Quase uma semana depois do lançamento do livro e das várias entrevistas sobre o mesmo, o príncipe Harry continua a dar que falar sobre as revelações que fez em "Na Sombra". 

Em entrevista ao The Telegraph, o duque de Sussex garante que a publicação de quase 500 páginas (na versão portuguesa do livro) de memórias é a tentativa de "alguém que gosta de resolver as coisas" e que está a tentar salvar a família real "dela mesma".

"Se eu vir um comportamento errado e um padrão de comportamento que esteja a prejudicar as pessoas, farei tudo o que estiver ao meu alcance para tentar mudá-lo", garante Harry.

E é por isso que, confessa, continua preocupado com os outros "substitutos" da família: George, Charlotte e Louis. No entanto, apesar da preocupação, já foi avisado por William que esse não é o seu trabalho.

"Como sei muito bem, dentro da minha família, se não formos nós, vai ser outra pessoa. E embora William e eu tenhamos falado sobre isso uma ou duas vezes, e ele me tenha deixado muito claro que os seus filhos não são da minha responsabilidade, continuo a sentir uma responsabilidade sabendo que dessas três crianças pelo menos uma acabará como eu, o substituto. E isso dói, isso preocupa-me."

A preocupação é, aliás, expressa ao longo de toda a entrevista. Harry explica que sempre foi visto como aquele que "quebrou o ciclo", principalmente porque, ao contrário da família, não "aprendeu a aceitar o drama como parte da vida".

Ao longo do livro, Harry conta por diversas vezes como a morte da mãe o marcou - a presença de Diana é lida em quase todas as páginas de "Na Sombra" - e como lidou com a sua ausência ao longo da vida. O duque de Sussex revela mesmo que durante muito tempo se recusou a acreditar que a mãe estava morta, mantendo-se num estado de negação por vários anos, e encarando várias experiências que passou como mensagens da mãe.  

No entanto, o facto de ter colocado essas memórias a nu no livro - como o dia em que, com 15 anos, numa caçada em Balmoral colocou a cabeça dentro da carcaça de um animal morto -  fizeram com que muitos lhe apontassem o dedo e dissessem que estava a encarnar o papel de vítima.

"É interessante porque muitos desses momentos fizeram de mim o homem que sou hoje. Será que o Archie teria coragem de enfiar a cara numa carcaça? Talvez não. Mas as pessoas que viveram traumas lidam com ele de várias maneiras. Penso que quando se trata de mim e do William, a parte fascinante é que ambos vivemos uma experiência traumática similar. Ele queria falar sobre isso quando éramos mais novos, o que criou um pouco de ressentimento. Não foi contra ele, eu apenas não queria falar sobre isso. E quando comecei a ficar mais velho, e comecei a sair dos carris e a lidar com isso através da bebida e das drogas, ele ficou completamente silencioso e completamente fechado. E, então, a minha vida começou a alterar-se e a mudar por completo, porque eu não tinha outra escolha a não ser enfrentar aquilo de que eu tinha fugido [a morte da mãe], ou tinha tido medo, durante todos aqueles anos", esclarece.

E foi por isso que começou a fazer a terapia. Primeiro por sugestão do irmão (que depois chegou a dizer que a terapia o estava a deixar louco), depois por sugestão da mulher. Porque precisava de lidar com as feridas que continuavam abertas e que não sabia tratar sozinho.

Salvar a família real "dela mesma"

Na mesma entrevista, Harry diz que o livro de memórias foi o último recurso para tentar contar a sua versão da história, doa a quem doer, e não uma tentativa de se reconciliar com a família. Isso, garante, tentou fazer várias vezes em privado.

"Digo sempre: 'Qual é a diferença de espalhar mentiras sobre a família na imprensa britânica ou dizer a verdade através de um livro?' No meu caso, está tudo num único lugar onde me responsabilizo inteiramente e sou responsável pelo que estou a dizer", defende. 

Depois de ter acusado a família real de se reger pelo lema "nunca se queixar, nunca explicar" para não ter feito frente às notícias que atacavam a sua família, Harry diz que esta foi a única maneira que teve de se defender, a si e aos seus. 

"Não vejo porque é que está tão enraizado [na sociedade] que o que quer que aconteça numa família nunca se deve falar sobre isso. Não importa o que aconteceu, não se fala. Mas eles [a família real] podem? Por causa de quem são e do que representam? A forma como fui educado é que, como membro da família real, lideramos através do exemplo. Por isso, não devemos usar esse privilégio para nos safarmos do quer que seja. Nenhuma instituição está imune às críticas e ao escrutínio e se apenas 10% do escrutínio que foi feito a mim e à Meghan fosse feito à instituição, não estaríamos no meio desta confusão agora".

Harry volta assim a falar dos ataques de que a mulher foi alvo, por parte da imprensa ao longo dos primeiros anos da relação e das tentativas que fez para que a família real a protegesse desse escrutínio que continua a considerar que foi "feio" e "obscuro". 

"E vai continuar a ser e eu aguardo com expectativa o dia em que já não faremos parte dela, mas preocupo-me com quem será o próximo", atira, antes de recordar aquele que considera um dos momentos mais sombrios da sua família.

Os duques de Sussex tinham acabado de ser pais pela primeira vez - um momento que conta no livro que também foi invadido pela imprensa - e Harry diz que ao regressar a casa entrou no quarto de Archie e encontrou a mulher lavada em lágrimas enquanto amamentava o filho depois de ter lido algumas notícias.

"Isso foi um ponto de ruptura para mim. E ela é alguém que não lê as notícias. Ela morria se lesse", recorda, dizendo que foi por isso que decidiu que tinha de sair. Cortar laços e afastar-se do mundo que sempre conheceu.

As razões pareciam-lhe óbvias, apesar de muitos a questionarem e lhe apontarem o dedo. "Não se trata de tentar derrubar a monarquia, trata-se de tentar salvá-los de si próprios. E sei que serei crucificado por inúmeras pessoas por dizer isto."

Harry diz mesmo que sente que isso é a "sua missão de vida", lutar contra a imprensa e contra aquilo que os levou a fazer coisas erradas, lembrando que a perseguição da imprensa lhe "tirou a mãe", mas também a ex-namorada Caroline Flack "e quase a mulher, Meghan", que em entrevista a Oprah Winfrey revelou que pensou em suicidar-se em janeiro de 2019. 

"E se isso não é razão suficiente para usar a dor e transformá-la em propósito, não sei o que é", considera, confessando que também ele próprio esteve a ponto de colocar termol à vida, antes de conhecer Meghan.

O livro "Na Sombra" trouxe várias histórias sobre a família real a público, sendo a primeira a ser conhecida a de que o príncipe William terá agredido fisicamente o príncipe Harry numa discussão em 2019, na Nottingham Cottage, depois dos irmãos terem discordado sobre Meghan Markle. As acusações não parecem ajudar a qualquer clima de reconciliação entre os diversos membros da família real.

Depois disso, as revelações sucederam-se, com o príncipe a contar que matou 25 pessoas no Afeganistão, consumiu drogas na adolescência e a revelar as últimas palavras que disse à avó, a rainha, na sua morte.

Andreia Miranda