Assim não vale, França. Ninguém disse que dava para jogar o Mundial com super-heróis - TVI

Assim não vale, França. Ninguém disse que dava para jogar o Mundial com super-heróis

França-Marrocos (FOTO: AP/Matt Slocum)

CRÓNICA FRANÇA 2-0 MARROCOS || A seleção gaulesa nem fez uma exibição deslumbrante. Não precisou. Até falhou um penálti. Não precisou de o marcar. É, nesta altura, uma equipa muito acima de qualquer outra. Desta vez a vítima foi Marrocos

Começaram de mansinho, mas quando lhes deram espaço foi vê-los voar para nunca mais os agarrar. França venceu Marrocos com ainda mais facilidade do que se esperava, mesmo que tenha estado os primeiros 60 minutos à procura de poder ferir o adversário.

Sem Ismael Saibari na frente para fazer os movimentos que deixaram tantas defesas loucas neste Mundial, Marrocos acabou por ser uma equipa curta para o sufoco de França, que esteve sempre estável a defender e permitiu poucas acelerações.

Na primeira parte ainda tentaram Brahim Díaz ou Achraf Hakimi, mas havia pouca gente a acompanhá-los e as jogadas acabavam quase sempre da mesma forma. Para quem viu os dois jogos, Marrocos foi contra a França um pouco aquilo que Portugal foi contra Espanha: coeso a defender, muito curto e sem soluções a atacar.

Isso deu capacidade a França para se instalar ainda mais no meio-campo adversário, ativando à vez as inúmeras estrelas que tem na frente, que foram começando a dançar, ainda que devagar na primeira parte.

Com a seleção marroquina muito remetida à defesa, França sentiu necessidade de procurar soluções diferentes. Exemplo disso é o grande remate de Lucas Digne à trave já a caminhar para o intervalo. Até aí se percebeu que o manancial de soluções desta equipa é quase inesgotável.

A única vez que França conseguiu furar a resistência de Marrocos na primeira parte houve até penálti por falta sobre Kylian Mbappé, mas o avançado do Real Madrid tremeu perante o especialista Yassine Bounou, que dançou em cima da linha para mexer com o adversário, acabando por conseguir uma defesa aparentemente fácil.

A segunda parte trouxe uma seleção de Marrocos com mais intenção de atacar, ainda que praticamente a mesma incapacidade. Faltava Ismael Saibari, lá está, ele que foi decisivo, por exemplo, contra Brasil ou Escócia. O maior lesado foi Brahim Díaz, que nunca conseguiu encontrar ninguém a mexer-se nas costas da defesa como até aqui vinha encontrado o avançado que vai jogar no Bayern de Munique na próxima época.

E se França nem estava a ser particularmente capaz de encontrar soluções coletivas para mexer com a organização de Marrocos, foi o individual a sobressair. Foi Kylian Mbappé - podiam ter sido Michael Olise, Désiré Doué ou Ousmane Dembelé - a descobrir o caminho da baliza.

Assim que se colocou de frente já em cima da linha da grande área percebeu-se que ia ser difícil parar o que ia acontecer. O avançado do Real Madrid jingou e, sem qualquer balanço, colocou a bola no único sítio onde ela podia entrar, fazendo o 1-0 para a França e quebrando a resistência de Marrocos.

A perder, a seleção de Marrocos nunca conseguiu mostrar sequer alguma capacidade de reagir. Incapacidade da equipa africana, claro, mas brutal capacidade de França, que deu aqui a prova dos nove de que é a melhor equipa do torneio. Não só tem mais qualidade na frente, como tem uma sobriedade e uma consistência atrás que lhe permitem não ter grandes sustos - os únicos terão sido um remate de meia distância Azzedine Ounahi ao minuto 83 - Mike Maignan respondeu com facilidade - e um cabeceamento num canto logo a seguir, com a bola a ir ao lado.

Em todo o caso, mesmo esse lance surgiu já com 2-0 e total tranquilidade de França, isto porque pouco depois do golo inaugural apareceu Ousmane Dembelé numa daquelas cavalgadas que parece trazer uma autêntica manada de problemas. O Bola de Ouro era o maior deles e atirou a contar para a baliza, ainda que fique a sensação de que Yassine Bounou podia ter feito melhor.

Até pela forma como França joga, dá mesmo a sensação de que esta seleção está muito acima de todas as outras, tem uma caixa de velocidades que as outras não têm. Veremos como é nas meias-finais, onde vai defrontar Espanha ou Bélgica, mas é difícil de imaginar a equipa de Didier Deschamps a ser travada neste momento, até porque a sensação que fica é que nenhum dos jogadores chegou ao seu máximo para vencer em Boston.

Recuperando a lógica da embraiagem, é quase injusto para todos os outros que França esteja neste Mundial, já que os seus jogadores, quando colocados ao lado dos outros, parecem estar a jogar outro desporto.

É, até agora, uma equipa a jogar sozinha, como se tivesse super-poderes e os outros fossem meros humanos. Se Kylian Mbappé não vestir a capa na frente, há outros para a envergarem, como Ousmane Dembelé a ter nos pés o poder da ubiquidade ou Michael Olise, que tem seda nas botas. Se for preciso defender por alguma razão, toda a gente está a responder com facilidade. O grande desafio de todas as equipas agora é mesmo este: tirar França do Mundial.

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