Praia a mais, futebol a menos: o desastre da estreia de Portugal - TVI

Praia a mais, futebol a menos: o desastre da estreia de Portugal

Pedro Neto, Nuno Mendes e João Cancelo no Portugal-RD Congo (AP/Karen Warren)

SUPERCRÓNICA PORTUGAL 1-1 REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO || Estreia para esquecer da Seleção no Mundial 2026, com um empate frente a uma equipa organizada, mas visivelmente mais fraca. Começa mal o sonho

Uma entrada forte com cinco minutos de domínio, um grande cruzamento e um cabeceamento ainda melhor. Da estreia de Portugal neste Mundial 2026 podemos retirar isto e pouco mais, numa partida muito fraca da Seleção, que pareceu com pouca vontade de trocar a areia de Palm Beach pela relva de Houston.

Não os censuramos, claro, até porque a Florida é bem mais interessante que o Texas. Houston é perto da costa, sim, mas Palm Beach é outra coisa.

Depois do golaço de João Neves de cabeça não mais Portugal se encontrou com o fio de jogo. A bem da verdade nunca o teve, tendo antes sido bafejado pela sorte de um grande cruzamento de Pedro Neto e uma excelente finalização do médio do Paris Saint-Germain.

Os jogadores que construíram o golo de Portugal estiveram entre os poucos que tentaram lutar contra um autêntico marasmo de uma Seleção que tem de fazer o oposto disto se acha que é mesmo candidata a algo interessante neste Mundial.

Foram João Neves e Pedro Neto, mas também Vitinha, Nuno Mendes e João Cancelo, os únicos da equipa titular que justificaram a aposta, ainda que a níveis diferentes.

Apanhado a ganhar, Portugal encarou uma República Democrática do Congo que não alterou muito a postura, mas que decidiu subir linhas. Subir a alargá-las, a espaços numa lógica quase suicida que, caso tivesse outro adversário, teria sido muito mais bem aproveitada.

Os espaços dados nas costas dos centrais e até entre os mesmos foi demasiado evidente para que Portugal não os tivesse visto. Mas não viu mesmo, ou quando viu não correu bem.

Em dois pontos diferentes, os médios lançadores como Vitinha ou Bruno Fernandes tiveram pouca visão para perceber os espaços que se iam abrindo, mas aqueles que tinham obrigação de os explorar também pouco fizeram.

Aqui é feita justiça a João Cancelo, que na primeira parte chegou a jogar quase a ponta de lança e foi dos únicos a perceber que havia espaço para explorar e a tentar fazê-lo, mas ninguém lhe ligou nenhuma. Na segunda parte ainda marcou um golaço, mas estava fora de jogo.

Com o adiantar da hora, e até tendo em conta que em Miami é uma hora a mais, se calhar começava a chegar a hora da praia. Pelo menos do relvado não era, com certeza.

Portugal adormeceu tanto o jogo que se adormeceu a si próprio, permitindo à República Democrática do Congo crescer no jogo, nomeadamente por Yoane Wissa, jogador que, imagine-se, é o ponta de lança mais avançado entre as duas equipas - sim, mais até do que Gonçalo Ramos.

Foi precisamente o avançado que praticamente nem jogou no Newcastle depois de uma lesão grave que aproveitou um total amadorismo da defesa para empatar a partida.

Orfã de um líder porque Pepe já não conta - estava no estádio, mas de fato e na bancada - e porque Rúben Dias está a contas com problemas físicos, a defesa ficou completamente às aranhas, acabando a defender o lance com Bruno Fernandes sozinho para três jogadores, enquanto Tomás Araújo foi ajudar três colegas que tinham apenas dois adversários para defender.

Yoane Wissa aproveitou tudo isso e ainda a falta de saída de Diogo Costa para marcar o golo que na verdade até surpreendia pouca gente na chegada ao invervalo. A República Democrática do Congo não estava a jogar por aí além, mas Portugal não merecia, de todo, estar a vencer.

Perante o empate e um ponto saboroso, a seleção africana decidiu voltar a baixar linhas - aquele espaço todo que havia desapareceu - e Portugal foi incapaz de quebrar as linhas de uma defesa organizada.

Francisco Conceição entrou ao intervalo e foi provavelmente o melhor da segunda parte, mas o que criou não chegou para o golo da vitória, até porque o desacerto foi grande, sobretudo de Cristiano Ronaldo, que falhou aquela que foi, provavelmente, a melhor oportunidade da segunda parte, ao minuto 69. O capitão podia e devia ter deixado a bola passar para Bruno Fernandes, que estava muito mais bem colocado, mas decidiu esticar-se todo para rematar muito mal.

Aparentemente desesperado para que algo resultasse, até porque a entrada de Rafael Leão não surtiu efeito, Roberto Martínez ainda juntou Gonçalo Ramos a Cristiano Ronaldo, mas de nada serviu a uma Seleção que deixa poucas sensações positivas na estreia.

No fim, um empate mais do que justo pelo que Portugal não fez e pelo que a República Democrática do Congo foi capaz de fazer. Praia a mais na preparação, também atormentada por tempestades, e futebol a menos, muito menos. É preciso mais.

O(s) pior(es)

Bernardo Silva à frente de toda a gente. No dia que viu confirmada a transferência para o Real Madrid, o jogador da Seleção foi uma autêntica pedra na engrenagem.

Não só não ajudou a fazer carburar o que se pensava ser um quadrado mágico como ainda perdeu uma ou outra bola que podiam ter dado bastante perigo para a baliza de Diogo Costa.

A grande dúvida desta Seleção é e vai continuar a ser a mesma: Cristiano Ronaldo deve ou não jogar? A partida desta quarta-feira mostrou que a discussão faz cada vez mais sentido.

O capitão português, que igualou Lionel Messi e se tornou no segundo jogador da história a jogar em seis campeonatos do mundo, fez um jogo totalmente discreto, mostrando uma total falta de entrosamento com os colegas.

Pior do que isso, quando foi solicitado não conseguiu responder, nomeadamente no tal minuto 69. Acabou o jogo em campo, o que faz alguma confusão, até porque no banco estava e continuou a estar João Félix.

Se preferirmos usar a estatística para exemplificar a exibição de Cristiano Ronaldo, o SofaScore ajuda-nos com o mapa de calor da primeira parte.

O melhor

É um pouco irónico, mas não deixa de ter uma ponta de verdade. O melhor para Portugal foi não ter apanhado um adversário mais astuto na saída para o ataque.

Caso a República Democrática do Congo tivesse outra capacidade, certamente Portugal teria tido ainda mais dificuldades. Basta pensar que a República Democrática do Congo enviou uma bola ao poste e Diogo Costa até fez a melhor defesa do jogo, após remate de Cédric Bakambu ao minuto 50.

Se olharmos a coisa pela positiva, um ponto é um ponto e foi assim que fizemos grande parte da nossa caminhada mais gloriosa, a do Euro 2016.

A surpresa do jogo

Outra vez a ironia, mas com uma ponta de verdade. É surpreendente que uma equipa profissional e que se diz poder ser candidata ao título mundial não saiba defender à zona.

O golo da República Democrática do Congo é uma lição de como não defender, com uma notória falta de um líder lá atrás.

Continue a ler esta notícia