É conhecido como o enfant terrible do Partido Socialista, mas também como um dos mais amados entre os militantes. Era apregoado há muito como o próximo na linha de sucessão a António Costa, mas, e agora? Como ficam os índices de aceitação de Pedro Nuno Santo no seio do próprio partido depois da demissão?

Após o já tradicional adeus de madrugada, o país acordou com Maria do Céu Antunes, ministra da Agricultura, na TVI, a recordar o "trabalho de maior importância" do filho preferido do partido do punho cerrado, bem como o legado que deixa, enquanto ministro, na ferrovia e na habitação. Também no Esta Manhã, Catarina Sarmento e Castro, responsável pela pasta da Justiça, garantiu que a coesão e dinamismo do Governo se mantêm, mas lembra que "há um antes e um depois de Pedro Nuno Santos na área da habitação e da ferrovia".

Como fica o futuro de Pedro Nuno no Partido Socialista?

Ana Gomes, um dos rostos conhecidos do PS, já saiu em defesa de Pedro Nuno Santos. A histórica socialista diz que o agora ex-ministro saiu "como sempre esteve no Governo: com seriedade, convicção e dignidade e com ambição para o país". A antiga eurodeputada antevê um futuro próspero para Pedro Nuno no PS.

Também Alexandra Leitão, ex-ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública na anterior legislatura de António Costa, realça "a enorme dignidade e humildade com que Pedro Nuno Santos sai do Governo assumindo uma responsabilidade política que é notável". A socialista confessa que é "com grande pena" que vê sair do Governo "um ministro que tem coragem política e competência para fazer alterações estruturais não só na área da ferrovia e da habitação, mas também pelo que fez na TAP", acrescentando que "não eram muitos que tinham a coragem para assumir o dossier da TAP”.

Quanto ao que segue, Alexandra Leitão salienta que o enfant terrible tem futuro garantido como "ativo fundamental" do PS e do país e diz que agora é tempo de o Governo "olhar para si sem arrogância e com humildade e perceber que há algo que é preciso mudar”, evidenciando que "o primeiro momento para resolver qualquer problema é assumir que ele existe”.

“Considero que é um ativo fundamental para o Partido Socialista e para o país e tenho a certeza que ainda terá um futuro nessa dimensão”, refere a antiga ministra socialista.

Em entrevista à CNN Portugal, o analista político José Miguel Bettencourt alerta, no entanto, que “ninguém sabe o dia de amanhã nem qual será a trajetória política do PS”. O especialista entende que é impossível "ficar indiferente ao que aconteceu", mas lembra que "o peso de Pedro Nuno Santos dentro do PS tem sido muito forte".

Na visão de José Bettencourt, abandonar o cargo revela um "assumir a culpa e aqui já estamos a falar de ética democrática”, mas a verdade “é que um verdadeiro político nunca se reforma, nunca se perde o sentido político e Estado”. Apesar disso, José Miguel Bettencourt destaca ainda que "Pedro Nuno Santos tem o seu mérito", já provou que, em determinadas áreas, “consegue ser muito útil" e é tempo para de refletir quer para o agora ex-ministro como para o chefe do Executivo. 

“Pedro Nuno Santos tem direito ao seu momento sabático. Agora, deve existir sim um momento que passa pelo Primeiro-ministro e na autenticidade e na governação e em servir o Estado”, realça José Miguel Bettencourt.

Guerra aberta no PS e o primeiro alvo já foi identificado: Fernando Medina

Para Sebastião Bugalho, "profecias certas" sobre o PS não têm grande valor, porque "ninguém pode dizer ao certo que sabe o que vai acontecer em 2026". Contudo, se o futuro é incerto, o presente nem tanto. O comentador da CNN Portugal tem pelo menos uma certeza: "A partir de agora, abriu a guerra no Partido Socialista”. Bugalho realça que a "tempestade que António Costa andava a tentar fechar num copo de água" escapou e já está em movimento.

Por outro lado, Miguel Pinheiro descarta a hipótese de conflito interno no Largo do Carmo, mas evidencia que "a saída de Pedro Nuno Santos não é apenas a saída de apenas mais um governante": "Se são dez com ele, diria que equivale aos outros nove". O comentador da CNN Portugal lembra "com Pedro Nuno Santos sai uma parte substancial do Partido Socialista" e diz que "não é por acaso que é considerado, ou era, o sucessor quase certo de António Costa na liderança do PS”. O também diretor do jornal Observador lembra que, apesar da demissão, “há uma grande fidelidade das estruturas do partido a Pedro Nuno Santos” e que “António Costa vai ter de arranjar maneira de o conseguir acomodar de alguma forma".

“Era o sucessor quase certo, porque controla uma parte muito substancial das estruturas do PS. A partir de agora, uma parte substancial do PS sai do Governo”, garante Miguel Pinheiro.

"Fações e rivalidades do PS vão contaminar a estabilidade do Governo"

Posto isto, Sebastião Bugalho acredita que "ainda há muito tempo para se ver o que vai acontecer a Pedro Nuno Santos" e que o "próprio terá tempo para se explicar e fazer uma análise sobre a sua atuação política”, mas situação bélica partidária começou com o comunicado de adeus do agora ex-ministro, onde Fernando Medina parece ter sido um alvo não anunciado. O comentador avisa que de agora em diante as "várias fações e rivalidades do PS vão contaminar a estabilidade do Governo".

“Fica muito claro, que acha que não deveria sair sozinho. Isso está no seu comunicado quando diz que sai, porque o seu secretário de Estado também sai. Ora aí, Pedro Nuno Santos está a dizer aos portugueses e ao Primeiro-ministro é que Fernando Medina que perdeu o seu secretário de Estado também devia sair. Todo o comunicado de Pedro Nuno Santos é um tratado político, uma espécie de atirador furtivo na direção de Fernando Medina, porque dispara responsabilizando os serviços jurídicos da TAP - que eram dirigidos pela mulher de Fernando Medina -, dispara dizendo que também devia sair, porque o seu secretário de Estado saiu e Fernando Medina também perdeu a sua secretária de Estados, que era a própria Alexandra Reis. A partir de agora, temos de ter noção de uma coisa: abriu a guerra no Partido Socialista”

Será a TAP caso único?

Perante a demissão de ministro das Infraestruturas e da Habitação, José Miguel Bettencourt diz que tem "a certeza absoluta de que o caso da TAP não é único”, isto porque "a qualidade do sistema político tem vindo a deteriorar-se ao longo dos anos e a questão fundamental é que, se queremos políticos bons, temos de lhes pagar bem, mas depois exigir mais resultado”, deixando ainda duas questões que sustentam uma reforma fundamental do sistema democrático nacional: “Como consigo convencer alguém com passado distinto que recebe cinco mil euros com este selário máximo? O que é que nos sai mais barato ter um ministro competente, mas bem pago ou o que temos vindo a assistir?”

Pedro Nuno Santos já não é mais o ministro da Infraestruturas e da Habitação. Depois do prenúncio dos aeroportos do Montijo e Alcochete, a gota de água foi a polémica indemnização de 500 mil euros recebida por Alexandra Reis quando abandonou o cargo de administradora da TAP. Foi a décima demissão desde que António Costa conseguiu o voto da maioria dos portugueses, mas foi a saída mais relevante até agora, Pedro Nuno é um dos nomes mais fortes para suceder a António Costa como secretário-geral do PS e continua a ter a seu lado grande parte do partido.

Nuno Mandeiro