O que é que Portugal quis fazer contra Espanha, alguém percebeu? Queria ter bola e por isso jogou com o meio-campo maravilha e ainda João Félix? Queria esticar o jogo e por isso entrou Pedro Neto?
O jogo já acabou, Espanha ganhou e continuamos sem perceber. Portugal abdicou totalmente de ser protagonista nestes oitavos de final, colocando-se à mercê de uma Espanha que, ao contrário da nossa Seleção, tem uma ideia e sabe o que quer quando entra em campo.
Podemos dizer que Vitinha não esteve no seu melhor, que Bruno Fernandes não é o mesmo jogador que foi eleito o melhor da Premier League ou até que Cristiano Ronaldo não encaixa, mas a culpa é mesmo do treinador, que nunca foi capaz de dar um sentido a esta Seleção.
E se as opções iniciais ficam difíceis de perceber, como é que se explica a alguém que Gonçalo Ramos não jogou um único minuto nesta partida, mesmo depois de ter sido o herói na frente contra a Croácia?
Não se explica, porque não há explicação, a menos que o avançado que se transferiu do Paris Saint-Germain para o AC Milan tenha sido deportado dos Estados Unidos. Caso contrário, é difícil de entender. Até o próprio tinha dito que trazia golos e só precisávamos de o chamar. Não chamámos.
E se o futebol não se ganha sem golos marcados, também não se perde sem golos sofridos, é verdade. Mas nem nesse ponto a Seleção esteve bem, com uma autêntica tremideira lá atrás sempre que Espanha aparecia.
Valeu Diogo Costa em várias ocasiões, valeram Rúben Dias e Renato Veiga - até mais este último -, valeu João Cancelo e valeu muito Nuno Mendes.
Pausa para elogiar o lateral-esquerdo de Portugal, o melhor do mundo, que foi um autêntico pesadelo para Lamine Yamal, não perdendo qualquer duelo. Para lá disso ainda foi capaz de construir e de ser um dos mais clarividentes a olhar para a frente. Até a melhor oportunidade da Seleção foi dele, num remate desviado que foi à trave. Acabou por sair lesionado ainda cedo na segunda parte e Espanha cresceu ainda mais com isso.
A derrota explica-se facilmente: Portugal foi igual a si próprio e andou perdido a tentar saber o que queria ser, sem nunca o saber. Vitinha, João Neves e Nuno Mendes jogam de olhos fechados porque sabem o que têm de fazer, aqui ninguém sabe, nem eles.
Para azar de todos, a Espanha também foi igual a si própria. Mesmo sem ser deslumbrante, a equipa de Luis de la Fuente respeitou-se e respeitou o futebol. Teve sempre mais bola, foi sempre mais objetiva e colocou sempre o jogo em prol dos seus melhores jogadores. Lamine Yamal não está no melhor momento, mas há Dani Olmo, há Pedri ou Mikel Oyarzabal - que até falhou um golo cantado.
La Roja foi quase sempre melhor, teve mais e melhores oportunidades e o prolongamento, a acontecer, embora não fosse totalmente surpreendente, era algo injusto. O golo acabou por ser decidido numa desatenção fatal de todo o coletivo, o que permitiu a Mikel Merino ficar na cara de Diogo Costa, que não conseguiu parar esta nova investida.
O que é que tudo isso quer dizer? Que há uma equipa, que há uma ideia e há uma junção em torno de um só objetivo, o de vencer. Em Portugal não existe essa ideia, não existe sequer esse compromisso, o que redunda em situações quase confrangedoras como Bruno Fernandes ter de andar a pressionar feito louco sem qualquer nexo.
É a última dança de Cristiano Ronaldo num Mundial, parece ser também a última dança de outros jogadores - Bruno Fernandes e Bernardo Silva foram eclipses totais - em campeonatos do mundo, e a Seleção desperdiça totalmente uma geração recheada de talento. Fica essa nota para um ciclo que grita por renovação, não apenas de pernas, mas de figuras e de egos.
A culpa é, acima de tudo, de Roberto Martínez, que não teve coragem ou audácia para fazer o que tinha feito contra a Croácia, e que tanto nos espantou. Aí não teve medo de meter Gonçalo Ramos ou de tirar Cristiano Ronaldo. Desta vez não fez uma coisa nem outra e o resultado está à vista.
O melhor
É difícil de dizer olhando para tudo, mas ficam as exibições - e todo o Mundial - de Diogo Costa e Nuno Mendes, de longe os melhores da Seleção neste torneio, os únicos a corresponderem nos cinco jogos. Ficam para um futuro próximo que terá sempre de passar por eles.
O pior
É difícil de escolher, mas tem de ser Roberto Martínez, que desperdiçou um grupo de jogadores como este porque nunca percebeu o que era preciso fazer.
A surpresa
Gonçalo Ramos deportado ou estrangeiro: como é que o avançado fica de fora de um jogo a eliminar e totalmente decisivo? Fica a questão, mas dificilmente haverá respostas na mais do que expectável conferência de imprensa redonda de Roberto Martínez.
Por sugestão de um colega nosso da redação da CNN Portugal, dedicamos ao selecionador, que até está de saída mais que anunciada, uma música de José Pinhal.