Detida a médica campeã das receitas de Ozempic para falsos diabéticos - TVI

Detida a médica campeã das receitas de Ozempic para falsos diabéticos

Graça Vargas fingia que os utentes eram diabéticos para terem comparticipação de medicamentos para a diabetes, com a única finalidade de emagrecimento. Estão a decorrer buscas no consultório da médica que prescreveu mais de 9 milhões de euros. PJ acredita que esquema prejudicou o Estado em cerca de 3 milhões de euros

A Polícia Judiciária deteve a médica endocrinologista Graça Vargas por receitar milhares de medicamentos antidiabéticos para fins de emagrecimento - como Ozempic, Victoza e Trulicity. Os inspetores, numa operação liderada pelo DIAP Regional do Porto, estão agora a fazer buscas na clínica da médica. 

Segundo a investigação, o esquema da profissional passava por emitir receitas a utentes que queriam emagrecer fingindo que eram diabéticos para terem comparticipação do Estado.

A médica registou prescrições pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) em montantes que ultrapassam os 9,7 milhões de euros. Trata-se, segundo a investigação, da maior prescritora a nível nacional, sendo responsável por valores de comparticipação pelo SNS de mais de 5 cinco milhões de euros, resultado da prescrição de mais de 65 mil embalagens a 1.914 utentes. E, destes, 57% seriam falsos diabéticos. O que significa que estes utentes não tinham direito às comparticipações de milhares de euros que tiveram do Estado. Em causa estará uma fraude que pode ter prejudicado o erário público em mais de três milhões de euros.

A médica foi detida na sua residência no norte do país sendo suspeita de crimes de burla qualificada e de falsidade informática. A farmácia que mais receitas dispensou a "falsos diabéticos" está localizada no Porto, com um valor de 881 mi euros e onde as receitas da médica têm um peso de 9,4% no valor total de receitas do SNS na farmácia.

Graça Vargas é, de resto, a maior prescritora a nível nacional destes medicamentos. Só esta endocrinologista é responsável por um valor de 5.230,638 euros em comparticipações de Ozempic, Victoza e Trulicity pelo SNS, representando perto de 66 mil embalagens. 

Os valores das receitas assinadas pela médica encontram-se muito acima dos 10 maiores prescritores do país deste tipo de medicamento. Numa análise feita pelo centro de controlo e monitorização do Serviço Nacional de Saúde às receitas emitidas para estes três medicamentos para a diabetes, entre 2012 e 2023, verificou-se que Graça Vargas tinha valores de gastos muito superiores aos dos colegas. O segundo maior prescritor do país, por exemplo, registou gastos de comparticipações de cerca de três milhões euros- menos dois milhões do que a endocrinologista detida.  

A operação decorreu num momento em que as autoridades acreditam que mais de metade (57%) dos utentes que recorreram a Graça Vargas para adquirir Ozempic, Victoza e/ou Trulicity através do SNS não têm receitado mais nenhum outro produto para a diabetes.

No decorrer da investigação, as autoridades encontraram mesmo um utente a quem a médica prescreveu entre 2012 e 2023 um total de 1.653 embalagens destes medicamentos. Ou seja, 23 embalagens por mês, o que pode indiciar existir uma revenda destes medicamentos.

As autoridades descobriram que, só em 2022, a médica Graça Vargas prescreveu  804.615, 04 euros através dos medicamentos Victoza, Trulicity e Ozempic. Já entre janeiro e fevereiro de 2025, o valor de comparticipação pelo SNS atingiu o montante de 72.856,17 euros, sendo que esta médica terá receitado Ozempic 506 vezes durante este período.

Nesta investigação foram também recolhidos fortes indícios da participação de uma outra médica, um advogado e uma clínica médica no referido esquema.

Em nota oficial após a notícia da CNN Portugal, a Polícia Judiciária confirmou que os suspeitos "provocaram um prejuízo ao Estado Português que poderá ascender cerca de três milhões de euros, por via do pagamento de taxas de comparticipação, obtidas de forma fraudulenta".

A PJ acrescentou ainda que as buscas visaram a residência dos principais suspeitos, mas também um escritório de advogados, um estabelecimento de saúde e a sede de duas empresas, em Albufeira e no Funchal, "que tudo leva a crer ser de “fachada”, assim como gabinetes de contabilidade em Santa Maria da Feira e Lousada".

Este inquérito, que se encontra em investigação na Diretoria do Norte da PJ, tem, segundo a nota das autoridades, conexão com uma outra investigação sobre crimes de fraude fiscal com os mesmos suspeitos. Esta investigação decorre no DIAP de Santa Maria da Feira e está a ser tutelada pela Autoridade Tributária, pelo que as diligências realizadas esta quarta-feira aconteceram em coordenação entre a Polícia Judiciária e a Autoridade Tributária.

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