Acabou. E custa explicar porquê.
Não que Portugal tenha feito um jogo extraordinário: não fez. Mas custa explicar porque dói: a Seleção foi eliminada naquela que foi talvez a exibição mais intensa, mais contundente e mais implicada. Foi eliminada nos descontos, num instante que destruiu um sonho de anos.
Sobretudo de Cristiano Ronaldo, que abandonou o relvado em lágrimas.
E essa é a outra parte que dói. Durante minutos, o capitão circulou pelo relvado apenas com as câmaras a segui-lo. De vez em quando surgia um espanhol para o cumprimentar.
Os colegas, esses, estavam longe. Só muito depois, vários minutos depois, se aproximaram para o saudar. Nélson Semedo primeiro, Rui Silva depois, os outros mais tarde.
Cristiano Ronaldo acabou o Mundial, e uma história gigante na Seleção Nacional, como um homem sozinho, ele e o seu sofrimento. O que só vem provar óbvio: devia ter saído mais cedo. Devia ter-se retirado em alta, quando ainda fazia a diferença e como merecia retirar-se.
Quis ficar, quis ganhar um Mundial, quis marcar mais golos e atingir mais recordes. Está bem, está no direito dele. Mas a verdade que, como se dizia em surdina, Portugal não era uma família assim tão próxima. Cristiano Ronaldo alcançou uma grandeza como nunca visto em Portugal, e talvez no futebol mundial. Mas já não traduzia isso em golos.
Roberto Martínez insistia em mantê-lo em campo, mesmo quando era óbvio que já não estava a dar o que Portugal precisava. O diplomata Roberto Martínez nunca quis entrar em confrontos, não é o estilo dele: é um conciliador, um mediador, um espanhol de consensos.
Mas falhou no consenso mais essencial: o consenso que nos unisse à volta da ideia dele.
Por isso, sim, Portugal está fora do Mundial. Cristiano Ronaldo despediu-se dos Mundiais sem um prémio relevante. E, verdade seja dita, tudo isso está bem. Faz sentido.
A Espanha foi superior, num clássico em que impôs o seu velho vício: esconder a bola, circular, atrair e de repente acelerar. No fundo, esse devia ser o nosso jogo. Pela qualidade dos jogadores que temos, pelo talento do meio-campo, nós devíamos ter sido mais isso do que a Espanha. Mas raramente o fomos e no cômputo geral, os espanhóis foram melhores.
Foi um dérbi ibérico que chegou a ser brutal, disputado à pancada, à corrida e ao encontrão, entre duas equipas com raiva de mostrar o melhor de si. Não houve tempos mortos e quem via o jogo não se deve ter aborrecido.
Houve futebol. Do exigente.
Daquele que obriga as pernas a correr mais depressa do que a cabeça consegue pensar. Houve grandes oportunidades, bolas nos ferros, bolas nas malhas laterais, grandes defesas.
Enfim, houve futebol e houve Mundial.
Até que chegaram os minutos finais e o velho fado lusitano. De recuar, e recuar, e recuar. Faltou, nesse momento, ser mais corajoso. Mais mandão. Mais impositivo. Até porque h´+a qualidade para isso. Mas enfim, parece que tivemos receio e num instante, já nos descontos, Merino entrou pelo meio da defesa para fazer o golo que ditou o fim.
O fim de Portugal, o fim de Ronaldo. O fim que dói tanto.
Que sirva pelo menos para um novo começo.