Alguns cientistas da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), tiveram de recorrer à plataforma de subscrição OnlyFans, conhecida pelos seus conteúdos ousados, para salvar um projeto de investigação com décadas sobre marmotas, afetado pelos cortes do Governo do presidente Donald Trump.
Desde o final de maio, a equipa do biólogo Daniel Blumstein procura subscritores para a conta ‘OnlyMarms’, onde é possível observar em detalhe a vida de marmotas-de-barriga-amarela das Montanhas Rochosas do Colorado, como Jamba Juice e Egg.
A conta, promovida como “conteúdo de marmotas sem censura”, procura manter de pé um projeto de investigação que já soma 64 anos e que é o segundo estudo mais longo do mundo sobre mamíferos identificados individualmente, depois de a Fundação Nacional de Ciência (NSF) ter retirado o financiamento.
“Quando se tem uma investigação na sua sexta década, isso é realmente excecional, é muito produtivo e vale a pena dar-lhe continuidade”, afirmou Blumstein à EFE.
Os investigadores, que acompanham o comportamento e as linhagens das marmotas para compreender, por exemplo, como os mamíferos reagem às alterações ambientais, tentaram por três vezes renovar o financiamento junto da NSF, mas o comité de avaliação rejeitou os pedidos, argumentando que o estudo, realizado em colaboração com a organização sem fins lucrativos Rocky Mountain Biological Laboratory, tinha dados em excesso.
“Parece-me algo absurdo, tratando-se de um programa do Governo norte-americano criado especificamente para financiar estudos de longo prazo”, considera o cientista.
A fotografia de perfil que não coincide
A ideia de utilizar o OnlyFans surgiu a Blumstein quando estava sentado numa pradaria do Colorado, à espera que as marmotas aparecessem, e se lembrou da série ‘Margo’s Got Money Troubles’, na qual uma mãe recém-formada recorre à plataforma para pagar as contas.
Com o lema de que “as marmotas também precisam de dinheiro”, o cientista encontrou grande apoio na sua equipa para desenvolver a proposta. Emily Renkey, estudante do laboratório, deu o nome à conta.
No entanto, Blumstein deparou-se com um obstáculo quando teve de carregar uma fotografia da sua carta de condução para criar a conta no OnlyFans e verificar que era maior de idade. A plataforma notificou-o de que o rosto na fotografia da carta de condução não correspondia à imagem de perfil nem aos vídeos publicados.
“Falhámos porque eu não me pareço com uma marmota”, conta entre risos.
Um e-mail conseguiu convencer os administradores do OnlyFans do objetivo da conta como uma “forma inovadora” de procurar financiamento.
A ‘OnlyMarms’ acabou por ser aprovada. Blumstein confessa, contudo, que não disse que todas as marmotas são menores de idade: a marmota estudada mais velha viveu apenas 16 anos.
É necessária a intervenção do Governo dos EUA
Até ao momento, a ‘OnlyMarms’ recebeu cerca de 4.500 dólares em donativos, fundos que ajudam, mas representam muito pouco face às subvenções federais que foram recusadas, no âmbito dos cortes drásticos nos programas de investigação e das sanções aplicadas às universidades, promovidos pelo presidente Trump.
“O trabalho que nós e outros investigadores desenvolvemos foi fundamental para nos tornarmos líderes científicos mundiais e para gerar conhecimento benéfico para a humanidade, e tudo isso poderá ficar ameaçado pela situação atual”, sustenta Blumstein.
O cientista adverte que a ‘OnlyMarms’ não é apenas um projeto sobre marmotas; é antes uma história sobre “a destruição” do ensino superior e do financiamento científico nos Estados Unidos.
Para Blumstein, a sustentabilidade da investigação é uma responsabilidade do Governo federal, mas enquanto o braço de ferro entre a Casa Branca e a comunidade científica continua, espera que o público apoie iniciativas como a ‘OnlyMarms’ e a ‘Fat Marmite Week’, que procura eleger a marmota com excesso de peso mais bonita.
As marmotas — os maiores membros da família dos esquilos — podem chegar a triplicar o seu peso corporal durante o verão, antes de hibernarem durante cinco meses.
“Grande parte disto é divulgação científica: vamos rir enquanto o navio se afunda”, conclui Blumstein.