“A Gronelândia é um assunto muito sério, pode não parecer, mas é um assunto muito sério.” No seu comentário semanal, Paulo Portas dramatiza a escalada de tensão entre os Estados Unidos e a União Europeia, num dia em que Donald Trump voltou a endurecer o tom, ameaçando impor tarifas de 25% a vários países europeus enquanto insiste na ideia de “comprar” o território. Para Portas, está em causa “parte da Dinamarca”, “um Estado europeu” e “um aliado histórico de Washington”, e não “um território sem enquadramento político ou jurídico”.
“O problema começa logo aqui: os Estados Unidos não têm nenhum direito histórico à Gronelândia”, sublinha Paulo Portas, rejeitando qualquer fundamento legal ou político para a pretensão americana. “Para comprar território é preciso um acordo entre quem compra e quem vende, e esse acordo não existe”, insiste, numa referência direta à ausência de consentimento de Copenhaga e do próprio território autónomo.
Portas reconhece que existem precedentes históricos, mas faz questão de vincar as diferenças. “É verdade que os Estados Unidos compraram a Flórida, compraram o território da Louisiana, compraram o Alasca e até compraram à Dinamarca as Virgin Islands”, enumera. Ainda assim, reforça: “em todos esses casos houve acordo; aqui não há acordo nenhum”.
A tentativa de normalizar o processo é, para o comentador, profundamente enganadora. “Marco Rubio veio dizer que não se trata de uma conquista, mas de uma compra”, observa, acrescentando de imediato que “rapidamente Trump volta à sua natureza”, transformando o que seria uma negociação numa “forma de pressão” sobre o bloco europeu.
A gravidade do episódio aumenta quando enquadrada na arquitetura da segurança ocidental. “O artigo 5.º da NATO foi inventado para defender os membros da NATO do adversário ou do inimigo”, recorda Paulo Portas. “Sucede que não há nenhum artigo na NATO que preveja como é que se defende um aliado do ataque de um aliado”, alerta, apontando para um vazio sem precedentes.
Esse vazio, argumenta, não é acidental. “Estamos a assistir à transformação de um sistema de alianças, que tem regras, tratados, convenções e limites, num sistema de potências que se mede pela força”, afirma. Um mundo onde “o peso militar e político” substitui progressivamente “as regras partilhadas”.
Neste enquadramento, a Gronelândia surge como sintoma e não como exceção. “O que está a acontecer com a Gronelândia insere-se numa lógica de política de poder”, sustenta Paulo Portas, aproximando este caso de outros episódios recentes em que as grandes potências testam limites e reescrevem fronteiras de influência.
Perante este cenário, a resposta europeia não pode ser hesitante. “A Europa deve responder com firmeza”, defende. E esclarece: “firmeza não é hostilidade”, mas sim “defesa do princípio”, “defesa das regras” e “defesa do respeito entre aliados”.
Também do lado do território visado, a posição é inequívoca. “A Gronelândia já respondeu a dizer que não quer ser comprada”, lembra Paulo Portas, sublinhando que ignorar essa resposta significa ignorar “a autodeterminação” e “o respeito mínimo que deve existir entre parceiros”.
O aviso final é mais amplo e ultrapassa o caso concreto. “O que acontece com a Gronelândia, como aconteceu com a Venezuela ou como pode acontecer noutros contextos, tem um efeito de autoridade moral”, conclui. “Facilita comportamentos semelhantes por outras potências” e “enfraquece a ideia de regras partilhadas”.