Morreu Anita Guerreiro, nome incontornável das Marchas Populares de Lisboa - TVI

Morreu Anita Guerreiro, nome incontornável das Marchas Populares de Lisboa

  • CNN Portugal
  • MJC - notícia atualizada às 12:09
  • 7 dez 2025, 11:40
Anita Guerreiro

A atriz e fadista tinha 89 anos e vivia há 11 na Casa do Artista, em Lisboa

A atriz e fadista Bebiana Guerreiro Rocha Cardinali, mais conhecida como Anita Guerreiro, rosto incontornável das Marchas Populares de Lisboa e do teatro de revista, morreu este fim de semana, aos 89 anos.

A notícia foi avançada por João Baião nas suas redes sociais. "Bom dia. Notícia tão triste. Minha querida Anita Guerreiro!", escreveu o apresentador no Instagram. "Um grande aplauso para a Voz de Lisboa, de Portugal!"

Madrinha de diversas marchas populares na capital, incluindo da “Marcha dos Mercados” entre 2006 e 2015, Anita Guerreiro dividiu a sua carreira entre o fado e o teatro, dando voz a inúmeros sucessos, entre os quais “Cheira bem, cheira a Lisboa”, mais tarde imortalizado por Amália Rodrigues, e “Peço a Palavra” - interpretações que, em 1970, lhe valeram o Prémio Estevão Amarante para Melhor Artista de Revista.

Nascida na freguesia lisboeta dos Anjos, foi como Bebiana que, ainda miúda, começou a cantar e a dar nas vistas nos espetáculos da escola e da coletividade do seu bairro, o Sport Clube do Intendente. Aos sete anos já era solista. Em 1952, quando tinha 16 anos, concorreu ao "Tribunal da Canção" do Expresso da Seis e Meia, um dos programas radiofónicos com mais sucesso na altura. A costureira chegou ao Teatro Politeama acompanhada por uma vizinha ("fui às escondidas do meu pai") surpreendeu os responsáveis do programa - o apresentador Marcos Vidal e o maestro Miguel de Oliveira - e saiu de lá com um contrato na mão e um novo nome artístico, Anita Guerreiro.

Tornou-se cantora e atriz profissional. Passado pouco tempo - ainda menor e "entregue" à responsabilidade da cantora Maria Sidónio - já andava em digressão pelo país. "Há muitas pessoas que pensam nisto como uma montra, e acho que fazem mal. Isto é um trabalho, que deixou de ser a coser e a fazer lingerie para passar a ser a cantar, que é o produto que talvez eu melhor venda", contava numa entrevista ao Diário de Notícias quando celebrava os 50 anos de carreira. Anita nunca estudou, nem teve aulas de canto. "É um dom inato. Ainda pensei ter aulas mas a professora recomendou-me que não o fizesse. Treinando a voz perderia os trinados, perderia o meu carisma", justificava-se. "Aprendi com a experiência, coloco a voz à minha maneira, sei defender-me. E sempre tive muito cuidado com a dicção."

Com uma vasta experiência no teatro de revista, Anita Guerreiro viveu os tempos áureos do Parque Mayer, "quando aquilo parecia uma feira, com as meninas dos tirinhos, o algodão doce e as farturas, e com os teatros todos a funcionar", recordava. "Ao fim-de-semana era lindo, o Parque estava cheio de pessoas." Naquele tempo, Anita estreava um fado numa noite e, no dia seguinte, ele já era cantado em Lisboa. "Olh'òs fados da Anita", apregoava o ceguinho que vendia as letras nas ruas. 

Depois de ter vivido parte da sua vida nos Estados Unidos, onde casou e teve dois filhos, regressou a Portugal, instalando-se no Bairro Alto. Fez várias telenovelas, entrou na série de televisão Batanetes e durante mais de duas décadas cantou o fado, de segunda a sábado, no restaurante Faia, a sua segunda casa. "Claro que a minha vida não são só alegrias, também tem tido revezes, mas estou feliz, sobretudo quando estou a cantar ou a representar", dizia.

Integrou também o elenco de várias telenovelas e séries portuguesas, como “Primeiro Amor” (1995), “Roseira Brava” (1996), “Uma Casa em Fanicos” (1998), “A Loja do Camilo” (1999), “Nunca Digas Adeus” (2001), “Os Batanetes” (2004) e, mais recentemente, “Sentimentos” (2009). "A televisão faz maravilhas. Conhecem-me em toda a parte, até no estrangeiro", confessava Anita Guerreiro. Foi através da televisão que chegou ao público mais jovem, que a conhecia como a "avó Batanete" ou como a protagonista de um anúncio publicitário a pastilhas para a garganta.

Em 2004, recebeu da Câmara Municipal de Lisboa a Medalha Municipal de Mérito, Grau de Ouro, em reconhecimento da sua carreira e contributo para a cultura portuguesa.

Anita Guerreiro vivia há 11 anos na Casa do Artista, na Pontinha, em Lisboa, onde acabou por falecer esta madrugada.

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