Marcelo, the sound of violins long before it begins - TVI

Marcelo, the sound of violins long before it begins

    Sebastião Bugalho
    Comentador
  • 12 mar 2023, 17:28
Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa (Tiago Petinga/Lusa)

O sétimo aniversário de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente é, desde logo, a sua chegada ao limite do que ele próprio julga o mais indicado para exercício das suas funções. E, justamente por isso, não se fez rogado. A entrevista à RTP foi uma exibição de supremacia analítica, de plenitude de talentos, de memorização e informação invejáveis. No fundo, de ginga. Marcelo gingou.

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Se tudo corresse bem, estaria prestes a acabar. Ou melhor, se tudo corresse como Marcelo sempre defendeu, estaria a ir-se embora. O professor, velho apologista de mandatos-únicos na Presidência, estaria neste momento de saída do Palácio de Belém. Sete anos e uma só ida às urnas é não só o que Marcelo Rebelo de Sousa preferiria como até o que o seu partido, o PSD, recentemente avançou como proposta de revisão constitucional.

Se assim fosse, estaríamos, neste momento, a preparar-nos para o regresso de Marcelo Rebelo de Sousa à vida civil (eventualmente tão animada quanto a sua chefia do Estado) e para o ingresso do seu sucessor ‒ seja ele (ou ela, como o próprio apontou há dias) quem for.

Não estamos, todavia, aí ‒ ainda que todas essas questões estejam já presentes nas arestas do nosso quadro político. O Presidente da República encontra-se no terço final da sua década e a entrevista quase monologar que concedeu este mês deve ser olhada, em primeiro lugar, no tempo, na data, na ocasião. Não é acaso ou coincidência que Marcelo dê início à sua tour de despedida ‒ à sua última volta na pista, se quisermos ‒ com um momento como aquele que vimos nos ecrãs da RTP.

O seu sétimo aniversário como Presidente é, desde logo, a sua chegada ao limite do que ele próprio julga o mais indicado para exercício das suas funções. E, justamente por isso, não se fez rogado. A entrevista à RTP foi uma exibição de supremacia analítica, de plenitude de talentos, de memorização e informação invejáveis. No fundo, de ginga. Marcelo gingou.

Como cantava Dean Martin nos anos 50: I can hear the sound of violins, long before it begins. Marcelo, versão Sway, seguiu a letra. Nas entrelinhas, debaixo do óbvio, estava lá tudo ‒ o som da música antes de ela sequer começar.  

Na partitura do Presidente, há compassos de espera, ecos e ensaios, mas há sobretudo um início de fim, o prenúncio de uma continuidade que já não contará com ele como protagonista.

Arriscando um pouco mais e incorporando o dom, deu-se quase a entrega da década. Uma capitulação, mas com estilo. Uma rendição dos seus dez anos (2016-2026) ao eterno companheiro dessa rota ‒ o primeiro-ministro ‒, como que dizendo: tentei de tudo, vou ajudando, já vi que não dá para mais, mas que também não há melhor. Um acenar de bandeira branca digno, de bem com isso, sorridente. Uma resignação, sim. Uma frustração, nunca. Ou vice-versa.

Não mais do que a realidade

Para os mais imediatistas, Marcelo foi muito duro com o Governo (“maioria cansada e requentada”) e até com a oposição (“há uma alternativa aritmética, não política), mas as apreciações mais citadas foram invariavelmente aquelas em que o Presidente foi mais objetivo.

Que a maioria absoluta demorou a arrancar é uma evidência; da tomada de posse ao Orçamento de 2022 tudo se atrasou. Que o primeiro ano do terceiro governo correu mal é outra evidência; Carlos César, Santos Silva e António Costa admitiram-no publicamente, o Presidente não fez mais do que isso. Que a direita cresce, mas a vontade de substituir o Governo tarda não é sequer um palpite; é o que mostram as sondagens.

Mais do que uma vez, Marcelo diz o que está à vista de todos e essa constatação é tomada como validação, quando não o é. Observadores natos dão-no como incoerente, (“se achava isto porque não fez nada?”, “se o Governo era tão mau porque o protegeu”?) quando a natureza da realidade política é essa ‒ a mudança ‒ e a sua interpretação do cargo é esta: ter a mão por baixo, e a vista em cima.

Um dos erros de perceção mais comuns em relação ao Presidente, com alguma culpa do próprio, é que ao narrar tudo o que está diante de nós aparenta inconsistência sobre quem está por trás do ocorrido. Confere uma ideia errática da sua ação, frequentemente referida por eufemismos como “uma no cravo, outra na ferradura”, “qual rei Salomão”, “sentado no muro, entre um lado e o outro”, quando é isso, mas é também mais do que isso.

Nas entrelinhas

Num muro ou num farol, o que o Presidente quis dizer é tão relevante quanto o que deixou dito. Marcelo demoliu o primeiro ano do Governo, é verdade, mas ao mesmo tempo esvaziou o balão da contestação social das últimas semanas, decretando que não há um ambiente de crispação generalizado no país. Marcelo encostou Fernando Medina à parede, recomendando uma introspeção sobre o seu passado, mas deu pela primeira vez a entender que a saída do ministro das Finanças não levaria à queda do Governo.

Se Pedro Nuno Santos, “o ministro mais importante” até então, se demitiu e o Governo continuou, logicamente que não seria o desaparecimento de Medina, “hoje o ministro mais importante”, a causar a interrupção da legislatura.

O Presidente foi cristalino: na sua ótica, o mais preocupante não são as consequências (possíveis demissões), são os efeitos (a eventual ingovernabilidade).

“Se não conseguissem aprovar orçamentos”, apontou, como condição para dissolver o parlamento, quando os 120 deputados do PS são mais do que suficientes para aprovar todos os orçamentos do Estado até 2026, como Marcelo está cansado de saber. Ou “se o maior partido da oposição tiver o dobro da soma dos partidos do seu espaço político”, acrescentou, sendo essa hipótese francamente remota nas europeias que se avizinham, em que o Chega e a IL prejudicarão o score do PSD, como Marcelo também sabe de cor e salteado.

Os melões e o melão

A entrevista é de uma dança tal que, talvez propositadamente, serve todos os gostos sem afrontar imperdoavelmente ninguém. Veja-se a bicada ao pacote de habitação do PSD, que não foi mais do que uma forma de perder minutos e minutos a promover as medidas de Luís Montenegro de que ninguém praticamente havia ouvido falar. Veja-se como para uns comentadores “se o Presidente tivesse redes sociais estaria ‘numa relação com o Governo’ e para outros “poderia ter criado uma crise institucional” com o mesmo Governo.

Nessa dança, nesse sway, há nuances que são mais do que recados (“o SNS tem de ser repensado rapidamente”) e conselhos que já desistiu de ver escutados (“votar leis a correr é que não”), mas há, sobretudo, um reconhecimento do que temos pela frente ‒ mesmo quando a Presidência deixar de ser sua. As mudanças no sistema político português, em particular à direita, e as consequências da lentidão dos governos, em particular daqueles com que conviveu, não se esgotarão no seu mandato.

É essa a música que Marcelo ouve antes de a orquestra a tocar. E foi isso que ali nos disse, com toda a estima. Eu vou. Vocês ficam. E isto fica convosco.

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