REPORTAGEM: Radomiak Clube de Portugal - TVI

REPORTAGEM: Radomiak Clube de Portugal

  • Pedro Lemos
  • Algarve
  • 15 jan, 11:00
Radomiak estagia no Algarve (Pedro Lemos/Maisfutebol)

Reportagem do Maisfutebol durante o estágio, no Algarve, do Radomiak Radom, clube polaco, orientado pelo português Gonçalo Feio que tem vários jogadores que passaram por Portugal e está a lutar pelas competições europeias.

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Quem chegasse àquele campo de treinos, coberto por um estranho nevoeiro matinal raro por essas paragens, facilmente se surpreenderia pela amálgama de idiomas. Ouve-se inglês, espanhol, polaco, mas também (muito) português. A coexistência é pacífica e não parece confundir ninguém: os jogadores cumprem as ordens, posicionam-se a mando do treinador, correm, chutam, riem-se, brincam entre eles. Há espaço para tudo, no meio da neblina que pode não prometer nenhum D. Sebastião, mas anuncia uma certeza: este é o clube mais português da Polónia.

António Ribeiro não esconde o espanto perante a garantia de que, mesmo assim, aquele é capaz de ser o dia com mais sol no Algarve, desde o início do ano. «Jura?», pergunta, incrédulo, ao jornalista.

A resposta afirmativa faz-lhe, mais uma vez, arregalar os olhos. «Mesmo assim, não fazes ideia do frio que está na Polónia», atira António, ele que é uma das personagens principais desta história que pode espantar o mais desatento dos leitores. O que fará um clube polaco no Algarve?

Em rigor, a pergunta até deveria ser ao contrário: o que fazem tantos portugueses num clube polaco? A resposta é bem mais fácil e puxemos do futebolês: espalham magia.

Muita da culpa - no bom sentido - é mesmo de António Ribeiro, filho de um antigo profissional (José João que jogou no Académico de Viseu e na formação do Benfica), tio de outro ex-jogador, primo de um (ainda) futebolista. Como fugir ao destino?

«Há uma ligação muito forte desde sempre», diz, para início de conversa.

Situemos o leitor: estamos no Colina Verde Resort, em Moncarapacho (Olhão), por estes dias quartel-general de um estágio do Radomiak, clube da Primeira Divisão da Polónia que tem dado que falar (estão a dois pontos da Europa e a quatro do 1º lugar, mesmo tendo um dos orçamentos mais baixos do campeonato).

O talento para o futebol, diz António, era «pouco». A paixão pelo desporto, imensa: sem jeito para a bola no pé, formou-se como treinador, ainda esteve no mundo do scouting e foi aí que começou a ligação ao Radomiak, com a intermediação de um jogador: Filipe Nascimento, formado no Benfica.

Dessa temporada - 2020/2021 - até Novembro de 2024, muito se passou, mas a ligação António-Radomiak nunca se perdeu. E ganhou novos voos.

«Nesse mês, recebo um convite para ser diretor desportivo e aceito. Era um desafio novo e nem pensei duas vezes», diz, sem esconder o orgulho - até porque o caminho foi sempre em crescendo.

A aposta nos jogadores portugueses foi-se tornando cada vez mais clara; os objetivos que, aquando da chegada de António ao cargo de chefe de futebol passavam pela manutenção, também foram sendo outros. À boleia de quem? De um outro português, claro está.

 

O mais polaco dos portugueses

Saímos da receção do hotel e acompanhamos António num leve passeio, com destino final traçado - o campo de treinos do Colina Verde Resort.

No caminho, que não dura mais de 5 minutos, a conversa nunca deixa de girar à volta do futebol: falamos de portugueses que jogaram na Polónia, atiramos nomes para "cima da mesa", lembramos eliminatórias de equipas lusas contra polacas nas competições europeias.

«Olha, já temos ali alguém à nossa espera», diz o diretor desportivo. Casaco vestido, chuteiras calçadas, sorriso no rosto, barba farta, Gonçalo Feio surge de quadro tático na mão, pronto a começar mais um treino.

Ele não dura mais de 1h30, mas dá para ver bem o que representa este treinador português para aquele conjunto de jogadores. E vice-versa. Vê-lo a orientar o treino - perdoe a opinião do jornalista - chega a ser um deleite. Não pára um segundo.

«The center-back here!». «Adrian, arriba, Adrian!». «Muito bem, Capita! Fecha por dentro».

O comentário do mister, feito entre risos, é sintomático: «eu costumo dizer que, todos os dias, uso quatro ou cinco línguas de forma quase automática».

 

 

 

 

A saber: polaco, inglês, espanhol e - nos últimos tempos - (muito) português. Vamos aos números - no plantel atual do Radomiak, são quase 10 os jogadores que ou são portugueses ou passaram pelo futebol luso.

Romário Baró (ex-FC Porto), Elves Baldé (ex-Sporting e Farense), Capita (ex-Estrela), Ouattara (ex-Vitória SC, Portimonense e U. Leiria), Maurides (ex-Arouca e B-SAD), Ibrahima Camará (Ex-Boavista e Moreirense), Vasco Lopes (ex-AVS e Farense), João Pedro (ex-Rio Ave) e Luquinha (ex-Santa Clara) compõem o lote desta "mini-armada" lusa que tem deslumbrado o treinador.

«O facto de ser um plantel com muitos portugueses ou jogadores que passaram em Portugal dá-nos a facilidade na compreensão dos conceitos. Pela cultura tática que eles têm. Tendo trabalhado em Portugal, alguns nos grandes, são jogadores com pedigree que têm um entendimento do jogo muito grande», diz Gonçalo Feio.

O mister, que já orientou outros clubes na Polónia (no ano passado, ganhou a Taça ao serviço do Legia), não gosta, todavia, de falar em grupos.

«Não o sinto, sequer. É uma equipa muito entrosada e têm um espírito incrível. É muito fácil treiná-los porque acreditam no seu potencial, querem sempre mais e eu identifico-me com isso», considera.

Os elogios para o plantel, que foi inteiramente montado por António Ribeiro, são uma constante: «viste a qualidade, não viste? Há aqui muita gente de altíssimo nível».

Não há margem para contra-argumentos. O treino demonstra-o; da plêiade de jogadores, há quem salte mais à vista e Vasco Lopes, extremo bem conhecido dos tempos do AVS e Farense, é um deles.

 

Vasco e companhia

Encontramo-lo já no final do treino, sem esconder um aparente nervosismo. «Não costumo ter muito jeito para estas coisas», avisa. A conversa desmente-o por completo.

Esta é a segunda experiência de Vasco Lopes no estrangeiro, depois de uma passagem pelo Akritas (Chipre), em 2022/2023. As diferenças, diz, são abissais.

«É muito diferente. O campeonato polaco tem mais qualidade e estou a gostar muito. As condições também são outras», garante.

Antes de escolher o Radomiak, Vasco Lopes sabia que ia encontrar muitos portugueses. «Isso ajudou a que viesse, claro. Quase que se fala mais português do que polaco no balneário. Qualquer português que chegue, tem uma adaptação fácil», conta.

Quem já lá estava - à cabeça, os 10 polacos que compõem o plantel - aceitou com naturalidade tanto "sangue luso". «Eu até estava à espera que talvez fosse diferente [risos], mas foram muito bons connosco», diz Vasco Lopes.

Até agora, o extremo, que continua a acompanhar todas as partidas do AVS, soma 17 jogos, quase sempre a titular, com três assistências. «Ainda não marquei, mas vou lá chegar. Estou a trabalhar bem e sinto-me cada vez melhor», acredita o extremo.

Um dos seus companheiros no Radomiak é Romário Baró, um dos jogadores com melhor palmarés de todo o plantel.

O seu discurso parece uma cópia do que tem o amigo: a Liga Polaca é diferente da Suíça (onde foi campeão, na época passada, com o Basileia), os portugueses são uma bênção e a escolha pela Polónia foi acertada.

«Está a ser muito bom. Desafiante, mas bom. Damo-nos muito bem entre todos e isso até para o grupo é bom», diz, parcíssimo em palavras.

O estágio no Algarve – por esta altura, o campeonato pára na Polónia devido às temperaturas – está a servir para todos (jogadores, treinador e staff) como preparação para o grande objetivo da temporada. Que ninguém esconde.

«Esta equipa tem estado bem a nível de consistência e acredito que continuará. Eu quero passar a minha vida a jogar competições europeias e acho que muitos jogadores aqui também», diz Gonçalo Feio.

«Nunca joguei competições europeias e isso sem dúvida que é um objetivo. Quero lutar por isso», secunda Vasco Lopes.

«Queremos estar em lugares de competições europeias. Imagino o futuro deste clube em lugares cimeiros», acrescenta António Ribeiro.

E há ainda Emanuel Ribeiro, que falta apresentar, que garante que, ali, todos «dão a vida pelo Radomiak».

Emanuel é um dos treinadores-adjuntos de Gonçalo Feio. Também é português; também se sente em casa, mesmo que a milhares de quilómetros de distância do nosso país.

«Somos a equipa mais portuguesa dentro da Polónia, o que, para mim, também nos dá uma responsabilidade acrescida. É mais um motivo para levar o nosso futebol além-fronteiras», atira.

O momento que se seguiu nem era necessário para se perceber o ambiente familiar que se vive no Radomiak.

«Não reparou no meu apelido? Sou irmão do António, o nosso diretor desportivo, o que também facilita tudo», confessa, a rir, já de microfone desligado.

Estamos mesmo em casa.

Prova final disso foi aquela troca de palavras entre o mister Gonçalo Feio e Capita, angolano e extremo do Radomiak, já no final do treino, seguida de um cumprimento.

«Capita, quando tiver um filho, quero que seja como tu».

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