Do sonho à realização: como se viveu a estreia de Cabo Verde num Mundial - TVI

Do sonho à realização: como se viveu a estreia de Cabo Verde num Mundial

O Maisfutebol acompanhou de perto as emoções vividas ao rubro em Lisboa numa tarde que marcará para sempre a história dos Tubarões Azuis

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Faltava mais de uma hora para o jogo, mas já se via as cores de Cabo Verde espalhadas pelas ruas de Terrapleno de Santos, em Lisboa – um dos vários locais onde os cabo-verdianos espalhados pelo Mundo iriam acompanhar a estreia inédita num Mundial.

Este evento especial – que acontece de quatro em quatro anos – tem a tradição de juntar todo um país. Apoiar a seleção passa a ser dever nacional. Imagine-se, agora, um país que vive essa sensação pela primeira vez na história.

Entende-se, portanto, a ansiedade e o entusiasmo horas antes do início do jogo frente à Espanha. Na verdade, toda essa animação já se prolonga há vários meses. Mas, agora, estava mais perto. Era hora de passar do sonho à realização.

Cabo Verde acabaria por ter uma estreia de sonho - e de afirmação também. Mas já lá vamos. 

Em Terrapleno de Santos, em Lisboa, o evento começava às quatro horas da tarde – uma hora antes do apito inicial. Antes disso já se fazia fila para entrar no recinto – que à medida que a hora do jogo se aproximava começava a abarrotar.

Estavam todos os ingredientes em cima da mesa para uma tarde memorável: sol, comida, bebida e boa música, com tambores à mistura.

«Hoje os miúdos já não querem ser o Cristiano Ronaldo. Querem ser o Pico, o Ryan Mendes...»

O povo cabo-verdiano, entre sorrisos, ia escondendo o nervosismo miudinho de quem estava prestes a ver história perante os seus olhos – mesmo os adeptos mais antigos.

«Eu acompanho os Tubarões Azuis desde os tempos em que ninguém ia ao estádio», conta um adepto em conversa com o Maisfutebol. «Isto é o culminar de um grande percurso. Hoje os miúdos já não querem ser o Cristiano Ronaldo. Querem ser o Pico, o Ryan Mendes…», acrescenta.

«Ver Cabo Verde no Mundial está no topo dos melhores dias da minha vida», confessou ainda de cerveja de mão, garantindo que Cabo Verde não está para perder «nem a feijões».

Há que continuar a sonhar. «Se sonhámos em chegar ao Mundial porque não passar o grupo? Vamos sonhar mais um bocadinho», concluiu. 

Numa zona VIP, lá mais em cima, estava também um dos maiores nomes do desporto de Cabo Verde. David Pina, atleta de boxe que foi o primeiro medalhista do país nuns Jogos Olímpicos, não escondeu a felicidade.

«Estar no Mundial é uma grande evolução do país em si. O que eu fiz (medalha de bronze em Paris 2024) foi dar o primeiro passo, o caminho é longo e é preciso tempo. Só estar no Mundial é um grande feito. Esta é a primeira fase, o resto será consequência daquilo que estamos sempre a tentar», partilhou.

Deixou, ainda, uma mensagem às futuras gerações cabo-verdianas: «O primeiro passo é sonhar, o resto é trabalho. Sonhem em grande», atirou.

O ambiente era de otimismo. Muitos acreditavam na vitória, sabendo que seria preciso sofrer. «Vamos ganhar 1-0. Tenho fé que vamos sofrer, mas vamos ganhar», atirou um adepto.

Previsões à parte, o apito inicial aproximava-se. Aliás, mal a transmissão apareceu pela primeira vez no ecrã gigante, o povo gritou. Pode parecer uma coisa simples, mas não – era o confirmar da realização de um sonho.

Tudo era motivo de festa. A entrada dos jogadores, o grafismo do onze, a emoção de cantar o hino pela primeira vez num Mundial e o arranque do jogo. Todas as mais simples ações eram especiais. Porque, na verdade, estavam a ser realizadas pela primeira vez. Quem não se deixa levar quando vê história a acontecer?

Pela multidão era possível ver alguns adeptos espanhóis – muito poucos comparados com as dezenas de cabo-verdianos presentes. O jogo começou e a animação baixou um pouco. Era momento de concentrar no ecrã gigante. Nos primeiros minutos, sentia-se, havia tensão no ar – vivia-se o medo de sofrer um golo cedo.

Os minutos foram passado os adeptos – tal como os jogadores no relvado – iam se soltando. Já se via mais animação, aquela pressão inicial já tinha passado.

Eis que Vozinha faz a primeira grande defesa da noite – festejada como se de um golo se tratasse. Mal se sabia que se estava a presenciar o nascimento de uma lenda.

O tempo de intervalo aproximava-se e já se fazia festa – aquele zero a zero no fim da primeira parte já sabia a vitória. «Está a correr melhor do que estava à espera. Se continuarmos assim...», atira um adepto ao intervalo. «Pontuarmos contra a Espanha já seria um grande feito», acrescenta. Mal sabia que esse «feito» viria mesmo a concretizar-se.

Enquanto isso, os tambores iam animando o recinto enquanto a bola não recomeçava a rolar. 

Arranca a segunda parte, sem mexidas. Deambulava entre a zona mais privada e o recinto onde se concentrava a maior parte dos adeptos. A felicidade era contagiante, diga-se de passagem.

Não sabiam o que lhes esperava, mas tinham a certeza de algo – o que estavam a ver já era motivo de orgulho.

Quando dou por mim o jogo está prestes a acabar. Passou rápido, o que por norma é bom sinal. O relógio marca os minutos finais e aquele pontinho na estreia parece cada vez mais possível.

«Cabo Verde Olé», já se cantava em alto e bom som ainda antes dos 90 minutos.

A festa foi confirmada com o apito final – para loucura das dezenas de adeptos presentes em Terrapleno de Santos. A emoção, a alegria e a sensação de quem via um David a fazer frente ao Golias tomavam conta do lugar.

Sim, o «pequeno» Cabo Verde acabara de fazer frente ao campeão Europeu Espanha, no primeiro jogo de sempre num Mundial.

Um empate que soube a vitória, como partilha uma adepta que dançava como se não houvesse amanhã. «Só tínhamos um por cento de chance… e olha o que nisto deu», confessou.

«É um grande orgulho para os 'nossos rapazes' que estão ali a brilhar em Atlanta» afirma. Vale, ainda sonhar com o título. «Claro! Temos de sonhar. Somos duros porque somos Cabo Verde, filhos da rocha», disse de uma forma animada.

«Vozinha? É uma lenda... representa a nossa bandeira com dignidade»

Enquanto uns dançavam, abanavam as bandeiras e abraçavam os entes queridos, há quem dê declarações de amor ao homem do jogo... Vozinha.

«Ídolo. Lenda. Ele tem vários adjetivos porque representa a nossa bandeira com dignidade e ambição», atirou um adepto de forma emocionada.

«Mostrámos que somos pequenos em tamanho, mas grandes em termos de jogo»

É para já uma das histórias do Mundial. Um país estreante fez frente a um dos favoritos. Um povo resiliente que festeja como se de uma vitória se tratasse – porque, na verdade, é a prova de algo mais.  

«Mostrámos que somos pequenos em tamanho, mas grandes em termos de jogo», referiu outro cabo-verdiano que festejava de forma efusiva.

«Sempre fomos um povo que lutamos muito para aquilo que queremos conquistar. Isso foi muito importante para nós», acrescentou ainda de sorriso rasgado.

A tarde/noite será de festa. Até porque, até hoje, não era todos os dias que se via Cabo Verde a atuar num Mundial – muito menos a quebrar as probabilidades.

«Agora é festa rija. Como dizemos em Cabo Verde, ‘hoje é até acabar’», concluiu.

A noite em Santos promete ser longa. Não é para menos.

Há música, tambores, comida, bebida e um motivo grande para festejar. Qual é a desculpa? Nenhuma. Amanhã já se pensa noutras coisas. Hoje é dia de celebrar o grande mergulho dos tubarões azuis em oceanos mundiais.

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