Ricardo Silva é professor numa escola de Sintra e é presidente da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino (APEDE). Tem feito greve “alguns dias” e fala de uma “revolta enorme” pelo estado em que se encontra a escola pública em Portugal. Também a mulher é professora. Também ela tem protagonizado o mesmo protesto e dado voz à mesma revolta.

Confrontado com o possível impacto das greves nas aprendizagens dos alunos e na gestão familiar de muitas casas em Portugal, Ricardo Silva não hesita em reconhecê-lo: “Nós também somos pais. Também tentamos deixar os nossos filhos nas escolas e também damos com elas fechadas.”

Contudo, assegura que os professores estão conscientes desse impacto e da necessidade de o minimizar. “Os professores não são irresponsáveis. Obviamente que os professores vão completar o processo de avaliação dos alunos e vão fazer tudo para repor os conteúdos”, promete.

“O trabalho de um professor não é durante um dia ou dois ou uma semana ou um mês. O trabalho faz-se durante o ano todo e os professores são capazes de fazer essa recuperação com os seus alunos”, defende, garantindo que a intenção dos docentes é “lutar por um futuro digno para o ensino público e não prejudicar os seus alunos”.

“Deixei de ser pai para ser professor”

Ricardo Silva pede, por isso, a confiança dos pais e, sobretudo, de quem manda na Educação. “Eu não preciso que o senhor ministro me trace planos de recuperação para aplicar aos meus alunos. Não é o ministro que está na escola e conhece os meus alunos. Eu sei que, com determinada turma, provavelmente, preciso de duas horas, mas com outra preciso de quatro. Tenho uma carreira de 34 anos, fiz uma licenciatura e fiz um estágio. Não preciso que me digam como ensinar os meus alunos. Não preciso que me apontem pedagogias. Só preciso que dignifiquem a minha profissão e confiem em mim. Porque um professor que se sente dignificado é também um professor com maior capacidade para fazer o seu trabalho”, pede o professor e presidente da APEDE.

Regressando atrás no tempo e ao impacto dos confinamentos provocados pela pandemia no ensino, Ricardo Silva confessa que se sente “ofendido” com algumas observações. Casado com uma professora e com uma filha então com três anos, Ricardo assegura que não deixou “uma única aula por dar”. “Fiz o acompanhamento total dos meus alunos à distância. Não falhei uma única aula. Dei as aulas à distância com o mesmo compromisso. Tive de sair da minha casa e ir para casa dos meus sogros, para eles poderem dar apoio à minha filha. Era impossível com uma criança de três anos, eu a dar aulas num computador e a minha mulher no outro. Deixei de ser pai para ser professor”, sublinha.

O psicólogo Júlio França, também a trabalhar numa escola, acredita que o impacto será inevitável. Mas acredita também que ficará muito aquém do embate que a pandemia teve no processo de aprendizagem. Até porque esse período afetou outras áreas como a saúde mental e a socialização das crianças, que as greves não influenciam da mesma forma.

“Acredito também nos professores e nas capacidades que eles têm para recuperar o que ficou para trás”, analisa o psicólogo, que se coloca ao lado dos docentes, “uma profissão que tem sido muito desvalorizada ao longo de muitos anos”.

O especialista alerta apenas para a necessidade de se dar “uma atenção maior aos alunos que tenham maiores fragilidades em termos de aprendizagem e que possam ser mais prejudicados por estas paralisações”. Além disso, acrescenta, é importante “não sobrecarregar os alunos com trabalhos e avaliações para, num curto espaço de tempo, tentar compensar tudo”.

“As crianças continuaram a trabalhar”

David Rodrigues, especialista em educação e presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, reconhece o impacto que as interrupções têm no processo de aprendizagem e sublinha que “é fundamental recuperar as aprendizagens”. David Rodrigues destaca a forma como a greve está a ser feita, com “uma forte imprevisibilidade”, retirando a frequência e o ritmo necessário para a aquisição de conhecimentos.

O especialista considera, contudo, que “terá muito menos impacto do que a pandemia”, uma vez que se trata de situações muito pontuais.

“Imagino e tenho muito otimismo que esta situação não tem, de maneira nenhuma, o impacto que teve a pandemia. É uma situação que se vai resolver. Além disso, aquando da pandemia, dizia-se de forma catastrofista que ‘era um ano perdido’, e as crianças continuaram a trabalhar, a ter ligação com as escolas”, lembra.

Para David Rodrigues, não há o perigo desta geração de crianças e jovens vir a revelar, no futuro, algum tipo de handicap por causa das interrupções letivas provocadas pelas greves de professores e outros profissionais da educação. O especialista toma mesmo como exemplo a própria geração, que viveu de perto as greves académicas, sem se ressentir do ponto de vista do conhecimento.

A importância do exemplo cívico

O psicólogo Júlio França destaca ainda a importância do exemplo cívico de um professor em protesto e recorda a frase que tem sido usada pelos docentes nas últimas semanas: “Um professor a lutar também está a ensinar”.

“É importante aproveitar este exemplo de cidadania para mostrar que é importante a participação cívica e a importância de lutar pelos nossos direitos, até numa altura em que esse exercício parece estar arredado da nossa sociedade”, sublinha o psicólogo.

O mesmo destaque é feito por David Rodrigues. O especialista lembra que os professores podem aproveitar as greves para “ensinar aos alunos alguma coisa sobre os seus direitos e sobre como lutar pelos seus direitos”. “Mas tem de ser um trabalho explícito e explicado aos alunos. Pode ser que esta luta dos professores possa ser didática. É uma lição se for feito esse paralelismo entre a luta pelos direitos dos professores e a luta pelos direitos dos alunos”, acrescenta, para quem “o professor é um agente dos direitos humanos”.

Manuela Micael