As revelações do príncipe Harry surgem em catadupa. O livro de memórias do duque de Sussex tinha data de publicação anunciada para a próxima terça-feira, mas o seu conteúdo tem vindo a público através de várias publicações internacionais que tiveram acesso ao livro e, em Espanha, a obra foi mesmo colocada à venda cinco dias antes, para espanto dos jornalistas.

A primeira acusação a vir a público foi a de que o príncipe William o terá agredido fisicamente numa discussão em 2019, na Nottingham Cottage, depois dos irmãos terem discordado sobre Meghan Markle. As acusações não parecem ajudar a qualquer clima de reconciliação entre os diversos membros da família real.

Depois disso, as revelações sucedem-se, com o príncipe a contar que o pai, o rei Carlos III, pediu aos irmãos para não transformarem os seus "últimos anos numa miséria". Para além do livro, também as sucessivas entrevistas têm ajudado nas revelações do duque de Sussex, que em conversa com Tom Brabdy não se comprometeu com a presença na coroação do pai em maio deste ano.

Mortes no Afeganistão

O jornal The Telegraph, que teve acesso a uma cópia do livro em espanhol, avança que o príncipe Harry afirma ter matado 25 pessoas no Afeganistão enquanto estava ao serviço do Exército Britânico no Afeganistão, dizendo mesmo que os alvos nas linhas inimigas não eram vistos "como pessoas", mas como "peças de xadrez". 

"Em condições de batalha, disparamos de forma indiscriminada frequentemente. No entanto, na era dos Apaches e dos computadores portáteis, tudo o que fiz no decurso de duas viagens de serviço foi registado e registado no tempo. Sempre soube dizer exatamente quantos combatentes inimigos tinha matado. E pareceu-me essencial para mim não ter medo desse número. Entre as muitas coisas que aprendi nas Forças Armadas, uma das mais importantes era ser responsável pelos meus próprios atos. Assim, o meu número: 25. Não era algo que me enchesse de satisfação, mas também não tinha vergonha. Naturalmente, teria preferido não ter esse número no meu currículo militar, ou na minha cabeça, mas também teria preferido viver num mundo sem os talibãs, um mundo sem guerra. No entanto, mesmo para um praticante ocasional de pensamento positivo como eu, há realidades que não podem ser mudadas", escreve o duque de Sussex, que completou duas missões no Afeganistão, uma entre 2007 e 2008 e outra entre 2012 e 2013. 

O duque revela ainda que costumava assistir às imagens dos ataques quando regressava à base, que eram capturadas através das câmaras instaladas no nariz dos helicópteros Apache, e que no “barulho e confusão do combate” via aqueles que matava como os “bandidos eliminados antes que pudessem matar os bons”.

Consumo de drogas

Outra das revelações feita pelo príncipe Harry envolve o consumo de drogas durante a adolescência. De acordo com a Sky News, nas páginas 112 e 113, o duque de Sussex descreve que experimentou cocaína pela primeira vez aos 17 anos. 

"Claro que andava a consumir cocaína naquela época. Na casa de alguém, durante um fim de semana de caça, ofereceram-me uma linha, e desde então eu consumia um pouco mais. Não era muito divertido, não me fazia sentir especialmente feliz como parecia acontecer com os outros, mas fazia-me sentir diferente e isso era o meu objetivo principal. Sentir. Ser diferente. Eu era um jovem de 17 anos disposto a experimentar quase tudo que alterasse a ordem pré-estabelecida. Pelo menos, era disso que me tentava convencer". 

Para além da cocaína, o príncipe admite ainda ter consumido canábis e cogumelos mágicos e, segundo o The Telegraph, garante que as drogas psicadélicas o ajudaram a "ver a verdade" e "outro mundo onde a névoa vermelha não existia". Harry escreve mesmo que as drogas o ajudaram quer a fugir como a "redefinir" a realidade.

A princesa Diana

Príncipe Harry com a mãe, a princesa Diana

De acordo com a imprensa britânica, o livro é dedicado a "Meg, Archi e Lili... e claro, à minha mãe." E, sobre a mãe, Harry escreve que consultou uma mulher "com poderes", que lhe transmitiu uma mensagem da princesa Diana, noticia o The Guardian

"Estás a viver a vida que ela não teve... Estás a viver a vida que ela queria para ti", escreve Harry sem nunca se referir à mulher como "medium", mas reconhecendo a "hipótese de alta percentagem de fraude".

Harry revela ainda que se emocionou quando a mulher lhe disse que a mãe estava "com ele" e que sabia que ele "estava à procura de clareza", dizendo-lhe ainda que as respostas "para as suas muitas perguntas" chegariam com o tempo.

O duque de Sussex revela ainda como foi informado da morte da mãe pelo pai. Harry, que tinha 12 anos quando a mãe morreu, revela que o pai se sentou no fundo da sua cama, lhe chamou "querido filho" e lhe explicou que tinha havido um acidente de carro e que a mãe não tinha sobrevivido aos ferimentos. 

O príncipe diz ainda que não chorou e que o rei Carlos III não o abraçou, colocando apenas a mão no seu joelho e dizendo-lhe que tudo iria ficar bem. Harry diz ainda que, nesse momento, percebeu que o pai já tinha dado a notícia a William.

Viagem pelo túnel

O livro de memórias de Harry parece repleto de histórias que envolvem a princesa Diana. Num dos capítulos, contado pela BBC, o príncipe Harry recorda a vez em que pediu ao seu motorista para replicar a viagem em que morreu.

Harry, na altura com 23 anos, estava em Paris para a semi-final do Campeonato Mundial de Rugby de 2007, tendo pedido ao motorista para conduzir através do túnel Pont de l'Alma à mesma velocidade que o carro que transportava Diana e Dodi Fayed, antes de se despistar, em agosto de 1997.

Como se questionasse o acidente, Harry diz que o carro em que seguia "passou pelo Ritz", onde Diana teve a sua última refeição, e que passou pela lomba que fez com "que o Mercedes da mãe se desviasse da rota", mas que não fez "nada" e ele "mal o sentiu".

O príncipe diz ainda esperava que a viagem lhe trouxesse algum esclarecimento, mas que acabou por ser apenas "uma ideia muito má". 

Casamento de Carlos com Camilla

A relação entre Harry e William é agora distante, mas antes do casamento de Harry com Meghan os dois irmãos mantinham uma relação bastante próxima. Uma das provas disso é a frente unida que mostraram quando o pai tornou pública a sua relação com Camilla Parker Bowles. Segundo o The Sun, que também conseguiu uma cópia do livro em espanhol, Harry revela que os dois irmãos "imploraram" ao pai para que não casasse com Camilla, uma vez que temiam que ela se tornasse numa "madrasta malvada”.

Harry recorda que ele e o irmão disseram ao pai que iriam acolher Camilla na família, mas que lhe pediram que não casasse com ela, chamando-lhe "a outra mulher".

"Lembro-me de me questionar... se ela seria cruel comigo; se ela fosse como todas as madrastas malvadas das histórias. Willy há muito desconfiava da outra mulher, o que o confundia e atormentava. Quando essas suspeitas se confirmaram, ele sentiu remorsos agonizantes por não ter feito ou dito nada antes", recorda, comparando o primeiro encontro com a madrasta como o dia em que se vai levar uma vacina.

Certo é que Carlos e Camilla acabaram por casar em 2005, com William e Harry entre os convidados, e Camilla é agora rainha-consorte. 

No entanto, as críticas à madrasta não se ficam por aqui. Harry acusa ainda Camilla de "desenvolver uma estratégia" para entrar para a família e de divulgar detalhes das conversas privadas à imprensa.

"Pouco depois dos nossos encontros privados com ela, ela começou a desenvolver a sua estratégia a longo prazo, uma campanha dirigida ao casamento e com o tempo, à Coroa (com a bênção do nosso pai, supunhamos). As notícias começaram a aparecer em todos os jornais sobre as suas conversas com William, histórias que contavam muitos pequenos detalhes, nenhum dos quais veio do meu irmão, é claro", escreve Harry.

O fato de nazi

Em 2005, Harry envolveu-se numa grave polémica ao usar um uniforme nazi para uma festa. O príncipe acabou por ser fotografado com o disfarce e as imagens encheram as capas dos jornais. Um episódio que manchou a reputação do filho mais novo de Carlos III e que Harry já assumiu que foi "um dos maiores erros da sua vida".

Depois de ter falado sobre o momento no documentário da Netflix, Harry abordou a questão no livro, dizendo que William e Kate o ajudaram a escolher entre o infeliz fato e outro de piloto.

"Telefonei ao William e à Kate e perguntei-lhes o que achavam. Uniforme nazi, disseram", escreve Harry, segundo a revista Page Six que também teve acesso ao livro.

O príncipe acrescenta que quando chegou a casa experimentou o fato. "Ambos uivaram. Pior do que a roupa do Willy! Muito mais ridículo! O que, mais uma vez, era o objetivo".

William, o "arqui-inimigo"

“Há uma citação no livro onde se refere [a William] como o seu “amado irmão e arqui-inimigo”. Palavras fortes. O que quis dizer com isso?". A questão, feita por Michael Strahan, jornalista do Good Morning America, numa nova entrevista para promoção do livro que será transmitida na segunda-feira.

"Sempre houve uma competição entre nós, estranhamente. Acho que realmente segue ou sempre seguiu a relação “herdeiro/substituto”, afirma Harry.

Strahan questiona ainda Harry sobre o que pensaria a mãe sobre a relação atual dos filhos, mas que saberia que "há certas coisas que precisam de passar".

"Penso que estaria triste. Penso que ela estaria a olhar para a relação a longo prazo para saber que há certas coisas que precisamos de passar para podermos curar a relação".

A virgindade

No seu livro de memórias, que acaba por ser uma autobiografia, o príncipe Harry conta ainda como perdeu a sua virgindade com uma "senhora mais velha" que "gostava muito de cavalos". 

De acordo com a Sky News, o duque de Sussex descreve o momento como "um episódio humilhante" e revela que este teve lugar "num campo". "Um dos meus erros foi deixá-lo acontecer num campo, mesmo atrás de um bar movimentado. Sem dúvida que alguém nos tinha visto".

A morte dos avós

A morte do duque de Edimburgo já tinha sido abordada pelos duques de Sussex no documentário da Netflix, mas no livro o príncipe Harry revela que, dias antes do funeral do avô, acordou com "32 chamadas não atendidas" e teve uma curta conversa com a rainha Isabel II, que o informou da morte de Philip.

"Harry, o avô morreu", ter-lhe-à dito a avó.

Para além da forma como foi informado da morte do avô, Harry recorda ainda a forma como soube que a rainha Isabel II tinha morrido. Segundo as suas memórias, o príncipe diz que soube do sucedido através do site da BBC.

"Quando o avião começou a aterrar, vi o meu telemóvel a iluminar-se. Era uma mensagem da Meg: 'Liga-me assim que leres isto'. Verifiquei a homepage da BBC. A minha avó tinha morrido. O meu pai era o rei. Coloquei uma gravata preta e saí do avião para os fortes chuviscos", escreve.

Harry diz ainda que o pai lhe disse que Meghan não era bem-vinda a Balmoral. 

"Então o meu pai telefonou-me novamente. Disse-me que eu era bem-vindo em Balmoral, mas... sem ela. Começou a explicar-me as suas razões, mas elas não faziam qualquer sentido, e foi também desrespeitoso. Não o tolerei da parte dele. 'Nem pense em falar assim da minha mulher'. Arrependido, ele disse, gaguejando, que simplesmente não queria que o lugar estivesse cheio de gente. Não ia nenhuma esposa, nem mesmo Kate, disse-me, por isso Meg também não devia ir", recorda.

Quando chegou a Balmoral, Harry diz que se despediu da avó, que lhe sussurrou que "esperava que estivesse feliz e com o avô" e que lhe disse ainda que a "admirou por ter cumprido os seus deveres até ao fim da vida". 

Cérebro de grávida

No livro, também as polémicas que envolvem Meghan são abordadas. Segundo Harry, citado pela Page Six, Kate Middleton terá "colocado" Meghan "no lugar" depois da duquesa de Sussex ter afirmado que a mulher do príncipe William tinha "cérebro de grávida" pouco antes do casamento dos Sussex.

A princesa de Gales tinha acabado de ser mãe do príncipe Louis e, numa discussão sobre os detalhes do casamento, Meghan terá dito a Kate que esta "deveria ter cérebro de grávida por causa das hormonas". 

"Houve uma discussão sobre o momento do ensaio do casamento e os vestidos de menina das flores e Kate ficou muito perturbada", escreve o príncipe Harry.

Meghan terá sido repreendida por Kate, que lhe disse que não eram suficientemente próximas para fazer um comentário daqueles. Por sua vez, Markle ficou "ofendida" com a repreensão.

James Hewitt

Um dos rumores que envolve o príncipe Harry desde a sua infância é de que será filho do major James Hewitt. No livro, o duque de Sussex fala, pela primeira vez, sobre o tema, questionando se este rumor foi usado para o retratar como um "motivo de riso", dizendo mesmo que não parecia importar que a mãe só tivesse conhecido Hewitt depois do seu nascimento.

"O rumor que circulava na altura de que o meu verdadeiro pai era um dos ex-amantes da minha mãe: major James Hewitt. Uma das causas do boato era o cabelo ruivo do major Hewitt, mas outra era o sadismo. Os leitores de tablóides adoraram a ideia de que o filho mais novo do príncipe Carlos não era filho dele. Nunca se cansaram dessa 'piada', por alguma razão", escreve.

Harry diz mesmo que a curiosidade era tanta que alguns jornais chegaram ao ponto de "caçar" o seu ADN "para verificar", dizendo mesmo que acreditava que depois de terem "torturado" a princesa Diana por ter escondido a paternidade de Harry, o iriam torturar a ele.

Andreia Miranda