Do tanto a dizer nos pormenores de um percurso de 95 anos de vida, quase 80 de ligação consciente à fé católica, não precisamos de muito para sintetizar objetivamente o legado desta figura ímpar.

1. Nas virtudes e idiossincrasias, foi de idealista empenhado (admirador dos teólogos Hans Urs von Balthasar ou Henri de Lubac, tinha uma visão reformadora no Concílio Ecuménico Vaticano II) a fixista convicto (após o trauma de um confronto na academia com estudantes marxistas). Este segundo adjetivo não deve ser interpretado de forma pejorativa. Com Ratzinger, era um propósito a reafirmação e fixação dos alicerces. Dele se ouviam preocupantes discursos sobre o secularismo e a descristianização na Europa. Na sua análise, era a maior ameaça para a Igreja.

Por refletida cautela do colégio cardinalício, incapaz, em 2005, de dar já protagonismo à evidência da universalidade eclesial, Joseph Ratzinger seria eleito Papa para fixar, na Igreja e no pensamento ocidental, um legado de consistentes linhas de compreensão no devir do mundo. Houve quem o considerasse “profeta” quando antecipou o declínio da mobilização católica. Na verdade, era – dentro dos padrões hermenêuticos da teologia cristã, por onde gostava de navegar com apurada perspicácia – um europeu no seu contexto, preocupado em entender um tempo em aceleração.

O desgastante, embora simbólico na longevidade, pontificado de João Paulo II apontava para a aparente necessidade de um rasgo, um rejuvenescimento na Igreja, a sintonizar-se com o mundo. Mas, ao invés, os cardeais escolheram o homem que pensava os alicerces, defendia as regras doutrinárias, definia e fixava os valores do Catolicismo perante o risco do relativismo.  Era uma Igreja que se sentia ameaçada, precisava da firmeza dos conceitos. A escolha foi óbvia. 

2. O nome do Papa reafirmaria o propósito. Lembra S. Bento, o “padroeiro” da Europa com identidade cristã. A grande prioridade do papado seria então a recristianização do velho continente, perante uma secularização imparável. 

O pressuposto partia de uma visão eurocêntrica do cristianismo católico. Se a Igreja católica, apostólica e romana tem os fundamentos estruturais na Europa, a descristianização ou o relativismo doutrinário na Europa levaria, por contágio, a uma descristianização global, com impacto nas estruturas locais.

Na missa de abertura do conclave que veio a elegê-lo, faria uma síntese: “o pensamento dos cristãos sofreu, não pouco, pela agitação das ondas, arrastada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo até a libertinagem, do coletivismo ao individualismo mais radical, do ateísmo a um vago misticismo, do agnosticismo ao sincretismo”.

Foi esta preocupação que o levou a impor o silêncio ou a afastar teólogos mais heterodoxos do ensino católico, como Leonardo Boff ou Hans Kung, antigo colega da universidade.

3. Teve sempre uma «má imprensa», mas, enquanto Papa, Ratzinger surpreenderia os mais críticos sem deixar de ser um desenhador de «balizas» para a fé católica, fora das quais a Igreja podia tornar-se um perigoso pântano desregrado e relativista.

O mesmo Papa que, numa visita ad limina dos bispos portugueses, em 2007, sugeriu a valorização do papel dos leigos como “a rota certa”, classificou como “escolhos” os debates sobre o “horizontalismo” e a “democratização” na Igreja. Bento XVI não fechava a porta a discussões sobre “o ordenamento da Igreja e a atribuição das responsabilidades”. Reafirmava, no entanto, que tais questões não deviam comprometer a “missão”, ou seja, estão num plano secundário.

Seria também o Papa que removeria a excomunhão de bispos integristas lefevrianos, que recusam o aggiornamento promovido no Concílio Vaticano II. Veio a saber-se depois que um destes prelados integristas negava o Holocausto…

O histórico discurso na Universidade de Ratisbona, em 2010, no qual citou um texto medieval que relaciona o poder da espada com a expansão do Islão, gerou forte controvérsia no “mundo” islâmico. Fora mal compreendido. Visitaria depois a Turquia e, na Mesquita Azul, guardaria um silêncio orante ao lado do grande mufti, virado para Meca.

Enquanto prefeito na Doutrina da Fé, não manifestara grande entusiasmo com a intuição de João Paulo II nos gestos de aproximação a outras religiões. Uma vez Papa, promoveu novo encontro inter-religioso em Assis e teve encontros com representantes de outras religiões nas viagens ao estrangeiro.

Os escândalos morais e financeiros no Vaticano, as fugas de informação confidencial e o drama dos abusos sexuais condicionariam o pontificado, apesar de ter sido Ratzinger, ainda enquanto prefeito na Doutrina da Fé, a preparar as ferramentas legais para abordar o problema dos abusos sexuais, que ganharia dimensão mundial.

Deus caritas est, Spe salve e Caritas in Veritate são três documentos que, marcando uma época de preocupações – o primeiro, na definição do amor humano e da vocação cristã para o amor, o segundo, como reafirmação teológica da Esperança, o terceiro como aplicação da Doutrina Social da Igreja aos macro-problemas do mundo – vão permanecer como ferramentas de compreensão do Catolicismo.

Deixou ainda uma importante abordagem sobre Jesus de Nazaré, que começara a escrever ainda em 2003. Um livro no qual Bento XVI procura desmontar especulações com sucesso editorial e nas salas de cinema.

Não conseguiu travar a secularização em curso na Europa, nem promover reformas na Cúria, que se revelaram ainda mais urgentes nos últimos anos do pontificado. A Igreja tinha entrado em aquaplaning. O Papa equivocara-se ao descurar os assuntos do palácio, os vícios e manias do poder nos corredores do Vaticano.

Sem força anímica e física para inverter o impasse, que prevalecia sobre o gosto pela análise académica dos princípios, foi a consciência desta fragilidade que acabou por desencadear a sua mais revolucionária e corajosa decisão: resignar.

4. A “luta interior”, para tomar a decisão, “não era difícil”, disse, entrevistado por Peter Seewald para o livro Conversas Finais (2016, Editora D. Quixote). A reflexão “não o dilacerou”, foi demorada. Decidiu resignar seis meses antes do anúncio. Escreveu o texto de renúncia, em latim, a 15 dias de o ler, em fevereiro de 2013.

A decisão foi amadurecendo num discernimento individual, “sabia que já não iria conseguir” manter-se, a função era pesada para “desempenhar corretamente a missão”, o que tinha a dar fora dado, entendeu: “quando já não há capacidade, é-nos permitido (pelo menos do meu ponto de vista, outra pessoa pode ter outra opinião) deixar a cátedra”.

Aquele era “o momento”, concluiu, recusando qualquer tipo de pressão pelas circunstâncias e pelos escândalos no Vaticano.

Deixou as funções, mas manteve-se recolhido na cidade eterna, em oração pelo sucessor, com quem construiu uma relação próxima. Houve quem tivesse tentado, sem sucesso, trazer o Papa emérito para o lado dos que contestam Francisco. Este compará-lo-ia a um “avô em casa”, que contribuía com a oração e o bom conselho.

O derradeiro sofrimento de João Paulo II, que levou o pontificado até ao último suspiro, era entendido por Bento XVI como parte da mensagem pessoal que o Papa polaco queria deixar. “Fez todo o sentido”, mas, explicou, não podia repetir a experiência porque a Igreja não aguentaria.

Nestas últimas semanas, pelos relâmpagos de lucidez, que pensamentos terão assaltado Joseph Ratzinger perante a memória da agonia de João Paulo II?

5. Francisco várias vezes elogiou a decisão do antecessor e tem mantido a possibilidade de renúncia em aberto, embora não dê sinais nesse sentido. A morte de Bento XVI encerra um capítulo, mas abre, ainda assim, páginas para alimentar expectativas no curto/médio prazo. Sabia-se que Francisco não iria embaraçar a Igreja precipitando o processo de eleição de um novo Papa com dois eméritos na sombra. Agora, já não é argumento.

Recorde-se, a propósito, a reflexão do próprio Bento XVI. O Papa alemão confessou que a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em agosto de 2013, também pesou na decisão de renunciar. O médico desaconselhou-o a ir e concluiu que teria de renunciar “a tempo de permitir que o novo Papa se pudesse preparar para o Rio”. A Jornada do Rio acabou por ser a primeira grande viagem e o primeiro grande «banho» de multidão do sucessor, Papa Francisco.

Curiosidade: Bento XVI entrou também em funções com uma Jornada Mundial da Juventude, a de Colónia, em 2005.

A próxima Jornada Mundial da Juventude realiza-se em agosto, em Lisboa. Entrevistado para a TVI, Francisco foi enigmaticamente pragmático. “O Papa vai, vai Francisco ou «João XXIV»”, ou seja… outro.