Mundial 2026: Espanha-Argentina, 1-0, a.p. (crónica) - TVI

Mundial 2026: Espanha-Argentina, 1-0, a.p. (crónica)

Que Viva España, Es La Mejor!

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Não foi um jogo de futebol, caro leitor. Foi uma guerra. Uma verdadeira batalha em Nova Jérsia por metros, centímetros do seco relvado do Metlife Stadium. Num país pouco habituado a futebol e com Donald Trump no camarote, o jogo serviu de bê-á-bá de estilos futebolísticos para novos adeptos.

De um lado, a corrente de Guardiolismo – passe e desmarcação, tecnicismo, pressão alta. Do outro, o Cholismo – bloco baixo, deixar o pé após o desarme e uma crença quase transcendental. O futebol pode ser jogado de várias formas e esta final explicou isso muito bem. A Espanha teve 12 remates à baliza, Argentina zero, em 120 minutos! Não foi a despedida que Lionel Messi imaginou em Mundiais, mas sai de cabeça levantada e com uma prestação individual histórica.

Esta Espanha 2.0 já não é bem de Tiki-Taka, mas sim de uma ideia de jogo mais segura, sólida defensivamente e quase de constrição, género anaconda, esmagando lentamente os adversários. Em oito jogos, sofreu apenas um golo contra a Bélgica. E a Argentina revelou-se demasiado curta.

A superdependência de Messi desta vez não surtiu efeito, pois este esteve sempre controlado pelos espanhóis. Se quisermos, houve também aqui outro choque - individualismo versus coletivismo. E o futebol é um desporto que envolve onze jogadores de cada lado (a não ser que alguns dos elementos seja expulso, tal como Enzo Fernández foi).

Como em todas as boas histórias, o 'patinho feio' tornou-se ganso, libertando-se da plumagem negra. Ferran Torres, que perdeu a titularidade e é constantemente diminuído pelos adeptos por causa da finalização, marcou o golo da vitória aos 106 minutos. Um remate a fazer lembrar Iniesta em 2010, aos 116m – também de primeira, num volley dentro da área. Espanha conquista, com mérito, a segunda estrela.

RECORDE AQUI O FILME DO JOGO.

45 minutos de calculismo, com entrada forçada de Otamendi

Na primeira parte, a expectativa em torno deste jogo foi gorada pelo calculismo das duas equipas, tal era a grandeza da ocasião. Espanha teve as melhores chances, mas sem incomodar de verdade o guardião Emiliano Martínez. Argentina não obrigou Simón a nenhuma defesa mas foi crescendo no jogo, reorganizando a pressão.

O relato dos primeiros 45 minutos parece cinzento, mas a verdade é que o jogo teve uma grande oportunidade de golo. O mais jovem em campo, Lamine Yamal, teve logo uma chance soberana para inscrever o seu nome na história. Em boa posição, na grande área, desequilibrou-se ligeiramente e atirou fraco. Martínez defendeu.

Tal como aos 40 minutos, quando Mikel Oyarzabal atirou de pé esquerdo com força, à entrada da área, mas muito à figura. E a Espanha ainda desenhou um movimento ainda melhor, desde Cubarsí até à pequena área, só que faltou o último toque. O problema espanhol era esse – a finalização. Porque as chances apareceram.

Já da Argentina não podíamos dizer o mesmo. Aquele estilo de jogo baseado no brilhantismo de Messi e muito coração não parecia suficiente para causar perigo à sólida Espanha. Uma reorganização na pressão, de 4-4-2 para 4-3-3, melhorou a prestação albiceleste, mas os avançados argentinos serviam para... defender.

E um dos defesas acabou lesionado. Lisandro Martínez esticou demais e Nicolás Otamendi, guerreiro ex-Benfica, foi chamado a jogo antes do intervalo. Pedia-se mais risco e mais acerto naquele que seria, expectavelmente, o duelo entre as duas melhores equipas do mundo. Scaloni não estava satisfeito e introduziu Paredes no jogo, tirando Nico, aumentando a dimensão física do jogo.

Enzo Fernández foi expulso e deixou equipa em inferioridade no prolongamento

E isso veio acontecer brevemente – com uma cotovelada sem bola do médio nas costas de Rodri, que acicatou os ânimos. Mas a Argentina perdeu pensamento com bola e começou a perder passes fáceis. Numa dessas perdidas, Baena teve tempo e espaço para fazer golo, mas permitiu uma defesa fácil a Dibu. A Espanha apertava. Contudo, ora por falta de sorte, ora por intervenção argentina, o resultado mantinha-se.

As mudanças a partir do banco não surtiam alterações na toada do jogo. Então, Enzo Fernández encarregou-se de mudar a partida... pela negativa. O ex-Benfica chegou tarde a um duelo com Cubarsi no meio-campo e viu o segundo amarelo sem necessidade. O central até deu um mortal. Incrível. E Paredes ainda arriscou a mesma sanção.

Essa decisão de Enzo, um dos salvadores na meia-final, atirou a Argentina para um prolongamento em inferioridade numérica. Mesmo que Messi tenha pedido expulsão de Cucurella por tapar brevemente a boca enquanto falava. A solicitação não foi aceite.

O sofrimento aumentou no tempo suplementar. A Espanha teve inúmeras oportunidades, por intermédio de Nico Williams, do talismã Mikel Merino, e até um golo anulado por um pisão do médio do Arsenal sobre Otamendi que, do alto dos seus 39 anos, foi pronto a atirar-se ao chão. A falta existiu e Vincic assinalou-a. De uma forma ou de outra, a garra argentina ia mantendo o resultado inalterado.

Ferran Torres não tinha marcado no Mundial... ainda!

Mas a segunda parte do prolongamento deitou tudo a perder para os sul-americanos. Um momento de desatenção deu a merecida vantagem aos espanhóis. Nico desviou de cabeça um cruzamento largo de Yamal e Ferran, o patinho feio, soltou uma festa de quase 50 milhões de pessoas. Um tiro potente, aproveitando a desatenção de Giuliano Simeone.

E, quem diria, a Argentina ainda esboçou uma reação final. Já nos descontos do prolongamento fez praticamente todos os seus remates da partida. Messi acertou na cara de Merino, Tagliafico teve a porta fechada na pequena área e Simeone desferiu um mau remate na zona de grande penalidade. O pulmão das Pampas não se apagou, mas faltava... inspiração. O apito final de Slavko Vincic chegou e a fúria vermelha soltou-se. Espanha é campeã do Mundo, acumulando com o troféu do Europeu, tal como em 2008 e 2010.

Lionel Messi, um dos melhores de sempre, acabou a chorar perante os adeptos argentinos. Não conseguiu o segundo Mundial, mas talvez fosse esse o seu destino - igualar Diego Armando Maradona em títulos. Quem foi melhor? Fica reservado à opinião subjetiva. 

Que Viva España!

A Figura: Ferran Torres

Só foi titular contra Cabo Verde, naquele que foi o primeiro e mais desinspirado jogo de Espanha neste Mundial. Com Yamal ainda a recuperar, jogou a extremo-direito. A partir daí, entrou como suplente em todos os jogos. Mal-amado, O avançado estreou-se a marcar com um tiraço de pé esquerdo. Emiliano Martínez, até aí a figura do jogo, foi ultrapassado. 

O Momento: golo de Ferran, 106m

Adormecidos por um 0-0 que persistia após 105 minutos, talvez muitos dos adeptos ainda estivessem a consultar o telemóvel. A segunda parte do prolongamento estava a recomeçar e a Espanha aproveitou uma rara desatenção argentina. Nico ganhou um cabeceamento na linha de fundo a Molina, Ferran estava no sítio certo (solto da marcação de Simeone) e atirou com certezas. Foi a festa de um povo.

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