Rússia", referindo-se ao encontro ocorrido em julho de 2018, quando o chefe de Estado Republicano se encontrou com Putin em Helsínquia, na Finlândia.

"Este compromisso é lembrado pela conferência de imprensa realizada no final da reunião", a qual ficou marcada pelos elogios de Trump a Putin, e por o ex-presidente norte-americano ter ficado do lado de Moscovo em detrimento dos serviços de informações norte-americanos, que haviam documentado interferências estrangeiras nas eleições do país, descreveu Pompeo.

"Para ser claro, a linguagem de Trump não foi precisa nem útil. Ficar ao lado de Putin e dizer que acreditava nas alegações de Putin de que não se intrometeu nas eleições dos EUA foi muito 'trumpiano'. Também foi um erro", avaliou Pompeo.

"Faltou profundidade para abordar a pergunta que veio do repórter americano: 'Você considera a Rússia responsável por alguma coisa em particular?'. A resposta de Trump refletiu a sua incapacidade ou recusa em separar a farsa da Rússia do facto de que a Rússia tentou semear o caos nas eleições de 2016", acrescenta Mike Pompeo, que foi também diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) entre 2017 e 2018.

"Para Trump, todas as perguntas sobre a Rússia e as eleições foram contaminadas pela narrativa do embuste da Rússia", adianta.

Pompeo, que é visto como um potencial rival para a indicação do Partido Republicano às presidenciais de 2024 - às quais Trump já anunciou que irá concorrer -, afirmou ainda que "uma parceria americana com a Rússia é uma missão tola enquanto Putin e os seus capangas estiverem no poder".

Ainda sobre a sua convivência com Putin, Mike Pompeo fez algumas observações sobre a sua personalidade do ex-presidente, avaliando que “pode ser engraçado e alegre, mesmo sendo maléfico”.

“Ele sabia tudo sobre mim, onde cresci, a minha formação. Então ele fazia piadas: 'Ah, isso mesmo, você é daquele lugarzinho no sul da Califórnia', coisas assim", descreveu.

“Ele estava sempre a testar, a sondar, mas tinha um bom senso de humor. (...) Eu estudei-o também. Portanto, as conversas eram carregadas e difíceis, mas havia momentos absolutamente mais leves”, recordou.

A CIA, sobre a liderança de Pompeo, chegou a salvar centenas de vidas em 2017, quando alertou a Rússia sobre um ataque iminente dos extremistas do Estado Islâmico à Catedral de Kazan, em São Petersburgo.

Putin ligou então diretamente para Pompeo para agradecer, assegurou o ex-secretário de Estado.

Ao longo do livro, o ex-diretor da CIA resgata ainda outras memórias polémicas do seu percurso político, como quando Trump o mandou "calar a boca por um tempo" sobre a possibilidade de a China esconder informações iniciais da pandemia de covid-19, segundo o jornal New York Post.

Pompeo escreve que o presidente chinês, Xi Jinping, ficou furioso com as suas críticas à falta de transparência sobre a pandemia, numa conferência de imprensa em 25 de março de 2020, e afirmou que o líder chinês telefonou no dia seguinte a Trump, a pedir para silenciar Pompeo.

Pompeo considera ainda Xi Jinping como um dos "líderes mundiais mais desagradáveis” e afirma "suspeitar que os chineses estejam a mentir ao dizer que não sabiam que a invasão de Putin [à Ucrânia em 2022] era iminente".

/ AG