Papa no Parque Tejo: "O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima é para a ajudar a levantar-se" (discurso na íntegra) - TVI

Papa no Parque Tejo: "O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima é para a ajudar a levantar-se" (discurso na íntegra)

  • CNN Portugal
  • SM
  • 5 ago 2023, 21:40

O Papa Francisco no Parque Tejo, na vigília deste sábado, pediu aos jovens que levem a alegria aos outros e que se transformem em "raízes de alegria", destacando o exemplo de Maria

"Quem ama voa e corre feliz", começou por dizer o Papa Francisco perante 1,5 milhões de pessoas de olhos postos no altar-palco do Parque Tejo. Destacando o exemplo de Maria, o chefe da Igreja Católica sugeriu aos jovens que fechassem os olhos e pensassem naqueles que são as suas "raízes da alegria", os "pais e avós, padres e freiras, catequistas, animadores, professores". 

Discurso na íntegra

Queridos irmãos e irmãs, boa noite! Que bom ver-vos! Obrigado por terdes viajado, caminhado e chegado aqui! Também a Virgem Maria teve de viajar para chegar a casa de Isabel. «Levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39): diz o Evangelho desta JMJ. Poderíamos perguntar-nos: Mas porque é que Maria se levanta e vai apressadamente ter com a prima? Certamente porque acaba de saber que ela está grávida, mas também Maria o está. Então por que foi ela, se o anjo não lho pediu, nem Isabel? Maria realiza um gesto não solicitado e sem ser obrigada, simplesmente porque ama e «quem ama voa, corre feliz» (A Imitação de Cristo, III, 5). Maria não espera, toma a iniciativa: vai ajudar a prima e, sobretudo, apressa-se a dar-lhe o que há de mais precioso: a alegria. É missionária da alegria e por isso tem pressa. Certamente já vos aconteceu alguma vez viver uma coisa tão bela que não conseguistes guardá-la só para vós! Pois bem! Esta é a pressa boa de Maria, aquela que impele a partilhar o bem com os outros.

Maria levanta-se e vai. Caminha com passo veloz impelida pelas palavras que lhe disse o anjo: «Alegra-te (...), o Senhor está contigo. (...) Não temas» (Lc 1, 28.30). São as palavras que leva a Isabel. Como é bom, quando alguém nos diz: «Estou contigo, não tenhas medo». Assim faz Maria: para partilhar a beleza de Deus que está próximo, faz-se próxima ela mesma. Amigos, se estamos aqui é porque alguém nos trouxe a proximidade de Deus, bateu à nossa porta não para nos pedir algo, mas pela necessidade transbordante de partilhar a alegria do Senhor. Repassemos então com o pensamento quem fez nascer o sol do amor de Deus sobre as nossas vidas. Todos tivemos pessoas que foram raios de luz: pais e avós, padres e freiras, catequistas, animadores, professores … São as raízes da nossa alegria.

Raízes de alegria. Por momentos fechai os olhos e imaginai uma árvore, uma árvore grande e bela... Como consegue aquela árvore resistir às tempestades e aos ventos que a sacodem! Como pode ela permanecer firme? Graças às raízes. Connosco dá-se o mesmo: as raízes dão-nos a estabilidade de que precisamos. São as fontes escondidas da alma. Amigos, tornemo-nos dignos das nossas raízes, de quem nos deu vida, fé e amor! E pensemos que também nós podemos ser raízes de alegria para os outros.

Mas surge, espontânea, a pergunta: Como é possível tornar-se raízes de alegria? Mostra-no-lo Maria. Ela cultiva a alegria, pondo-se em caminho. Diz-nos que, para aumentar e conservar a alegria, é preciso aprender a arte do caminho. Esta exige um ritmo cadenciado, regular, enquanto hoje se vive de emoções rápidas, sensações momentâneas, instintos que duram instantes. Não! A alegria não nasce assim. Maria ensina-nos que é preciso a constância da caminhada, a mesma que demonstrastes para chegar até aqui. Passo a passo, chega- se longe. Os campeões desportivos, assim como os músicos e os cientistas, mostram que as grandes metas não se alcançam num átimo. Quanto treino há por trás dum golo, quanto trabalho por trás duma canção que nos deixa emocionados, quanto estudo por trás duma descoberta importante!

Se isto é verdade para o desporto, a música e a pesquisa, por maior razão há de valer para aquilo que mais conta, para o amor e para a fé. Aqui, porém, o risco é deixar tudo à improvisação: rezo se me apetece, vou à missa quando tenho vontade, faço bem se gosto... Ao passo que o segredo está no caminho, está em manter um percurso dia após dia, passo após passo, pelas pegadas já assinaladas por outros, em conjunto. Isto – em conjunto – é muito importante. O «arranja-te» nas grandes coisas não funciona, e por isso vos digo: por favor, não vos isoleis, procurai os outros, fazei juntos a experiência de Deus, caminhai em grupo sem vos cansardes. Entretanto poderias dizer-me: «Mas ao meu redor cada qual segue a sua estrada com o seu telemóvel, seguem as séries televisivas, estão presos às redes sociais e aos videojogos...» E tu vai contracorrente, sem medo: toma a vida nas mãos, entra em liça; apaga a TV e abre o Evangelho; deixa o telemóvel e encontra as pessoas!

Parece-me ouvir já a vossa objeção: «É exigente, é difícil ir contracorrente». Olhemos para Maria! Os Evangelhos dizem-nos que ela caminha muito; nisto só Jesus a ultrapassa. Mas sabeis qual é a constante das suas viagens? Que são praticamente todas a subir: de Nazaré à região montanhosa de Isabel, depois subindo em direção a Belém e Jerusalém, em seguida para o Calvário e, por fim, vai para o andar superior do Cenáculo. Caminha a subir, porque só subindo é que se chega ao cimo. Claro! Para subir uma pessoa cansa-se, e é preciso um passo regular. Mas vale a pena. É assim quando se vai contracorrente: mas o esforço e a perseverança no bem compensam. Não sei se já te aconteceu chegar ao cimo duma montanha depois duma longa caminhada, depois de muito esforço, para em seguida ter uma vista fabulosa diante dos teus olhos, que compensa todos os esforços, enquanto dentro te sentias livre e em paz.

O mesmo acontece quando uma pessoa caminha atrás de Jesus: não é tudo fácil e a descer, porque Ele é o Deus da aventura, do êxodo, não dos passeios tranquilos. Não é alguém que se limita a dar-te uma palmada nos ombros e vai embora, mas o verdadeiro Amigo que te acompanha ao longo da estrada; e, enquanto caminha, ajuda-te a vencer os medos e eleva-te até às alturas para as quais foste feito. Ele conhece-te, sabe quanto vales, sabe que és capaz de o conseguir. «Mas eu – poderias dizer – não estou à altura; sinto-me frágil, débil, caio muitas vezes!» Quando te sentires assim, por favor «muda de perspetiva»: não te vejas com os teus olhos, mas pensa no olhar de Deus. Quando erras e cais, que faz Ele? Fica ali junto de ti e sorri-te, pronto a levar-te ternamente pela mão. Foi o que nos contou o padre António, mas, se queres uma confirmação, abre o Evangelho e vê o que Ele fez com Pedro, com Maria Madalena, com Zaqueu e tantos outros: fez maravilhas com a fragilidade deles. Deus não Se deixa prender pelos nossos erros, nem o seu amor depende dos nossos comportamentos. Como nos disse Jesus, Deus é Pai e, quando caímos no caminho, Ele vê um filho ou uma filha para levantar, nunca um malfeitor para castigar. É fiel e conta connosco. Fiemo-nos d’Ele!

Amigos, quero ainda dizer-vos uma coisa importante a propósito do caminho. Aqui, juntos, vivemos dias felizes e intensos, mas quando regressarmos a casa, como fazer para caminhar, donde se começa cada dia? Deixemo-nos ajudar novamente por Maria, que Se levanta e vai. Estes são os dois passos para caminhar cada dia: levantar-se e ir.

Primeiro: levantar-se. Levantar-se da terra, porque fomos feitos para o Céu; manter-se de pé na vida, não ficar sentado no sofá. Levantar-se das tristezas e olhar para o alto. Levantar-se para responder à beleza insuprível que somos. Em suma, levantar-se para receber-se como dom. Acolher-se como um dom, isto é, reconhecer em primeiro lugar que somos um dom, filhos amados e preciosos. Isto não é autoestima, mas realidade: é o ponto de partida quotidiano. É o primeiro passo a realizar pela manhã quando acordas: desce da cama e acolhe-te como um dom. Como? Agradecendo, dizendo obrigado a Deus. Antes de te lançares nas coisas a fazer, pára um momento para Lhe dizeres: «Senhor, obrigado pela minha vida. Senhor, faz-me amar a vida. Senhor, Tu és a minha vida». Depois rezas o Pai Nosso, cuja primeira palavra é a chave da alegria: dizes «Pai» e assim te reconheces filho amado, filha amada. Recordas-te de que, para Deus, não és «uma silhueta», mas um filho; tens um Pai nos céus e, portanto, és filho do céu. Aqui está a nossa força, que nos levanta das quedas e mantém de pé nas provas, como testemunhou a Marta. Levantemos o olhar, ergamos ao alto os nossos corações!

Levantar-se e depois, como segundo passo, ir. Se a vida é um dom, não posso deixar de fazer dela uma dádiva. Portanto, se o primeiro movimento era receber-se como dom, o segundo é fazer-se dom. Amigos, embora hoje tudo pareça incerto, a precariedade que se respira não pode ser desculpa para ficarmos parados: não estamos no mundo para fazer servir os nossos interesses, mas para nos desinquietarmos indo ao encontro de quem precisa de nós. É assim que nos encontramos a nós mesmos. Sabeis porque é que muitas vezes nos enganamos no caminho? Porque ficamos a orbitar à volta de nós próprios. Pelo contrário, quem sai da sua órbita encontra-se, quem se gasta pelos outros ganha-se a si mesmo, porque a vida só se possui dando-a. Como Maria, que recebe um dom de Deus e imediatamente Se faz dom para Isabel. Mas se girarmos apenas à volta do nosso «eu», das nossas necessidades, daquilo que nos falta, sempre nos encontraremos no ponto de partida, a lamentar a nossa sorte com trombas, talvez com a ideia de que estão todos contra nós. Quantas vezes caímos vítima de tristezas sem razão de ser que mandam em fumo as nossas melhores energias! Não, não nos deixemos cair reféns da solidão nem paralisar pela melancolia, mas vamos ao encontro dos outros. Saiamos dos «porquês», perguntando-nos «por quem»: por quem posso fazer qualquer coisa? A quem posso oferecer o meu tempo, a quem servir?

Pensai nisto: O Pai nosso criou tudo para nós, mas nós, para quem criamos qualquer coisa de belo? Vivemos imersos em produtos feitos pelo homem, que nos fazem perder o deslumbramento com a beleza que nos rodeia, mas a criação convida-nos a ser criadores de beleza, a fazer algo que antes não havia. Sim, a vida exige ser doada, não administrada; pede para sair da dependência do virtual, do mundo hipnótico das redes sociais que anestesia a alma. Jovens, não sejais profissionais da digitação compulsiva, mas criadores de novidade! Uma oração feita com o coração, uma página que escreves, um sonho que realizas, um gesto de amor por alguém que não pode retribuir: isto é criar, imitar o estilo com que Deus criou o mundo. É o estilo da gratuidade, que nos afasta da lógica niilista do «faço para ter» e do «trabalho para ganhar». Sede criativos com gratuidade, dai vida a uma sinfonia de gratuidade num mundo que vive de lucros! Assim sereis revolucionários. Ide e dai, sem medo!

Jovem que estás aqui, cansado porque caminhaste tanto mas feliz porque fizeste mais leve a alma com uma sensação de liberdade que as coisas não te dão, levanta-te: abre o coração a Deus, agradece-Lhe, abraça a beleza que és; enamora-te da sua vida e descobre cada dia que és amado. E depois vai: sai, caminha com os outros, procura os que estão sozinhos; colora o mundo com os teus passos e pinta de Evangelho as estradas da vida. Levanta-te e vai. Escuta Jesus que te dirige este convite. Ele, a muitas das pessoas que ajudava e curava, dizia precisamente assim: «Levanta-te e vai» (Lc 17, 19). Precisamos de O ouvir repetir isto. É o que acontece agora, na Adoração: nós olhamos para Jesus e Ele olha para nós. No silêncio, deixamos ressoar a sua voz entusiasta e gentil, que fala ao coração, consola, encoraja, cura e envia. Não é um encontro intimista, é a força para se levantar e caminhar. O autor de O Senhor dos Anéis, num dos caminhos mais aventureiros de todos os tempos, escreveu ao seu filho: «Ofereço-te a única coisa grande na terra para amar: o Santíssimo Sacramento. Lá encontrarás fascínio, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho de todos os teus amores na terra» (J.R.R. Tolkien, Carta 43, março de 1941). Diante da Eucaristia encontramos o caminho, porque Jesus é o caminho (cf. Jo 14, 6). Nesta noite, renovemos o nosso encontro com Jesus. Digamos-Lhe: «Senhor Jesus, eu Te agradeço e Te sigo. Amo-Te e quero caminhar contigo».

Continue a ler esta notícia