Mortes por doenças do aparelho circulatório atingem em 2023 valor mais baixo em 30 anos - TVI

Mortes por doenças do aparelho circulatório atingem em 2023 valor mais baixo em 30 anos

  • Agência Lusa
  • AM
  • 11 fev, 07:08
Idosos

Apesar da descida de internamentos e letalidade, a despesa do SNS com medicamentos subiu 41% em nove anos

Portugal registou, na última década, uma redução significativa da mortalidade por doenças do aparelho circulatório, tendo a proporção de óbitos por estas patologias atingido, em 2023, o valor mais baixo dos últimos 30 anos.

O relatório “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)”, publicado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) e a que agência Lusa teve acesso, destaca que, apesar de estas patologias continuarem a ser a principal causa de morte em Portugal, representando cerca de 25% do total de óbitos, a sua proporção tem vindo a diminuir de forma sustentada, aproximando-se pela primeira vez da observada para os tumores malignos.

A DGS salienta, em comunicado, que Portugal apresenta atualmente indicadores de mortalidade cérebro e cardiovascular iguais ou inferiores à média europeia.

O relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro e Cardiovasculares (PNDCCV) da DGS revela “melhorias relevantes”, entre 2015 e 2024, nos cuidados de saúde primários, com aumento da proporção de doentes com pressão arterial controlada e de pessoas com diabetes com níveis de colesterol LDL controlado.

Realça também “um aumento marcado das consultas de cessação tabágica, sinalizando melhor controlo dos fatores de risco cardiovasculares”.

Na última década, salienta, os internamentos por doenças do aparelho circulatório diminuíram 19%, refletindo ganhos em prevenção, melhoria da resposta assistencial e avanços terapêuticos.

O documento assinala uma redução superior a 10% em todas as patologias, entre 2017 e 2023, “mas claramente mais evidente no caso dos números de internamentos por enfarte agudo do miocárdio EAM (-20,7% de internamentos e -29,5% na letalidade), por acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico (-20,1% de internamentos e -20,5% na letalidade) e por AVC isquémico (-12,1% de internamentos e letalidade), provavelmente devido às melhorias nos cuidados pré-hospitalares e hospitalares”.

No mesmo período, registaram-se 198.927 internamentos por doenças cérebro e cardiovasculares, dos quais mais de 80% corresponderam a AVC agudo. Do total de internamentos, 50,2% envolveram homens e a mediana de idades foi de 76 anos.

De acordo com os dados, a letalidade hospitalar global foi de 12,3%, mantendo-se relativamente estável ao longo do período, exceto no ano de 2020 com um pico de 13,3%, decrescendo no ano seguinte para 12,2%.

A insuficiência cardíaca é apontada como um dos principais desafios da próxima década: “Apesar de uma redução de 37% nos internamentos, a mortalidade associada mantém-se elevada, refletindo o peso da doença crónica e do envelhecimento”, salienta a DGS.

Mais de 65% dos internamentos por AVC e insuficiência cardíaca ocorrem em pessoas com mais de 70 anos. No entanto, salienta, “a consolidação das Vias Verdes do AVC e da Via Verde Coronária teve impacto direto na sobrevivência dos doentes”.

“Os dados confirmam melhoria da resposta aguda, maior capacidade técnica e expansão das terapias, mas também revelam desigualdades regionais no acesso a cuidados de alta complexidade”, conclui o relatório.

Além das assimetrias regionais, o relatório identifica como desafios a elevada letalidade dos AVC hemorrágicos, o crescente número de adultos com cardiopatia congénita e a necessidade de reforço da reabilitação cardiovascular e da integração de cuidados.

O relatório evidencia também “uma transformação tecnológica marcada, com crescimento sustentado dos procedimentos minimamente invasivos e maior recurso a terapêuticas avançadas, alinhando Portugal com os padrões europeus de cuidados cardiovasculares”.

Despesa do SNS com medicamentos cardiovasculares aumentou 41% em nove anos

O encargo do SNS com medicamentos para o tratamento das doenças do aparelho circulatório aumentou cerca de 41%, entre 2015 e 2024, passando de 357 milhões de euros para cerca de 505 milhões de euros, revela hoje um relatório.

Segundo o relatório da Direção-Geral da Saúde, “este crescimento reflete a evolução demográfica, o aumento da prevalência de doenças cardiovasculares crónicas e o alargamento das opções terapêuticas disponíveis, sobretudo nas áreas da hipertensão, dislipidemia e insuficiência cardíaca”.

“A farmácia comunitária concentra a esmagadora maioria da despesa — cerca de 92–93 % do total, mantendo uma estrutura estável ao longo da última década”, sublinha o relatório “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)”, a que a agência Lusa teve acesso

Em 2024, o custo para o Serviço Nacional de Saúde com medicamentos cardiovasculares dispensados em farmácia comunitária rondou 466 milhões de euros, enquanto os medicamentos hospitalares representaram 38,8 milhões de euros (7,6% do total).

"Apesar da relativa estabilidade do peso hospitalar, a tendência de crescimento global tem sido constante, com apenas pequenas flutuações entre 2018 e 2020”, refere o documento, assinalando o aumento mais acentuado a partir de 2021, coincidente com a recuperação da atividade assistencial pós-pandemia e a introdução de terapêuticas inovadoras, nomeadamente na insuficiência cardíaca e na prevenção secundária.

A análise a longo prazo evidencia dois fenómenos complementares: A progressiva substituição terapêutica por fármacos mais recentes, mas de maior custo unitário - como os inibidores da SGLT2, o sacubitril-valsartan ou os anticoagulantes orais diretos -, e o envelhecimento populacional e a crescente cronicidade, que prolongam a duração média do tratamento e aumentam o número de doentes medicados.

"Os medicamentos para as doenças cérebro-cardiovasculares continuam a representar um dos principais determinantes da despesa farmacêutica pública, correspondendo a uma das maiores parcelas do total de medicamentos comparticipados pelo SNS", salienta, defendendo a importância de otimizar a sua prescrição e reforçar a adesão terapêutica, "assegurando que o aumento do investimento se traduz em ganhos efetivos em saúde e redução de eventos agudos evitáveis”.

O relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro e Cardiovasculares (PNDCCV) salienta que a comparticipação majoritária destes medicamentos em escalão B ou C tem impacto relevante no orçamento das famílias, reforçando "a pertinência da proposta do PNDCCV para a reclassificação em escalão A dos fármacos genéricos essenciais ao controlo da hipertensão arterial e dislipidemia”.

“Tal medida permitiria melhorar a equidade no acesso e, simultaneamente, potenciar a eficiência da despesa pública”, defende.

O relatório destaca que as doenças do aparelho circulatório continuam a representar uma das principais causas de internamento e de despesa direta em saúde. Entre 2017 e 2024, foram faturados 810.776 episódios de internamento com diagnóstico principal neste grupo de doenças, correspondendo a um custo acumulado de cerca de 2,85 mil milhões de euros para o SNS.

Neste período, observou-se uma redução sustentada do número de episódios (-20,3%), mas com uma diminuição "pouco significativa" do custo total (-5,6%), uma discrepância que reflete um aumento progressivo do custo médio por internamento, que passou de 3.210 euros em 2017 para mais de 3.800 euros em 2024 (+18,3%), com tendência ascendente desde 2020.

“Este comportamento sugere que, apesar da redução global dos episódios, o perfil de gravidade aumentou e houve intensificação do consumo de recursos diagnósticos e terapêuticos nos internamentos, sobretudo nos contextos de insuficiência cardíaca, síndromes coronárias agudas e doenças cerebrovasculares, para além de ser um indicador de maior complexidade clínica e envelhecimento populacional”, conclui o relatório.

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