"Os assessores de Zelensky olham para nós e veem Costa, um candidato a presidente do Conselho Europeu. Isso pesa na visita": Zelensky vem a Portugal - TVI

"Os assessores de Zelensky olham para nós e veem Costa, um candidato a presidente do Conselho Europeu. Isso pesa na visita": Zelensky vem a Portugal

Zelensky discursa no Parlamento português. Foto: DR

Presidente ucraniano adiou há semanas visita a Portugal e Espanha - o avanço russo, nomeadamente em Kharkiv, impediu essas visitas. Mas Zelensky está esta segunda-feira em Espanha e é esperado em Portugal. Ambas as visitas decorrem sob grande secretismo

Nota do editor: este texto foi publicado originalmente a 13 de maio, a propósito da então esperada visita de Zelensky a Portugal (entretanto adiada). É agora republicado porque o presidente da Ucrânia visita Portugal esta terça-feira - esta segunda-feira está em Espanha


Portugal está na rota da “ofensiva diplomática” da Ucrânia. A visita de Zelensky tem ainda outros enquadramentos: o major-general Agostinho Costa sublinha que o líder ucraniano "sabe" bem das capacidades de Portugal e dá como exemplo "drones fornecidos por uma empresa portuguesa que têm sido relevantes" na guerra. E as capacidades portuguesas podem estender-se em breve ao Conselho Europeu, numa eventual presidência de António Costa.

Além de Lisboa, Volodymyr Zelensky foi a Madrid, onde assinou um acordo de segurança - e esse vai também ser um dos resultados concretos dos seus encontros com as autoridades portuguesas, ainda que possa resultar num texto “extremamente vago” e “não muito concreto”, como os acordos já firmados com Itália e o Reino Unido, adianta ainda Agostinho Costa.

“O que interessa é a postura diplomática e a intenção. Esta iniciativa começou já há algum tempo. Zelensky tem vindo a celebrar um conjunto de acordos de segurança bilaterais, começando com o Reino Unido, depois Polónia, Alemanha, Dinamarca, Países Baixos, EUA naturalmente – e virá a Espanha e a Portugal com o grande objetivo de galvanizar os apoios político-diplomáticos para manter robusto o apoio à Ucrânia.” 

Esse é, para Agostinho Costa, “o grande objetivo” da visita de Zelensky, até porque ambos os países são atualmente preponderantes no contexto da futura adesão da Ucrânia à União Europeia (UE). “Estou a especular, mas na mente dos assessores de Zelensky olha-se para Portugal e vê-se um candidato a presidente do Conselho Europeu e isso pesa, além de o atual alto comissário para os Assuntos Externos ser espanhol – são dois países com uma voz relevante na UE.”

Além disso, com estas visitas Zelensky “mata dois coelhos com um só tiro” porque “reforça a frente no plano europeu” e também no que toca à NATO, reforça Agostinho Costa. Com a próxima cimeira da aliança marcada para julho, em Washington - e dado que, face à guerra em curso, a Ucrânia não se pode tornar Estado-membro para já -, o presidente ucraniano procura obter garantias de que algo de concreto sairá desse encontro.

“Foram criadas grandes expectativas pelos países ocidentais quanto a uma possível adesão, ou pelo menos ao estabelecimento de um calendário tendente à adesão. Citando Jens Stoltenberg, a questão não é se a Ucrânia vai aderir, mas quando", explica o major-general Isidro Pereira. "Aquilo que Zelensky está a fazer antes da cimeira é, no bom sentido, uma ofensiva diplomática para que em Washington se possa avançar já com um horizonte temporal para a Ucrânia ser considerada um membro de pleno direito."

No fundo, adianta o militar, Zelensky “vem pedir a Portugal que o apoie neste objetivo, para não sair de Washington com uma mão cheia de nada, para sair da cimeira com algo palpável que possa levar para a Ucrânia como uma vitória, para poder dizer aos ucranianos ‘Valeu a pena o esforço, vale a pena continuarmos a lutar, isto já é mais do que uma esperança, já é uma realidade, vamos ganhar a guerra porque no ano tal vamos finalmente ter uma organização que nos vai dar segurança para o futuro e abrigar de novas aventuras russas no nosso território’.”

Antes do encontro em Washington haverá primeiro a Cimeira de Paz na Suíça, em meados de junho, e esse deverá ser outro dos tópicos na agenda de Zelensky em Lisboa, adianta Ricardo Borges de Castro, conselheiro sénior do European Policy Center. “Nessa cimeira, o Presidente Zelensky gostaria de ter o maior número possível de Estados do ‘Sul Global’ representados, pedindo ajuda a Portugal para sensibilizar o Brasil e outros países da CPLP a participar”, explica. “Aliás, o Brasil já participou numa reunião exploratória com outros países organizada pelos suíços.”

"Portugal tem alguma capacidade e Zelensky sabe-o"

No plano político-diplomático, Portugal pode dar muito à Ucrânia, como “subscrever a entrada na UE sem grandes restrições e dar um apoio inequívoco à entrada na NATO”, explica Isidro Pereira. Mas Kiev também está “naturalmente disponível para receber mais apoio financeiro e militar” e aí Lisboa “pode ainda ceder material à Ucrânia”. O major-general dá como exemplo “as viaturas M-113 que temos em Santa Margarida – algumas a funcionar e, no caso das que não estão, podemos mandar vir as peças dos EUA. Temos capacidade de manutenção e podemos mandá-las para a Ucrânia, até porque um dos objetivos do Exército português é substituir essas viaturas, que já fizeram a guerra da Coreia”.

Nalgumas áreas, “a nossa indústria vai fabricando coisas interessantes, desde os fardamentos a equipamentos individuais de proteção e até alguns drones com alguma qualidade, além desse material em Santa Margarida ao qual se pode devolver operacionalidade” para complementar as viaturas já enviadas para a Ucrânia. “Podemos dar ainda mais coisas e, ao abrigo desse acordo bilateral de segurança, algumas dessas situações podem ser protocoladas” durante a visita de Zelensky.

“No plano militar, em boa verdade, Portugal pode sobretudo apoiar na formação de pessoal, fundamentalmente na transmissão de conhecimento e formação”, acrescenta Agostinho Costa. “Portugal é um país que marca a sua posição” neste ponto e a prová-lo está, por exemplo, o facto de “a GNR ter o comando da atual missão da UE de formação de polícias com natureza militar”.

“Apesar de a base tecnológica e industrial de Portugal não ser comparável à da Alemanha, do Reino Unido, de França, não podemos esquecer, por exemplo, que há drones fornecidos por uma empresa portuguesa que têm sido relevantes [na guerra da Ucrânia], nomeadamente na Crimeia”, explica Agostinho Costa. “Portugal tem alguma capacidade e Zelensky sabe-o.” 

Até se conhecer o potencial acordo bilateral a ser assinado em Lisboa, o grande foco está para já num reforço do consenso ocidental de apoio à Ucrânia, o grande motor desta visita. “Zelensky procura sobretudo galvanizar apoios para agora e para o futuro”, destaca Agostinho Costa. “A Ucrânia vai precisar de bastante apoio diplomático se passarmos para um período de negociações [com a Rússia] – porque esta guerra não há de ser eterna.”

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