À caça de nómadas digitais? Cascais, Odivelas, Porto Santo já lançaram os seus trunfos - TVI

À caça de nómadas digitais? Cascais, Odivelas, Porto Santo já lançaram os seus trunfos

  • ECO - Parceiro CNN Portugal
  • Joana Nabais Ferreira
  • 2 mai 2023, 09:47
Numa nota informativa sobre ‘nómadas digitais’ publicada em março de 2021 a sociedade de advogados PLMJ lembra que o Orçamento do Estado para 2021 (OE2021) introduziu um novo conceito de estabelecimento estável. (Pexels)

Odivelas criou uma agência com um espaço para nómadas digitais. Porto Santo organiza um festival. Cascais estima acolher entre 1.500 a 3.000 nómadas digitais. Há uma "falha" a colmatar: o alojamento

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Desde o arranque da nova tipologia de vistos criada pelo Governo, em finais de outubro do ano passado, já foram emitidos cerca de 550 vistos para nómadas digitais trabalharem remotamente a partir de Portugal. Os municípios estão de olho nestes profissionais, e já começaram a ‘lutar’ pela sua atenção. Querem acolhê-los durante a sua estada em território nacional e, com isso, dinamizar a economia local. Odivelas criou uma agência que tem um espaço destinado a receber nómadas digitais. Porto Santo já organiza um festival a pensar neste target: o “Porto Santo NomadFest23”. E Cascais, que lançou a campanha “It Works for You”, estima receber entre 1.500 a 3.000 nómadas digitais este ano. Mas ainda há uma “falha” a colmatar: o alojamento.

Apesar de salientar haver ainda pouca informação estatística sobre o número de nómadas digitais que existem pelo mundo, bem como os que Cascais recebe, Bernardo Corrêa de Barros diz que este tipo de trabalhadores surge, atualmente, em todas “as formas e feitios”.

“Se é verdade que alguns precisam de vistos de permanência, outros, enquanto cidadãos da União Europeia e de países do espaço Schengen, não necessitam de qualquer autorização para residir no país. Uns utilizam os espaços de cowork para trabalhar, outros optam por trabalhar nos seus apartamentos, espaços públicos, empresas ou mesmo cafés e esplanadas”, afirma o presidente do Turismo de Cascais.

Tendo apenas por base os nómadas digitais que utilizam os espaços de cowork da vila de Cascais, o Turismo de Cascais estima receber entre 1.500 a 3.000 profissionais nestas condições este ano. Para já, os nómadas digitais que passam por Cascais são, essencialmente, provenientes do Reino Unido, Alemanha, Brasil e Estados Unidos.

Dados que coincidem, em larga medida, com os apresentados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). Os cidadãos dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Brasil lideram a lista de nacionalidades com o visto de estada temporária e de autorização de residência para trabalhadores remotos, disse o MNE ao ECO Trabalho há cerca de um mês. Importa, no entanto, recordar que o novo visto — que entrou em vigor com as alterações à Lei de Estrangeiros — é necessário apenas para cidadãos fora da União Europeia e do Espaço Económico Europeu viverem e trabalharem para fora a partir de Portugal.

Se é verdade que alguns precisam de vistos de permanência, outros, enquanto cidadãos da União Europeia e de países do espaço Schengen, não necessitam de qualquer autorização para residir no país. Uns utilizam os espaços de cowork para trabalhar, outros optam por trabalhar nos seus apartamentos, espaços públicos, empresas ou mesmo cafés e esplanadas", Bernardo Corrêa de Barros, Presidente do Turismo de Cascais.

 “Dos dados que dispomos, temos 50% trabalhadores remotos do sexo masculino e 50% do sexo feminino, numa faixa etária que varia entre os 25 e os 55 anos. Cerca de 80% são donos de empresas, CEO ou altos quadros e cerca de 20% são quadros médios. Os trabalhadores remotos de Cascais são indivíduos com elevado poder de compra, o que vai ao encontro da estratégia definida pelo município para a captação deste segmento”, detalha ainda Bernardo Corrêa.

Sol, praia, localização e espaços de cowork. “It Works for You”?

O Turismo de Cascais lançou no ano passado a campanha “It Works for You”, criada em parceria com a DNA Cascais, e que foi premiada, inclusive, nos “Cannes Corporate Media & TV Awards” com um Troféu Golfinho de Ouro, na categoria Vídeos Promocionais de Turismo: Destinos – Cidades.

Combinando trabalho remoto com lazer, a campanha “convida todos os nómadas digitais a procurarem um destino fora de portas e desfrutarem de condições ‘mágicas’ para o trabalho e de um estilo de vida que equilibra o campo profissional com um sentimento de férias constante”, explica o responsável.

O clima, as praias, os espaços de cowork, o wi-fi, a agenda cultural, as infraestruturas e a localização — a cerca de 25 minutos de Lisboa e do aeroporto — são as características que, reunidas, “resultam no estilo de vida cascalense, muito especial e irresistível, e o convite perfeito para o trabalho remoto”.

“Costumo dizer que em Cascais não temos as melhores praias do mundo, mas são excelentes. Talvez não seja a melhor gastronomia do mundo, mas tem uma diversidade e qualidade extraordinária. Não temos a melhor oferta cultural, mas temos 18 museus de elevada qualidade. Talvez não sejamos os melhores do mundo em nada, mas a diversidade concentrada faz de Cascais um dos melhores lugares no mundo para se viver, um dia, uma semana, ou a vida inteira”, diz Bernardo Corrêa de Barros.

A Madeira, onde já existe uma grande comunidade de nómadas digitais, também pensa que o arquipélago é o sítio ideal para os nómadas digitais. Em Porto Santo, decorre, entre 28 de maio a 4 de junho, o “Porto Santo Nomad Fest23”, um festival pensado para nómadas digitais e trabalhadores remotos que desejam combinar trabalho e diversão. Aulas de ioga, convívios, workshops, experiências culturais eventos de networking fazem parte do programa e têm como objetivo promover a conexão com outros nómadas digitais, enquanto desfrutam do melhor da ilha de Porto Santo.

“O nosso festival não é apenas sobre a beleza natural deslumbrante de Porto Santo, é também sobre conectar com outras pessoas com interesses semelhantes e construir uma comunidade forte”, lê-se na página oficial do evento.

O evento é aberto a qualquer nómada digital ou trabalhador remoto, independentemente da nacionalidade, origem ou profissão. O alojamento será no hotel Vila Baleira, que oferece acesso direto à praia, piscina coberta e descoberta, campos de vólei de praia, spa e internet.

Odivelas quer receber nómadas digitais com nova agência

A Câmara de Odivelas também está de olho nos nómadas digitais. Mas a proposta que apresenta é diferente. A cidade do distrito de Lisboa criou a AGINVEST, uma agência de investimento e desenvolvimento económico que pretende atrair investimento e talento, dinamizando o tecido empresarial local.

Instalada na Quinta do Espírito Santo, a AGINVEST tem um espaço para receber nómadas digitais, freelancers e outros empreendedores que trabalhem remotamente, sendo que o objetivo é ter espaços destes em todas as freguesias do concelho, ainda sem datas previstas.

Mas não só. A promoção de benefícios fiscais para empresas e uma incubadora de negócios estão também entre as principais iniciativas propostas. Para promover a economia deste concelho do distrito de Lisboa, “uma das prioridades passará pela promoção de incentivos para o estabelecimento de novos negócios e a criação de mais postos de trabalho”, detalha a autarquia, citada pela Lusa.

Questionada sobre quais serão esses incentivos, a câmara acrescentou que se pretende “estabelecer um quadro de isenções e redução de taxas municipais”, sem detalhar, no entanto, quais. Contudo, garantiu que os negócios ficarão isentos do pagamento da Derrama (imposto municipal).

A AGINVEST atuará ainda na capacitação empresarial e no apoio às relações institucionais e ao empreendedorismo. A autarquia quer, inclusive, apoiar a criação de empresas, através da incubadora Start In Odivelas.

Neste âmbito, estão abrangidas várias valências: “a elaboração do plano de negócios, a identificação das fontes de financiamento e o apoio na elaboração de dossiês de candidatura às mesmas, e a formação, além da adesão a um dos regimes de incubação: físico, virtual e escritório temporário”.

A agência planeia ainda organizar formações e sessões de trabalho, bem como divulgar informação relativa a processos de licenciamento ou fundos nacionais e europeus.

Dentro do país, a entidade pretende estabelecer parcerias com universidades, agências nacionais e associações empresariais, enquanto ao nível da internacionalização de Odivelas quer trabalhar com o corpo diplomático e câmaras de comércio.

Alojamento para nómadas digitais. Uma “falha” por colmatar

Para o presidente da Câmara Municipal de Odivelas, Hugo Martins (PS), a entidade reforça o compromisso do executivo municipal de “projetar definitivamente Odivelas como um território capaz de atrair e reter novas ideias, talento, emprego e oportunidades de negócio”.

Em ambos os municípios, pretende-se que o investimento na atração de nómadas digitais — que se diferenciam do turista de verão essencialmente por não terem a limitação temporal (com viagens que tipicamente variam entre apenas alguns dias a duas semanas) e ficarem, em média, entre um a três meses no destino — resulte num “boost” da atividade turística, dinamizando e diversificando o setor.

“O nómada digital vive o lugar, tal como nós o vivemos. Mas, tal como o turista de curta duração, quer conhecer o lugar, viver experiências e momentos autênticos e inesquecíveis. Neste sentido, é também consumidor de produtos e serviços turísticos da região – hotéis / alojamento local, empresas de animação turística, serviços de restauração, rent-a-cars, etc. Estando no destino por um período mais prolongado tem ainda outras necessidades, sejam serviços de saúde, de desporto e bem-estar (ginásios, piscinas), consultoria, advogados, serviços de coworks, entre outros”, refere o presidente do Turismo de Cascais.

“É de notar que este visitante de longa/média duração abre as portas ao desenvolvimento de novas áreas de negócio que ofereçam resposta às suas necessidades, como sejam os espaços de cowork ou formatação de soluções de alojamento pensadas para estadias de média duração, entre outras”, continua.

Temos neste momento uma ‘falha’ relativamente à oferta de alojamento para este segmento. Há definitivamente espaço para a criação e formatação de um produto específico no que se refere ao alojamento para nómadas digitais", Bernardo Corrêa de Barros, Presidente do Turismo de Cascais.

Neste momento, Cascais conta com dez espaços de cowork. Um número que deixa o responsável satisfeito. Contudo, no que toca às soluções ao nível do alojamento, considera que há espaço para crescer. Aliás, admite mesmo que há uma “falha”.

“Temos neste momento uma ‘falha’ relativamente à oferta de alojamento para este segmento. Há definitivamente espaço para a criação e formatação de um produto específico no que se refere ao alojamento para nómadas digitais. (…) Há, sem dúvida, uma oportunidade para o desenvolvimento de novos conceitos e ofertas que vão ao encontro das necessidades deste segmento, que procura soluções de alojamento financeiramente sustentáveis. O mercado de arrendamento de longa duração, tipicamente com contratos mínimos de um ano, não dá resposta às necessidades dos nómadas digitais. Por seu lado, a diária de um hotel ou apartamento de curta duração tem sido a solução.”

“Sabemos que tal está a ser já equacionado por alguns investidores, e será algo que surgirá no médio prazo”, conclui Bernardo Corrêa de Barros.

O Governo, por sua vez, publicou no início de março uma portaria em Diário da República que prevê a atribuição de um apoio para os trabalhadores remotos que escolham instalar-se no interior do país. Uma medida que abrange os nómadas digitais. Quem estiver em Portugal com visto de estada temporária ou visto de residência e decida mudar-se para o interior do país passa a beneficiar do apoio “Emprego Interior Mais”, desde que trabalhe remotamente, independentemente de a entidade empregadora ser portuguesa ou estrangeira. O apoio estende-se a contratos de trabalho já existentes.

O objetivo desta medida é “promover uma maior coesão territorial, um desenvolvimento mais harmonioso e corrigir as assimetrias de oportunidades entre o litoral e o interior, estimulando as mudanças de pessoas para essas regiões”, num momento em que “Portugal é muito procurado por nómadas digitais ou, em geral, por pessoas que estão a trabalhar à distância e que podem também fazê-lo a partir do interior do país”, explicou o secretário de Estado do Trabalho, Miguel Fontes, na altura.

O tema da habitação tem sido um tópico quente em Portugal. A subida dos preços das casas a escalada dos juros está a condicionar vida financeira de muitas famílias. Já os jovens enfrentam cada vez maiores dificuldades para encontrar habitação a preços que consigam suportar. No ano passado, o preço mediano da habitação vendida em Portugal foi de 1.484 euros por metro quadrado, subindo 14,4% face a 2021, com uma subida de 2,6% no último trimestre no ano face ao terceiro trimestre, revelam dados divulgados pelo INE.

Um problema que levou já levou o Governo a anunciar o pacote legislativo Mais Habitação, onde constam propostas para o alojamento local, para o arrendamento coercivo, para o limite ao aumento das rendas ou que criam benefícios fiscais.

DNA quer nómadas digitais a repovoar o interior

Precisamente com o objetivo de repovoar o interior, e criar projetos descentralizados, a Digital Nomad Association (DNA) Portugal, cocriada por Gonçalo Hall, o impulsionador do projeto Digital Nomad Village Madeira Islands, pretende replicar a vila para nómadas digitais que começou no município de Ponta do Sol, no Funchal, em Portugal continental. O objetivo é criar, pelo menos, dez projetos descentralizados. Manteigas, Gouveia, Oliveira do Hospital, Mealhada, Cinfães e Peniche já confirmaram o interesse.

“Criamos a DNA para desenvolver dez projetos como o da Madeira em Portugal continental. Projetos descentralizados (…) A chave do sucesso de Portugal neste mercado e neste visto tem, exatamente, a ver com o facto de conseguirmos criar várias comunidades em todo o país e não deixar que este impacto positivo fique só em Lisboa, onde, devido ao excesso de pessoas, de população e de turistas, poderá até ter um impacto negativo”, admite o presidente da DNA Portugal ao ECO Trabalho.

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