Porque sobe mais o preço do gasóleo do que o da gasolina - TVI

Porque sobe mais o preço do gasóleo do que o da gasolina

Combustíveis (Getty Images)

Combustíveis aumentam de preço na próxima semana e o gasóleo é o que mais sobe

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O preço do gasóleo vai subir 23 cêntimos a partir de segunda-feira, enquanto o da gasolina subirá 7,5 cêntimos. Esta subida acentuada - relacionada com o conflito no Irão - vai ter um impacto inevitável na carteira dos consumidores, mas, provavelmente, estará a questionar-se quanto à diferença de valores.

Por que sobe, então, o gasóleo mais 15,5 cêntimos do que a gasolina?

Para a definição do preço dos combustíveis há vários fatores a ter em conta, desde logo o preço do petróleo, cujo valor de referência para a Europa é o barril de Brent. E logo aqui começa a primeira grande subida. A cotação do barril do Brent no final da última semana de fevereiro (dia 27) estava ligeiramente acima dos 68 dólares. Mas com o início dos ataques dos EUA ao Irão, no dia 28, e o encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, a cotação disparou: logo na segunda-feira ultrapassou a barreira dos 80 dólares por barril e, esta sexta-feira, já está muito próximo dos 90 dólares por barril.

A subida da matéria-prima tem influência direta na cotação dos derivados da gasolina e do gasóleo. E é aqui que está uma das principais explicações para que a subida do gasóleo seja maior do que a da gasolina. Segundo fonte do mercado à CNN Portugal, a subida dos derivados do gasóleo ao longo desta semana, comparando com a anterior, foi substancialmente superior ao da gasolina.

O poder da cotação dos derivados e do frete

Outro fator importante é a desagregação das várias componentes do preço do gasóleo e da gasolina à venda em Portugal. Segundo dados da ERSE, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, a cotação dos derivados de combustível e do frete (o custo de transporte da matéria-prima) é bastante diferente nos dois: no preço do gasóleo pesa cerca de 32%, enquanto na gasolina pesa à volta de 27%. Logo, uma subida da componente cotação e frete tem mais impacto no preço de venda ao público do gasóleo.

Para a definição do preço dos combustíveis conta ainda a cotação do euro face ao dólar. O analista da XTB Vítor Madeira explica que "pode ter algum impacto" no preço dos combustíveis na Europa o facto de o barril de Brent ser negociado em dólares.

"O euro está a desvalorizar face ao dólar, o último máximo recente ocorreu no dia 27 de janeiro quando o euro perdeu 4,1% face ao dólar", aponta Vítor Madeira, lembrando que isto "significa que, para a Europa, como vai importar o petróleo em dólares, fica ainda mais caro, porque o euro vale menos do que valia".

Para além disto, a Europa, tal como acontece no mercado português, é deficitária em gasóleo e excedentária em gasolina e adquire 30% do diesel de países do Golfo Pérsico (navios que passam via Estreito de Ormuz).

Estas cotações europeias fazem com que, perante uma subida do barril de Brent, o preço da gasolina suba em linha com o aumento do custo do crude e que, por outro lado, o preço do gasóleo seja inflacionado para além do valor da subida do crude.

O que vai acontecer ao preço do barril nos próximos dias?

O barril de petróleo, que estava nos 68 dólares antes do início dos ataques ao Irão no último sábado, ultrapassou  já "uma linha técnica importantíssima": os 84 dólares. Vítor Madeira acredita que, com a "força a que o preço do barril de petróleo está a subir", a probabilidade de atingir a zona entre os 92 e 95 dólares por barril de Brent na próxima semana é "alta, a não ser que algo aconteça no fim de semana". "Ou seja, diria que é mais provável que chegue do que não chegue", antecipa o analista da XTB, fazendo a ressalva de que estamos a falar de mercados voláteis e, como tal, até pode acontecer que "o preço caia já na segunda-feira", mas é menos provável.

O último grande pico no preço do crude ocorreu na sequência da invasão da Ucrânia, quando o barril de Brent atingiu mesmo os 130 dólares. Vítor Madeira duvida que o cenário se volte a repetir, dado que agora os "stocks de petróleo estão elevadíssimos".

"Diria que é muito improvável que chegue a esse nível, pelo menos, para já e tão rápido. Mas, lá está, tudo é possível. Nunca digo que nada é impossível. Isto é um mercado, tudo é possível", sublinha o analista de mercados.

A reabertura da rota marítima através do Estreito de Ormuz seria uma das principais armas contra este aumento repentino do preço do barril de Brent, porque "aí já ia fazer uma pressão descendente". "No entanto, da maneira que o mercado tem estado a reagir esta sexta-feira, depois do que Trump disse e fez, diria que o mercado já sabe que isso não vai acontecer. O mercado está sempre à frente, já sabe, já tem informação mais à frente do que a nossa, está um passo à frente", indica Vítor Madeira.

Perante, os aumentos bruscos dos preços dos combustíveis em Portugal, o Governo anunciou esta semana que vai avançar com um desconto temporário do ISP para compensar aumentos de combustível caso a subida ultrapasse os 10 cêntimos em relação à semana anterior.

Em comunicado, o Ministério das Finanças escreve que "dando cumprimento ao apoio anunciado pelo Executivo esta semana, aplicar-se-á um desconto extraordinário e temporário do Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) sobre gasóleo rodoviário no valor de 3,55 cêntimos por litro, devolvendo aos contribuintes a receita adicional do IVA correspondente ao aumento esperado do preço".

Ou seja, o gasóleo vai subir 23,4 cêntimos por litro e o governo devolve 3,55. No final, o gasóleo sobe 19,85 cêntimos. Já a gasolina vai aumentar 7,4 cêntimos por litro e não terá nenhum desconto, já que fica abaixo do limite de 10 cêntimos definido.

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