Nariné Abgarian estreia-se em Portugal com obra vencedora do maior prémio literário russo - TVI

Nariné Abgarian estreia-se em Portugal com obra vencedora do maior prémio literário russo

  • Agência Lusa
  • AM
  • 21 fev, 06:42
Nariné Abgarian

“E três maçãs caíram do céu” passa-se em Maran, uma pequena aldeia montanhosa arménia, onde os aldeões apanham amoras e fazem baclava

“E três maçãs caíram do céu” é o primeiro livro da romancista arménia Nariné Abgarian a ser publicado em Portugal, uma estreia que traz um romance premiado e aclamado pela crítica, ambientado numa pequena aldeia das montanhas arménias.

Esta obra, que a escritora russa Ludmila Ulitskaya descreveu como “um bálsamo para a alma”, centra-se numa mulher que se convence de que vai morrer e deita-se na cama à espera”, uma história que mescla realidade e fábula, esbatendo os limites entre racional e onírico.

Editado pela Presença e com tradução direta do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra, “E três maçãs caíram do céu”, que chega às livrarias portuguesas na quarta-feira, foi publicado originalmente em 2015 e venceu o prémio mais importante da Rússia, o Prémio Literário Yasnaya Poliana, instituído pelo Museu Leo Tolstoi.

A história passa-se em Maran, uma pequena aldeia montanhosa arménia, onde os aldeões apanham amoras e fazem baclava (pastel doce folhado com pasta de nozes), e onde os sonhos, as pragas e os milagres são produtos da realidade, intocados pelo tempo.

Uma antiga linha telegráfica e um perigoso caminho de montanha que até as cabras têm dificuldade em seguir são a sua única ligação ao mundo exterior.

Neste lugar perdido vive Anatólia, tranquila, deitada na sua cama, à espera da morte, convicta de que só isso pode acontecer.

Antes de se deitar e vestir a roupa fúnebre preparada para o efeito, incluindo umas meias grossas de malha, porque “toda a vida teve frio nos pés”, Anatólia dedica-se a alguns preparativos finais, que incluem regar a horta e alimentar bem as galinhas, pois não sabe quanto tempo os vizinhos demorarão a dar com o seu corpo inanimado.

Depois de se deitar e folhear o álbum da família, perde-se em divagações da memória, que a transportam até à infância, dando a conhecer ao leitor a sua vida longa, em que não concretizou o sonho de ser mãe, viveu um casamento que em vez de amor lhe trouxe sofrimento, e passou anos a cuidar da biblioteca da aldeia, o centro da sua pouca felicidade.

Deitada na cama, convencida de que vai morrer, é surpreendida por um vizinho que entra de surpresa em sua casa, com uma proposta inesperada, que vai transformar a aldeia de Maran.

Quando foi publicado e, sobretudo, quando começou a ser traduzido, o romance começou a destacar-se entre a crítica literária, pela forma cativante como retrata a vida numa aldeia remota da região montanhosa da Arménia, oferecendo um olhar único sobre a cultura e a ruralidade daquela região.

Nariné Abgarian, que escreve em russo, foi elogiada pela prosa simultaneamente autêntica e poética e pela riqueza de caracterização dos ambientes e personagens, explorando as complexidades da vida humana.

Segundo o jornal The Herald, este é um romance “maravilhoso e encantador” que “celebra a palavra ‘comunidade’”, ao passo que a Publishers Weekly destaca as descrições do quotidiano “belissimamente buriladas”.

O jornal The Guardian, que em 2020 nomeou Nariné Abgaryan “uma das mais brilhantes autoras da Europa”, elogiou o romance pelas personagens complexas, a atmosfera envolvente, a visão cativante da vida numa aldeia remota da Arménia, a prosa poética e a autenticidade da narrativa.

Em entrevista a este jornal britânico, Nariné Abgaryan conta que o seu livro favorito, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, passado na aldeia fictícia isolada de Macondo, a deixou assombrada no final, quando todos os vestígios da existência de Macondo são apagados.

Em “E Três maçãs caíram do céu”, decidiu fazer o oposto: “Queria escrever uma história que terminasse com uma nota de esperança. A humanidade está a precisar urgentemente de esperança, de histórias simpáticas”.

“Vivemos uma vida tão acelerada, que mal conseguimos falar uns com os outros, perguntar como vão as coisas. O que me incomoda é a forma como os jovens estão a deixar os mais velhos para trás”, afirmou.

Nariné Abgaryan refere que os aldeões do seu romance passam os dias a “cultivar vinho que ninguém quer ou precisa”, e acrescenta que “a globalização tem benefícios, mas também efeitos secundários negativos, quando os costumes de uma região, as coisas que definem as pessoas, são retirados”.

Também galardoada pela sua obra infantil, que já teve adaptações cinematográficas, a autora viveu durante alguns anos em Moscovo, tendo regressado ao seu país natal em 2022, dividindo agora o tempo entre a Arménia e a Alemanha.

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