"Institucionalmente racista, misógina e homofóbica": relatório abala Polícia Metropolitana de Londres - TVI

"Institucionalmente racista, misógina e homofóbica": relatório abala Polícia Metropolitana de Londres

Polícia Metropolitana de Londres (Alastair Grant/AP)

Investigação que surgiu após o caso de Sarah Everard mostra que existe uma sistematização de comportamentos dentro de uma das mais importantes forças de segurança do Reino Unido

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“Racista, misógina e homofóbica”: três caraterísticas que um relatório diz fazerem parte da Polícia Metropolitana de Londres, uma das mais importantes instituições das forças de segurança do Reino Unido.

A conclusão surge num relatório de 363 páginas em que são descritos detalhes de histórias de importunação sexual dentro da polícia, muitas delas encobertas ou desvalorizadas pela própria autoridade.

O documento é a conclusão de uma investigação interna pedida pela própria polícia, depois do caso Sarah Everard, mulher que foi raptada, violada e morta por Wayne Couzens, um ex-membro daquela força policial. Igualmente mediático foi o caso de David Carrick, um polícia que entre 2003 e 2020 cometeu mais de duas dezenas de violações.

O relatório foi apresentado por Louise Casey, indicada pelo governo para acompanhar uma investigação que descobriu que 12% das mulheres da Polícia Metropolitana de Londres relataram ter sido assediadas ou atacadas no espaço de trabalho, sendo que um terço das inquiridas teve experiências de sexismo.

“O respeito público caiu para um ponto baixo. Os londrinos que não têm confiança na polícia já são mais do que os que têm”, indicou Louise Casey, destacando que a confiança é ainda menor junto da população negra da cidade.

Racismo e sexismo (dentro e fora)

“A polícia ainda tem de se libertar do seu racismo institucional. A polícia tem estado afastada dos princípios de Robert Peel [político que definiu as regras de ética pelas quais a polícia britânica se deve reger]”, acrescentou.

Algo que vai para lá de casos pontuais e que se apresenta como sistémico. Num dos casos divulgados por Louise Casey, um agente muçulmano foi alvo de bullying por parte dos seus colegas, que lhe colocaram bacon nas botas. Situações que se estenderam a outras minorias e que também surgiam por parte das chefias (sabe-se que os profissionais de minorias étnicas eram mais vezes castigados ou mesmo despedidos, por exemplo).

Ativistas protestam contra comportamentos abusivos da polícia à margem do julgamento de David Carrick (Wiktor Szymanowicz/Getty Images)

Em paralelo, também nas ações de investigação se verificava um comportamento abusivo. O relatório refere que, fosse em simples operações de trânsito, fosse em detenções mais perigosas, o uso da força era muitas vezes excessivo quando os suspeitos eram negros.

Entre os casos mencionados também há vários que relatam problemas na forma como se tratam as mulheres dentro da polícia. Foram identificados vários casos de abusos por parte de patentes mais altas, incluindo um em que uma agente em início de carreira foi constantemente sujeita a assédio e a atos indecentes.

“Provavelmente era melhor sofrer em silêncio, mas não podia fazê-lo. Ele acabou por escapar, acabei por passar por mentirosa”, disse a mulher à investigação.

Comportamentos que Louise Casey pede que sejam resolvidos rapidamente, falando numa crise existencial que, se não for resolvida, pode resultar em consequências graves para a própria instituição: “Se não estão a ser feitos progressos suficientes, opções mais radicais e estruturais - como dividir a Polícia Metropolitana de Londres - devem ser consideradas para assegurar que o serviço aos londrinos é priorizado”.

Louise Casey com o relatório sobre os abusos na Polícia Metropolitana de Londres (Kirsty O'Connor/AP)

Polícia “envergonhada”

O comissário da Polícia Metropolitana de Londres recusou-se a utilizar o termo “institucionalizado” para definir os diferentes comportamentos dos vários agentes, mas admitiu que estava “envergonhado” com as conclusões do relatório, acrescentando que ainda existem “indivíduos tóxicos” dentro daquela força.

Mark Rowley prefere esperar para consultar o relatório de forma mais profunda, ainda que aceite a existência dos vários casos divulgados. “Esta é uma organização que tem de se tornar determinadamente anti-racista, antimisógina e anti-homofóbica”, acrescentou, reiterando que a utilização da expressão “institucionalizado” seria politizar o assunto.

Um entendimento diferente de uma das duas pessoas que podem despedir o líder da polícia. O presidente da Câmara de Londres afirmou que “Louise Casey encontrou racismo, misoginia e homofobia institucionalizados” na polícia.

“Serei inabalável na minha determinação de apoiar e responsabilizar o novo comissário enquanto ele trabalha para fazer reformas na polícia”, garantiu Sadiq Khan.

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