Dias antes de o livro de memórias do príncipe Harry, “Na Sombra”, ser oficialmente publicado, a 10 de janeiro, detalhes escandalosos do livro fizeram manchetes em todo o mundo. O The Guardian teve o primeiro furo: a descrição de Harry de uma luta física com o seu irmão, o príncipe William, que resultou numa tigela do cão estilhaçada e num colar partido.

Pouco tardou até ouvirmos mais excertos: o pénis congelado de Harry (ou “todger”, como ele lhe chamava) no dia do casamento do seu irmão, a sua confissão de que consumiu cocaína e a história de como tinha perdido a virgindade num campo com uma mulher mais velha misteriosa que lhe bateu no rabo.

Não é de surpreender que estas manchetes não captem a história toda. “Na Sombra” é uma triste leitura sobre um homem que está claramente ferido. Um homem que, por acidente de nascimento e por tragédia, nunca teve o controlo total sobre a sua própria vida.

A narrativa central das memórias é a de que, apesar de ter nascido num imenso privilégio, o príncipe Harry é também uma vítima. Desde tenra idade, ele lembra-se de saber que existia só para o caso de alguma coisa acontecer a William. (Em criança, ele chegou a acreditar que estava cá para fazer doações de órgãos no caso de o herdeiro ao trono as exigir.)

À medida que crescia, foi assediado pelos mesmos tabloides que perseguiram a sua mãe, a princesa Diana. Harry fala de como criaram para ele a marca de “príncipe malandro”, "príncipe bronco" ou fizeram dele um viciado em drogas. E escreve que um dos editores dos tabloides alegadamente tentou “chantageá-lo” e passou a trabalhar para o seu pai e madrasta. (Carlos e Camilla não comentaram publicamente a alegação.)

Agora que a relação de Harry com a sua família e a imprensa britânica se deteriorou, os adjetivos que são frequentemente utilizados para o descrever são ainda menos lisonjeiros: mole, frágil, suscetível, mimado e rancoroso.

Harry ao lado do seu pai, então o príncipe Carlos, e do seu irmão William. Arquivo Getty Images

A cobertura mediática racista e misógina que a mulher de Harry, Meghan Markle, tem experimentado está bem documentada no livro. Mas o que é debatido com menos frequência é como a própria masculinidade de Harry é usada contra ele. De facto, as expectativas de género sobre o comportamento de Harry são um dos principais motivadores de grande parte do vitríolo que recebeu.

O príncipe Harry vem de uma longa linha de homens militares que se orgulharam de adotar uma atitude de resistir e seguir em frente. Essa foi uma imagem que o seu avô, o príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, estava particularmente interessado em apresentar de si próprio, à medida que manteve as suas obrigações reais até meados dos anos 90.

Visto através deste prisma, queixar-se é considerado feminino e fraco. Harry aludiu ele próprio a isto, fazendo uma distinção entre o “Harry Institucional” e o “Marido Harry” – sendo este mais emocional.

Fora da instituição real, tem havido uma mudança cultural no sentido de encorajar os homens a falar sobre os seus sentimentos e saúde mental. O livro “Na Sombra” leva-nos a entrar no processo em que o príncipe faz exatamente isso. E depois de examinar algumas das formas sobre como crescer na instituição real o prejudicou, com a ajuda de um terapeuta, ele parece ter preferido o “Marido Harry” ao “Harry Institucional”.

A tensão entre as duas personas do príncipe é um microcosmo de um choque cultural mais amplo entre diferentes versões de masculinidade. Na chamada “guerra cultural” em que os Sussex se viram envolvidos, a masculinidade milenar tornou-se um campo de batalha-chave.

Harry e Meghan no jubileu de platina da rainha Isabel II, Londres, junho de 2022. Foto Getty Images

Uma série de políticos e comentadores conservadores uniram-se em torno da ideia de que os jovens de hoje já não são, como eles poderiam dizer, “homens de verdade”. Em 2020, o influente conservador Will Witt proferiu uma palestra na Universidade de Denver intitulada "Make Men Masculine Again", “Façam os Homens Masculinos Outra Vez”, na qual argumentou que o facto de os homens já não serem masculinos estava a causar problemas sociais profundos.

O livro do senador republicano Josh Hawley, “Manhood: What America Needs, [à letra, ”Masculinidade: O que a América Precisa"], que está prestes a ser publicado, apela igualmente aos homens americanos para que “se levantem e abracem a sua responsabilidade dada por Deus enquanto maridos, pais e cidadãos".

No Reino Unido, o ativista político de direita Laurence Fox foi ridicularizado por lamentar o facto de os homens já não serem “duros”, escrevendo no Twitter: “Tempos maus fazem homens duros. Homens duros fazem tempos bons. Bons tempos fazem homens moles. Homens moles fazem tempos maus. Estamos em tempos maus. Precisamos de HOMENS."

Laurence Fox tem sido criticado por afirmar que a sociedade quer "cortar os tomates aos homens" e descrever os homens de quem discorda como sendo "woke cucks”, que em inglês se refere a homens que são dominados (ou traídos) pelas mulheres e todos sabem.

Mas uma linguagem semelhante tem alimentado a afirmação perturbadora de influenciadores "ultra-masculinos" como Andrew Tate. O antigo kickboxer britânico construiu uma lucrativa plataforma de redes sociais afirmando que pode ensinar homens a serem “alfas”. Em alguns dos seus vídeos, vangloriou-se de asfixiar e bater em mulheres. Ao lado do seu irmão Tristan, Tate foi preso na Roménia numa investigação de tráfico sexual e violação, em dezembro. O seu advogado, Eugen Vidineac, afirmou que ambos os irmãos rejeitam as alegações.

Para estes autoproclamados salvadores da “verdadeira” masculinidade, feministas como Meghan Markle são o inimigo principal. Mas a hostilidade é reservada também aos chamados machos “beta”, que não subscrevem a sua visão do mundo.

Em “Na Sombra”, Harry recorda-se de ter visto um desenho animado, num dos jornais britânicos, que o retratava com uma trela de cão que a sua mulher segurava. Ele descreve isto como uma misoginia de “manual”, que culpa uma mulher por decisões dele. Mas aquele era um exemplo clássico também porque procurava emasculá-lo por se recusar a participar na opressão das mulheres - uma tática-chave utilizada para manter a misoginia.

Da mesma forma, Jeremy Clarkson apelidou Harry de “Harold Markle” na sua agora infame coluna de jornal, onde escreveu que queria ver Markle a desfilar nua pelas ruas e a ser alvo de excrementos. Mais tarde, o jornal Sun retirou a coluna e pediu desculpa. Mas este é apenas mais um exemplo de como a demonização de Markle anda de mãos dadas com a “castração” habitual do seu marido.

O facto de homens mais velhos como Clarkson, e o proeminente crítico dos Sussex Piers Morgan, se esforçarem por ridicularizar o príncipe Harry, parece estar ligado à sua abertura sobre ser um homem que está em terapia psicológica. Os meios de comunicação social de direita fizeram da chamada “indústria da terapia” um alvo e frequentemente caracterizam a terapia como uma prática autoindulgente.

Na véspera da publicação de “Na Sombra”, a instituição real pareceu alimentar esta narrativa, quando informou os jornalistas de que o príncipe Harry foi “raptado pelo culto da psicoterapia”. Neste enquadramento, um homem que se apresenta como vítima, ou prejudicado de qualquer forma, é equiparado com fraqueza e narcisismo.

Nas redes sociais, vou sentindo um sentimento de cansaço à medida que os Sussex continuam a partilhar a sua história por tantos meios diferentes. “Na Sombra” já se tornou o livro de não-ficção mais vendido de sempre no Reino Unido, mas a maioria das pessoas formará a sua opinião com base nos excertos do livro de memórias que os meios de comunicação social ou os utilizadores das redes escolherem para eles.

Mas além das memórias sobre o príncipe a esfregar creme Elizabeth Arden no seu pénis congelado, ou a procurar no Google cenas de sexo da sua futura mulher na TV, “Na Sombra” é a história sobre um homem de um imenso privilégio que está pelo menos a tentar ser melhor - mesmo que isso signifique ir contra as instituições e convenções sociais que o beneficiaram anteriormente.

Sim, este livro é ocasionalmente contraditório, descolado da realidade quotidiana e apresenta muitos pormenores que eu teria preferido não saber. (Para alguém como Harry, que denuncia muitas vezes editores de tabloides, foram aqui incluídos muitos detalhes que parecem feitos à medida para os fazer salivar.)

E sim, uma pausa sobre o que se diz dos Sussex seria muito bem-vinda. Mas não consigo afastar a sensação de que, para os seus detratores mais barulhentos, isto é maior do que o príncipe Harry. Os seus críticos mais virulentos sentem-se ameaçados e traídos pela versão da masculinidade moderna que ele representa - uma versão que, como o próprio príncipe, está a tentar libertar-se do seu passado.

CNN / Louis Staples