A primeira testemunha ouvida no julgamento do caso Odair relatou ter assistido aos disparos da sua janela, na Cova da Moura, na Amadora. Nuno Batista, de 43 anos, estafeta, afirmou que estava em casa quando ouviu um estrondo e decidiu ver o que se passava na rua.
"Fui à janela ver o que tinha acontecido. O que eu vi foi o Odair no meio dos dois polícias", afirmou em tribunal.
Segundo o seu relato, quando ouviu dois disparos Odair encontrava-se entre dois agentes da PSP, sendo que o homem caiu após o segundo tiro.
"Tudo se passou mesmo em frente à minha janela. Ouvi o disparo, mas não sei contra o que foi. No segundo disparo o Odair caiu. Foram muitos disparos seguidos", acrescentou.
A testemunha - que diz que não conhecia nem o agente, nem Odair - garantiu que Odair não tinha qualquer objeto nas mãos e que levantou os braços depois do primeiro disparo, dizendo que não queria ser algemado.
"Nunca vi o Odair com nenhum objeto nas mãos. Tenho a certeza, vi tudo da minha janela. Entre o primeiro e o segundo disparo o Odair não tinha nada nas mãos".
Nuno Batista afirmou ainda nunca ter visto Odair a agir de forma agressiva e descreveu que os polícias tentavam agarrá-lo momentos antes dos tiros.
"O Odair estava perto dos agentes e os polícias estavam a tentar agarrá-lo. O Odair disse: 'Não me algemem'", contou.
Segundo Nuno Batista, depois de Odair cair no chão, chegou o reforço policial. Só depois chegou o INEM.
Durante a interpelação da testemunha, o advogado do PSP, Ricardo Serrano Vieira, acusa Nuno Batista de declarações contraditórias e pede-lhe que visualize o vídeo.
"A testemunha disse que viu o Odair com mãos no ar, mas no vídeo não se vê Odair com mãos no ar", afirma o advogado.
"Não vi a vítima com nenhum objeto nas mãos"
A segunda testemunha a ser ouvida é Stephanie Silva, 39 anos, doméstica e residente na Cova da Moura. A mulher diz que não conhece nem a vítima nem o polícia e conta que "estava deitada" quando ouviu um "carro bater".
"Ouvi uma senhora a chorar. Abri o estores do meu quarto e pensei que tinha sido alguém atropelado. Depois vi um senhor com dois agentes. Estavam a tentar algemar e ele recusou", conta.
Stephanie diz ainda ter ouvido "dois disparos e o senhor caiu" e garante: "Não vi a vítima com nenhum objeto nas mãos".
"Acho que ele tinha duas bolsas. Um dos agentes tirou uma bolsa quando ele estava no chão. As bolsas estavam na cintura", acrescentou.
A terceira testemunha a ser ouvida é Marco Brito, de 26 anos, também residente na Cova da Moura e que não conhece nem a vítima nem o polícia.
"Ouvi um barulho. Um estrondo com carros. Fui à janela e vi tudo pelos estores: vi o Odair tentar empurrar os agentes e foi quando o agente puxou da arma e disparou", afirmou.
Odair Moniz morreu na Cova da Moura, vítima de dois tiros disparados pelo agente da PSP a 21 de outubro de 2024. Segundo a acusação, o cabo-verdiano de 43 anos residente no Bairro do Zambujal tentou fugir da PSP e resistir à detenção, mas não se verificou qualquer ameaça com recurso a arma branca, contrariando o comunicado oficial divulgado pela Direção Nacional da PSP, segundo o qual o homem teria “resistido à detenção” e tentado agredir os agentes “com recurso a arma branca”.
O agente da PSP, que começou a carreira em 2022, está acusado do crime de homicídio e encontra-se, neste momento, suspenso de funções, por determinação da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI).