No seu habitual espaço de comentário aos domingos, Paulo Portas criticou duramente as declarações de Donald Trump sobre o Papa, considerando que o presidente norte-americano cometeu “um erro” ao entrar em confronto com a liderança da Igreja Católica. “Há mais de 55 milhões de católicos nos Estados Unidos e não é costume os católicos gostarem de ouvir um presidente tratar ofensivamente o Papa. É a primeira vez em 250 anos que isso acontece”, afirmou, lembrando que a relação entre a presidência americana e o Vaticano sempre foi marcada por respeito institucional.
O comentador destacou ainda que as posições do atual Papa sobre a guerra não são inéditas, mas sim consistentes com a tradição da Igreja. “O Papa Paulo VI criticou a guerra do Vietname, o Papa João Paulo II a do Iraque, e o que o Papa Leão está a dizer é o que está na doutrina. Não há guerras santas. Santa é a paz”, afirmou, referindo-se à doutrina social consolidada após o Concílio Vaticano II.
Portas citou também um artigo de opinião que considerou particularmente incisivo para ilustrar a diferença de autoridade entre o Papa e Trump: “O Trump tem que perceber que o Papa tem duas enormes vantagens sobre ele. A primeira é o sponsor do Papa, é Deus, não é bem Mark Zuckerberg. A segunda é que o Papa tem quem lhe escreva muito bem os discursos: Mateus, Marcos, João e Lucas. E contra isto não há tweet nem post que valha.”
Ainda no mesmo plano, o comentador criticou ainda a recente estratégia comunicativa do vice-presidente norte-americano, JD Vance, convertido recentemente ao catolicismo: “Dar lições de teologia ao Papa com seis aninhos de conversão, e com a fúria dos convertidos, exige um bocadinho mais de humildade”, afirmou.
O comentador destacou também a importância da atual viagem do Papa a África, classificando-a como “muito marcante”, uma vez que o continente será decisivo para o futuro da Igreja, com cerca de 280 a 300 milhões de católicos. “O Papa vai à Argélia falar de diálogo inter-religioso, vai aos Camarões falar da coragem de mudar e da corrupção, e em Angola fala de reconciliação, justiça social e pobreza”.
"Há minas que são ativadas por sinais acústicos - são particularmente letais"
No que diz respeito à guerra no Irão, e com o regresso do bloqueio ao Estreito de Ormuz, Portas considerou que a situação atingiu um nível de imprevisibilidade preocupante: “Isto é de tal forma uma extorsão do lado iraniano, completamente contra o direito internacional, e do lado dos Estados Unidos é tentar fazer o que o Irão fez para obrigar o Irão a desfazer o que fez - mas sem sucesso".
Outro ponto a considerar é o risco económico associado ao encerramento de uma das principais rotas energéticas do mundo, defendendo que o estreito está a ser usado como arma estratégica: “O Estreito de Ormuz tornou-se evidentemente a arma económica de pressão da parte que militarmente é mais fraca. E ao mesmo tempo há uma desconsideração total por aquilo que isto significa para a economia mundial.”
Portas destacou também a questão das minas marítimas, alertando para um perigoque tem vindo a ser ignorado no contexto de guerra: “Sabemos que o Irão pode ter um arsenal até cinco mil minas. Não sabemos sequer se há um mapeamento completo, sobretudo das que estão enterradas e que podem deslocar-se com as correntes. E há minas que são ativadas por sinais acústicos - são particularmente letais.”
A resposta internacional deveria, assim, passar por um enquadramento jurídico mais robusto, à semelhança de outros pontos estratégicos globais: “O que se devia era concluir um tratado internacional, como existe para o Canal do Suez, para garantir que não volta a acontecer uma situação destas em que dois atores bélicos sequestram a geoeconomia do mundo inteiro, em particular no transporte de energia.
E, no contexto negocial, se é para acontecer novas conversações, sublinha, "as duas partes têm de abrandar aquilo que estão a fazer e, sobretudo, parar com a lógica de anúncios e pressões públicas. A coação pública dificulta sempre a posição da outra parte e assim não há acordo duradouro possível".