O nu frontal está de volta ao cinema. Mas está diferente: "Talvez estejamos a assistir à proliferação da nudez não sexy" - TVI

O nu frontal está de volta ao cinema. Mas está diferente: "Talvez estejamos a assistir à proliferação da nudez não sexy"

  • CNN Portugal
  • 11 ago, 22:07
A atriz Scarlett Johansson em "Asteroid City" (DR)

Passado o impacto imediato do movimento #MeToo, parece que a nudez frontal está a voltar aos filmes mainstream. Mas com algumas diferenças: nem toda a nudez é sexual e qualquer cena que revele o corpo tem de ser uma escolha da atriz

Jennifer Lawrence em "Tudo na Boa", Stephanie Hsu em "Joy Ride", Scarlett Joahnsson em "Asteroid City": este ano já vimos pelo menos três nus frontais no cinema. Depois de um período de maior cuidado (e de mais roupa), relacionado sem dúvida com o impacto do movimento #MeToo em Hollywood, porque é que a nudez explícita está de volta ao grande ecrã? "Os filmes estão a tentar trazer de volta a alegria e a diversão depois dos anos da covid", diz a crítica Kristen Lopez, editora de filmes do Wrap, ao jornal The Guardian. "Acho que é uma resposta aos últimos anos de tristeza e trauma. Qual é a melhor maneira de fazer isso? Trazer de volta a frivolidade e a nudez."

"Ao longo da história, tivemos figuras femininas que foram profundamente sexualizadas, objetificadas e transformadas em acessórios para os astros masculinos", explica Daisy Richards, professora de media e comunicação na Nottingham Trent University. "Portanto, ter esses filmes em que as artistas estão nuas... mas não é para ser sexy, isso ultrapassa os limites do corpo feminino. Quanto mais dessexualizamos os corpos femininos, mais os vemos como uma ferramenta, uma coisa que temos e podemos usar para vários propósitos – não apenas como objetos."

O movimento #MeToo teve um grande impacto na quantidade de nudez e sexo que vemos (ou não vemos) no cinema, diz Kristy Guevara-Flanagan, realizadora de "Body Parts", um documentário de 2022 sobre como o corpo feminino tem sido tratados no cinema. Embora agora existam regras mais rígidas sobre a forma como as cenas de nudez e sexo são filmadas, com o surgimento de coordenadores de intimidade e cláusulas de nudez mais rígidas nos contratos dos atores, muitos realizadores têm evitado essas cenas.

"As pessoas afastaram-se dos filmes explícitos logo após o #MeToo por medo de serem acusadas de assédio", diz Kristy Guevara-Flanagan. A pandemia complicou ainda mais as coisas, com atores fisicamente impossibilitados de se beijar ou filmar muito perto uns dos outros. "O pêndulo caiu para um extremo e agora está a voltar para o centro."

Evitar cenas de sexo (e manter a nudez) torna mais fácil aos estúdios escapar à classificação R, segundo a qual crianças menores de 17 anos só podem assistir acompanhadas de um dos pais ou por um responsável, o que possibilita ao filme chegar a um público muito mais vasto. "Asteroid City" foi inicialmente classificado como R pela Motion Picture Association (MPA) pela "breve nudez gráfica" de Johansson, mas foi rebaixado para PG-13 após o protesto do realizador, Wes Anderson. Não se sabe por que motivo a MPA cedeu, mas especula-se que seja porque a nudez neste caso não é sexual. A classificação R, conforme estabelecido nas diretrizes da organização, é especificamente para nudez “orientada sexualmente”.

Scarlett Johansson e Jennifer Lawrence já tinham feitos cenas de nudez antes. Mas como duas das estrelas femininas mais lucrativas de Hollywood, certamente não precisam da nudez para promover as suas carreiras. Portanto, quando o fazem é porque sentem que a cena faz sentido. Lawrence contou uma vez como as suas cenas de nudez foram “empoderadoras” no thriller de espionagem "Red Sparrow", de 2018, depois de em 2014 terem sido divulgadas fotos suas nua, num escândalo de hacking de celebridades. Para a  cena de luta nua em "No Hard Feelings", a atriz nem pensou duas vezes, disse à Variety. Poder decidir quando e como se quer mostrar o corpo faz toda a diferença. Qualquer nudez tem de ser uma escolha da atriz (mesmo que use um duplo para alguma parte do corpo).

"Há uma tentativa das mulheres de reivindicar a propriedade dos seus corpos", diz Lopez. "Mas, ao mesmo tempo, ainda não vemos nudez em igual medida nos homens", lembra. Lopez gostaria que houvesse "igualdade de oportunidade de nudez", o que está longe de acontecer. "O maior tabu é a nudez frontal masculina", diz Guevara-Flanagan. A nudez frontal completa masculina é geralmente reservada ao chamado "cinema de arte" e às comédias picantes (por exemplos, nos filmes da "Ressaca"). Um estudo de 2019 analisou os 100 filmes com maior receita de bilheteira no ano anterior nos EUA e concluiu que 27,3% das personagens femininas tiravam a roupa, em comparação com 8,5% dos homens. 

Masculina ou feminina, a nudez não é inerentemente sexual, sublinha a jornalista Ann Lee. Mostrados no grande ecrã, os corpos nus podem representar muitas coisas ou nada - apenas uma parte normal das nossas vidas quotidianas. "A nudez pode ser engraçada, pode ser sexy, pode ser dramática", diz Lopez. "Talvez estejamos a assistir à proliferação da nudez não sexy – corpos que são apenas corpos. Na verdade, acho que isso pode eliminar o estigma. Se os corpos são mostrados apenas como ‘aqui estão eles’ deixam de ser assim tão interessantes." E de provocar tantas reações.

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