CEO da Nestlé Portugal. “Trabalhei em 29 países. Portugal era o país em que estava mais feliz” - TVI

CEO da Nestlé Portugal. “Trabalhei em 29 países. Portugal era o país em que estava mais feliz”

  • ECO - Parceiro CNN Portugal
  • Ana Marcela e Hugo Amaral
  • 8 mai 2023, 14:34
Anna Lenz CEO da Nestlé Portugal

Em quase 100 anos de história da multinacional no país, Anna Lenz é a primeira mulher a assumir a liderança máxima da Nestlé em Portugal.

Não se deve regressar onde fomos felizes. O adágio popular não se aplica a Anna Lenz. A gestora regressou no verão do ano passado a Portugal com um novo desafio em mãos: CEO da Nestlé Portugal. Em 100 anos de história da multinacional no país, é a primeira mulher a assumir a liderança máxima da companhia. Antes de sair, para assumir como CEO da Nespresso Europe, já tinha sido a primeira mulher a liderar a Nespresso em Portugal. É um regresso a um país onde foi (e é) feliz.

“Nunca quis sair, basicamente. Trabalhei em 29 países na minha carreira, algumas vezes meses, em outros anos. Portugal era, de facto, o país em que estava mais feliz, a nível pessoal, familiar, mas também profissional”, diz Anna Lenz.

Ann Lenz, diretora-geral da Nestlé Portugal, em entrevista ao ECO/Pessoas. Foto Hugo Amaral / Eco

“É um país onde os valores e a cultura me agradam muito. Encontrei pessoas super qualificadas para trabalhar, com uma ética de trabalho muito, muito elevada e com um valor que me toca, a lealdade”, justifica. Por isso, mal chegou à Suíça disse logo ao então diretor de RH da Zona Europa, por coincidência português, que um dia gostava de regressar a Portugal.

Aconteceu aos 43 anos e logo para a liderança máxima da multinacional, que no mercado português, só no ano passado — parte dele já sob a sua liderança — gerou vendas de 677 milhões de euros, mais 52 milhões de euros do que no ano anterior, e dá trabalho direto a mais de 2.400 pessoas, de 52 nacionalidades.

Casada, mãe de três filhos, a sua nomeação gerou uma onda de mensagens “super emocionais” de mulheres que viram em si um sinal de que é possível uma carreira com projeção e família. Haja essa oportunidade nas empresas.

"Sabemos que (durante a pandemia) o peso de cuidar das crianças, principalmente, ficou muitas vezes com as mulheres, mas não acho que tenha sido o elemento central. Foi mais o glass ceiling”, diz, comentando a onda de reações.

A Nestlé em Portugal é um nível de paixão que não sinto noutros países em que trabalhei e é vista também, de alguma forma, como uma jóia dentro do grupo.

“Na minha função anterior — CEO da Nespresso Europe — era responsável por selecionar os chefes dos países da Nespresso e onde vi que havia uma grande perda de talento feminino era quando se falava de mobilidade. Muitas vezes, quando se chega a um determinado nível de uma carreira, é ainda socialmente muito mais aceite um homem mudar de país e a esposa deixar de trabalhar, cuidar das crianças e seguir o marido, do que o contrário”, comenta.

“O meu estilo de liderança não se define, principalmente, por ser ou não mulher, mas a mensagem que isso traz, depois de 100 anos, ser a primeira mulher na Nestlé Portugal — na Nespresso a empresa na época tinha apenas 15 anos — é importante”, admite.

Na filial portuguesa da companhia, a paridade de género é muito equilibrada — “temos 51% de mulheres, e nos cargos cimeiros até um pouco mais, 53%” – e, em tantas anos de ligação, diz nunca ter sentido algum tipo de discriminação. “Nos 17 anos que estou na Nestlé nunca fui discriminada. Lembro-me que uma vez o meu chefe me propôs uma promoção e disse-lhe ‘Olha, estou grávida. Ele respondeu, e aí? O que isso muda?’. Fiquei positivamente surpreendida e, se calhar, estava um pouco naïf em pensar que isso já era a realidade em muitos lugares e para muitas empresas. Mas, de facto, não é assim.”

O meu estilo de liderança não se define, principalmente, por ser ou não mulher, mas a mensagem que isso traz, depois de 100 anos, ser a primeira mulher na Nestlé Portugal — na Nespresso a empresa na época tinha apenas 15 anos — é importante.

Uma carreira internacional, na gestão de topo de empresas, com as exigências de uma família com filhos menores, nem sempre é uma viagem suave. "Tem momentos que não são fáceis. O preço de ter uma carreira e família é que tenho, sobretudo, a carreira e a família. Muitas amigas dizem-me às vezes que há muito que não falamos ou saímos juntas”, conta.

“Mas, nesta fase, o tempo em que não estou a trabalhar é muito dedicado aos filhos.” Em Portugal, os planos são em família, com muitas idas à praia “sempre que o tempo o permite”, idas ao zoológico e às várias atrações. “O fim de semana é sempre com os filhos.”

Ann Lenz, diretora-geral da Nestlé Portugal, em entrevista ao ECO/Pessoas. Foto Hugo Amaral / Eco

Guarda ainda tempo para ir ao ginásio e aposta em séries – “tenho três crianças, à noite, ver um filme é um desafio” – nas horas vagas. E, para se manter informada, não perde uma consulta diária à aplicação do Tages- Anzeiger, jornal de Zurique.

E depois de Portugal, qual o desafio? “Tenho um contrato de expatriação que tem um prazo de vencimento. Espero que dure o mais tempo possível, já que da primeira vez fiquei apenas dois anos e meio, que é muito pouco para um cargo. A Nestlé em Portugal é um nível de paixão que não sinto noutros países em que trabalhei e é vista também, de alguma forma, como uma joia dentro do grupo.”

As escolhas de… Anna Lenz

Série: “Itaewon Class”, de Kim Seong-yoon
“Tenho três crianças e, à noite, ver um filme é um desafio, prefiro ver séries, em que cada noite vejo um pouco. Recentemente, o que vi e gostei muito foi Itaewon Class, uma série coreana. É sobre a vida de um jovem, com uma vida desafiadora, que segue os seus sonhos. A Ásia é um dos poucos lugares do mundo onde nunca trabalhei [trabalhou em cerca de 30 países]. Foi interessante porque, por um lado, apresentou-me uma cultura que não conhecia, e, por outro lado, impressionou-me por não ser tão diferente do que pensava. Pelo meio, a série tem uma história de amor que se desenrola tal como aconteceria nos países que me são mais familiares. Encantou-me muito.”

Livro: “A Amiga Genial”, “História do Novo Nome”, “História de Quem Vai e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida”, de Helena Ferrante (Relógio d’Água)
“Estou a ler uma tetralogia de Helena Ferrante sobre uma amizade de duas meninas que crescem em Nápoles nos anos 50, numa zona muito pobre da cidade. Uma delas consegue estudar e sair deste mundo muito pobre, corrupto e vai viver para Milão, para Florença, num mundo mais académico. E a outra continua em Nápoles. Acompanhamos a vida das duas mulheres, uma que se mantém no mesmo lugar e outra que muda, mas que não pertence (ao novo lugar). Ainda não sei como termina — estou a ler o quarto tomo — mas é super fascinante.”

App: Tages-Anzeiger
“Embora fale português, ler notícias para mim é mais fácil em alemão. Muitas vezes são coisas técnicas e, de alguma forma, mantém-me ligada a casa. A que uso mais é a Tages-Anzeiger. O jornal que toda a gente lê em Zurique, que me dá conta das notícias da minha cidade. Antes de ir para o escritório, e à noite, quando vou dormir, leio para saber o que está a acontecer.”

Fotografia Hugo Amaral

… e as do Eco

Estas são as três sugestões, de um podcast, uma aplicação e um livro, que temos para si.

Livro: “Organizações sem Fins Lucrativos e Sector Público”, Peter F. Drucker (Almedina)
Peter F. Drucker (1909 – 2005) escreve sobre os méritos de uma gestão adequada em organizações sem fins lucrativos e no setor público. Os ensaios podem servir de aconselhamento, orientação para o desenvolvimento de estratégias de gestão deste tipo de organizações.

“Gestão de Pessoas no Lazer, Animação Turística & Eventos”, de Anabela Monteiro e Carla Cachola, com a coordenação de Vasco Ribeiro (Editora d’Ideias)
Abordando as várias fases do planeamento e da gestão de pessoas no lazer, na animação turística e nos eventos, com destaque para o perfil de cada profissional e das respetivas competências técnicas e relacionais, o livro procura, de uma forma prática, transmitir conhecimentos e conceitos inovadores, criativos, sustentáveis e responsáveis ao talento que trabalha nestes setores.

App: Fabulous
Procrastinar vai ser uma palavra menos presente na sua vida. Esta app promete ajudar a criar hábitos para que possa alcançar os objetivos a que se propõe, quer seja dormir melhor, melhorar a sua produtividade ou incluir exercício físico na sua rotina diária.

Trello
Se a sua agenda em papel se transformou num rabisco incompreensível, se calhar é hora de fazer um upgrade. O Trello permite fazer o registo dos assuntos em mãos, bem como partilhar tarefas com os elementos da sua equipa, definindo alertas para quando os prazos de entrega se aproximam.

Podcast: Being Boss
Cofundado em 2005 por Kathleen Shannon e Emily Thompson, desde 2020 que tem sido a CEO da Almanac Supply Co., marca de retalho que produz e faz curadoria de produtos que ajudam as pessoas a religar-se com a natureza, a conduzir Being Boss, podcast com mais de 11 milhões de downloads. Emily Thompson fala sobre o que é necessário para lançar, fazer crescer e gerir um negócio.

The Diversity Gap
Bethaney Wilkinson, autora de “The Diversity Gap: Where Good Intentions Meet True Cultural Change” (HarperCollins), explora o fosso entre as boas intenções em torno da diversidade e o impacto dessas intenções, num conjunto de conversas que nos desafiam a pensar sobre a diversidade nas organizações, apontando boas práticas para criar o ambiente cultural que ambiciona nas empresas.

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