Pensões vão valer menos face ao salário. Peritos simulam queda de dez pontos até 2065 - TVI

Pensões vão valer menos face ao salário. Peritos simulam queda de dez pontos até 2065

Avós e netos (GettyImages)

Maior pressão está associada à Caixa Geral de Aposentações e pode obrigar a transferências futuras. Excedente anunciado na Segurança Social pode, na verdade, equivaler a um défice de 1.944 milhões

No futuro, as pensões vão representar uma parcela cada vez mais diminuta do último salário dos trabalhadores. Isto num momento de aparentes excedentes do lado da Segurança Social. A imagem aparentemente confortável foi posta em causa no relatório apresentado esta terça-feira pelo grupo de peritos liderado por Jorge Bravo e o documento inclui mesmo simulações que apontam para uma redução superior a dez pontos percentuais nas taxas de substituição até 2065.

Vejamos. Segundo os cálculos que constam no relatório, para um trabalhador com uma carreira contributiva de 40 anos, progressão salarial média e remuneração equivalente ao salário médio, a taxa de substituição bruta - isto é, a percentagem do último salário assegurada pela pensão - deverá recuar de 68,3% (valor em 2025) para 60,1% em 2045 e 58% em 2065. Já a taxa líquida desce de 82,8% para 70,3% no mesmo período.

A erosão é também transversal aos diferentes rendimentos. Para uma remuneração equivalente a seis vezes o salário médio, a taxa bruta recua de 64,3% para 53,6%. Nas carreiras de apenas 20 anos, a pensão poderá representar somente 31,9% do último salário em 2065, enquanto períodos de desemprego, parentalidade ou prestação de cuidados também reduzem o rendimento esperado na reforma.

Simulações feitas pelo Grupo de Trabalho

O grupo de trabalho considera que esta evolução resulta de condições estruturais que não desapareceram com os recentes excedentes. “Demografia adversa, envelhecimento e baixo crescimento reduzem a base contributiva”, lê-se no documento, que alerta ainda que os défices de autofinanciamento “aumentam a pressão sobre as finanças públicas”.

A maior pressão está, como denunciado durante a apresentação, associada à Caixa Geral de Aposentações (CGA), encerrada a novos subscritores desde 2006. As projeções apontam para um crescimento da despesa com pensões durante a próxima década, seguido de uma redução gradual até ao desaparecimento do regime, mas obrigando entretanto a transferências significativas do Orçamento do Estado. O valor futuro dessas transferências equivale a entre 313,7 mil milhões e 581,8 mil milhões de euros, consoante a taxa de desconto utilizada - algo como 102% e 190% do PIB de 2025.

Embora o sistema previdencial tenha apresentado em 2025 um excedente efetivo de 5.468 milhões de euros, o grupo refere que, se descontarmos as contribuições dos funcionários públicos transferidas da CGA e as pensões antecipadas classificadas noutros subsistemas, vamos ter como resultado um défice de 1.944 milhões. 

O documento contesta igualmente a ideia de que o crescimento do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social resulta apenas de poupança contributiva. "A reserva financeira acumulada no FEFSS não traduz uma poupança genuína dos sistemas; decorre do financiamento fiscal de despesa contributiva”, defendem os peritos, que propõem transformar o fundo numa reserva comum dos sistemas públicos de pensões, com regras específicas para quando pode ser utilizado.

O grupo recomenda também a criação de um regime público de contas nocionais de contribuição definida, comum à Segurança Social e à CGA. As contribuições do trabalhador e do empregador seriam registadas numa conta individual virtual, mas o dinheiro continuaria a financiar as pensões atuais. “Não há lugar a capitalização real”, esclarece o relatório.

Dívida implícita da Caixa-Geral de Aposentações

Neste modelo, o saldo da conta seria atualizado de acordo com a evolução da massa salarial e convertido, no momento da reforma, numa pensão vitalícia calculada em função da esperança de vida da geração e da idade de saída. O sistema teria um mecanismo automático de reequilíbrio, mas preservaria, segundo os autores, “o contrato entre gerações” e as responsabilidades já assumidas.

Há também a proposta de constituir uma Garantia Integrada para a Velhice, destinada a substituir a atual multiplicidade de pensões mínimas e complementos. Em dezembro de 2025, 854.517 pensões de velhice ou invalidez beneficiavam de complementos para mínimos, o equivalente a 46% do total e a uma despesa de 2.300 milhões de euros. A nova garantia deverá combinar um patamar mínimo com uma retirada gradual do apoio, preservando “o princípio da contributividade”.

Entre as alterações paramétricas está a substituição dos atuais escalões de atualização das pensões por uma regra contínua baseada na inflação, no crescimento real partilhável e na sustentabilidade financeira. O relatório recomenda também uma tabela única de ajustamentos para as reformas antecipadas, o fim da regra que contabiliza como ano contributivo qualquer período com pelo menos 120 dias de descontos e a criação de uma reforma parcial flexível, com combinações entre trabalho e pensão de 75/25, 50/50 ou 25/75.

Fora do sistema público, os peritos propõem planos profissionais de adesão automática, financiados conjuntamente pelo trabalhador, pelo empregador e pelo Estado. Os trabalhadores seriam inscritos por defeito, mas poderiam sair. “A participação é estritamente voluntária, mas é incentivada”, sublinha o documento. A proposta-base aponta para uma contribuição total mínima entre 8% e 10%, introduzida gradualmente ao longo de seis a dez anos.

O facto de ser um regime em que existe uma adesão automática surge do exemplo de outros países que viram este tipo de modelos crescer exponencialmente exatamente por estar associado a um mecanismo de 'opt out'. Ou seja, em vez de o trabalhador ter a possibilidade de integrar o plano-poupança passa a ter a hipótese de o abandonar por iniciativa própria.

As simulações indicam que uma contribuição total de 8% poderia acrescentar entre 9,51 e 15,12 pontos percentuais à taxa de substituição, dependendo do salário. Para um trabalhador que recebe 1,5 salários mínimos, desconta durante 43 anos e obtém uma rentabilidade líquida anual de 4%, uma contribuição de 10% permitiria acumular perto de 500 mil euros, incluindo as entregas do trabalhador, do empregador e do Estado e os rendimentos do investimento.

O pacote inclui ainda o programa “Grão a Grão”, uma conta de poupança-reforma criada para crianças e jovens com uma contribuição pública mensal. Uma entrega universal de dez euros por mês dos zero aos 17 anos teria um custo orçamental anual estimado em 200,46 milhões de euros; se abrangesse apenas as idades entre os seis e os 17 anos, o custo desceria para 138,27 milhões. São também propostos Certificados de Aforro-Reforma: para receber um complemento de 100 euros mensais durante 20 anos, após duas décadas de poupança, seriam necessárias entregas mensais de 45,64 euros, assumindo uma taxa de juro de 4%.

Apesar da dimensão das alterações, o grupo garante que “o relatório não preconiza a ruptura nem a privatização do Estado social” e apresenta como “garantias inegociáveis” a preservação das pensões em pagamento, a manutenção do financiamento por repartição e a inexistência de qualquer plafonamento. “Um bom sistema de pensões não se limita a proteger os cidadãos da pobreza; dá-lhes também a oportunidade de envelhecer com a mesma dignidade e bem-estar com que viveram toda uma vida de trabalho”, conclui o mesmo documento.

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