Ruas, mercados e cervejarias. As histórias de dez sítios decisivos para Montenegro e Pedro Nuno Santos - TVI

Ruas, mercados e cervejarias. As histórias de dez sítios decisivos para Montenegro e Pedro Nuno Santos

Portugal mapa

Com a campanha eleitoral na rua, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro apostam tudo nos próximos 15 dias. Há locais onde sabem que não podem falhar por causa do simbolismo que representam para o partido e outros que carregam um importante peso político e onde alguns dos seus antecessores viveram episódios que ficaram para a história

PS: Caxinas, em Vila do Conde

É um daqueles locais que todos reparam se não estiver no percurso da caravana do PS. Caxinas, a comunidade piscatória de Vila do Conde. Está na campanha de Pedro Nuno Santos a 3 de março. E há muitas histórias para contar. Em 2015, por exemplo, António Costa pediu aqui, pela primeira vez, “uma maioria clara, inequívoca, maioritária”. “Uma maioria absoluta é o que o PS precisa”, disse. Em 2022, Costa comparou-se à força “das gentes do mar”, porque o PS “tal como os pescadores” não vira “as costas ao país quando o mar está agitado”.

Mas Costa não foi o único a fazer campanha por estas bandas. É um ponto de paragem obrigatória para os secretários-gerais do PS. Em 2011, por exemplo, Sócrates tirou partido de um filho da terra, o futebolista Fábio Coentrão, para enaltecer um jogador que “nunca desiste de lutar” nem “vira a cara à luta”.

E porquê Caxinas? Ascenso Simões, antigo diretor de campanha pelo PS, explica: “É uma zona de pescadores, onde há sempre uma grande adesão. Há uma grande aproximação ao PS. Este universo de pescadores e varinas começava nas Caxinas e estendia-se por Matosinhos, Figueira da Foz, Nazaré e Olhão”.

António Costa nas Caxinas em 2015 (Lusa)

PSD: Avenida Dr. Lourenço Peixinho, em Aveiro

“De Sá Carneiro a Cavaco Silva, passando por Santana Lopes, foi nesta avenida que os líderes do PSD conseguiram mostrar o que valem na rua”, garante José Ribau Esteves, o social democrata que preside à Câmara Municipal. Essa avenida é a Dr. Lourenço Peixinho, em Aveiro, por onde passaram nos últimos as caravanas as sucessivas campanhas sociais-democratas. Este local, garante ainda o autarca, “está sempre nos grandes momentos” da campanha do PSD.  

Tem pouco mais de um quilómetro, mas segundo Ribau Esteves é “principal desafio de mobilização de eleitorado” em Aveiro -  uma cidade que tem uma importante carga emocional para o PSD. Foi aqui que decorreu a primeira cisão do partido, em 1975, marcando o fim de um longo braço de ferro do qual emergiu vitorioso Sá Carneiro, da ala mais moderada, e que levou à saída de Mota Pinto e de Sá Borges, dando origem ao Movimento Social-Democrata.

Para além da marca histórica para o PSD, este distrito é, como aponta Ribau Esteves, “um dos mais importantes círculos eleitorais do País a nível político”. E por duas razões. “Não só pela grande quantidade de deputados que elege - 16 - como também pelo facto de tendencialmente replicar os resultados a nível nacional”.

Rui Rio, durante uma arruada em Aveiro

Luís Montenegro deverá por passar por Aveiro, e como os seus antecessores andar nesta avenida, no dia 5 de março já depois de uma primeira volta ao distrito quatro dias antes. 

PS: Cervejaria Trindade, Lisboa

No último dia de campanha, antes da tradicional descida do Chiado, o ponto obrigatório é a Cervejaria Trindade. Não é um local exclusivo do PS. Mas, para o partido, está cheio de história. 

Contam os socialistas que desde 1975, no dia em que se sabe que haverá eleições, a secretária do secretário-geral do PS liga para a Cervejaria Trindade, a reservar a sexta-feira anterior.

Nesta caravana de Pedro Nuno Santos não é ainda certo que esse momento de almoço na Trindade vá acontecer. Em 2022, como Costa foi encerrar a campanha ao Porto, e era preciso poupar tempo, a Cervejaria Trindade não entrou no roteiro, explicam os socialistas.

“São momentos em que a campanha está feita, em que já se sabe se pode ganhar ou perder. Há mais ânimo ou menos para a descida do Chiado”, descreve Ascenso Simões.

Em 2011, Sócrates apostou em Jorge Sampaio como trunfo na Trindade. Em 2015, Costa fica sem voz a discursar à mesa. Tinha Mário Soares como convidado de honra. Em 2019, Ferro Rodrigues pedia um “grande resultado para a esquerda”. À medida que os anos foram passando, os socialistas foram sentindo que a Cervejaria Trindade se foi tornando pequena. Havia mesmo, entre os militantes mais anónimos, aqueles que vinham horas antes para garantir o melhor lugar.

Almoço socialista na Cervejaria Trindade em 2011 para as presidenciais onde Manuel Alegre era candidato

PSD: Cavaquistão, em Viseu

É uma imagem que marca a história do PSD. Cavaco Silva em cima de um carro a acenar à multidão que se acotovelava nas ruas de Viseu que, de tanta gente, pareciam estreitas. A fotografia, tirada em 2011, mostra milhares de pessoas de mão estendida na tentativa de tocar, nem que por um segundo, na figura de Cavaco, que ali se apresentava pela última vez a eleições presidenciais.

É, precisamente em Viseu, que Cavaco Silva conseguiu alguns dos seus melhores resultados eleitorais. Vitórias, por exemplo contra Mário Soares ou Jorge Sampaio, que ficaram de tal forma conhecidas que o distrito ganhou o nome de Cavaquistão.
 

Arruada de Cavaco Silva em Viseu, 2011

No entanto, nas últimas legislativas de 2022, o bastião que até ali sempre tinha votado nos sociais-democratas foi perdido por Rui Rio. Luís Montenegro tem agora entre mãos a tarefa de recuperar Viseu e o peso simbólico importante que isso constitui. Numa entrevista recente, o líder do PSD confessou que Cavaco Silva é uma das pessoas que mais admira politicamente e o antigo Presidente da República foi até convidado surpresa no Congresso do PSD, de novembro.

Recuperar o distrito pode, então, ser uma das grandes vitórias para Montenegro. António Leitão Amaro, atual cabeça de lista dos sociais-democratas, recorda-se bem de como foi perder o distrito para a maioria absoluta de António Costa. “Sentia-se e ouvia-se na altura em Viseu que não havia o mesmo entusiasmo com a votação” no antigo líder, também porque, acrescenta, “as pessoas na política votam muito com a perceção dos últimos anos, e portanto, também não havia uma governação do PSD ali a ser julgada e a ser validada” - como em 2015, com Passos Coelho, a “última vez que o partido conseguiu uma vitória expressiva no distrito”.

A missão é de tal forma importante que Montenegro repetiu os mesmos três nomes fortes que estavam nas listas de Passos a Viseu. Leitão Amaro, Pedro Alves e Inês Domingos ocupam os lugares cimeiros e marcaram presença nas duas vezes que a caravana da AD passou pelo distrito. “Vamos pedir às pessoas que se lembrem dos tempos em que o distrito contava, estava no mapa e nas prioridades políticas do governo do PSD”.

Viseu foi também um dos distritos do arranque da campanha de Montenegro e, durante um comício no Teatro Municipal de Lamego, António Leitão Amaro comparou mesmo o atual candidato a Cavaco Silva, indicando que as medidas que Montenegro propôs em termos de pensões comparam-se com a “coragem” demonstrada nos governos anteriores de Cavaco. “O Luís é notável pela sua coragem e pelo risco reformista quando diz vamos baixar o IRS, mas temos de deixar o último escalão de fora ou quando diz que é preciso garantir o rendimento mínimo aos pensionistas de 820 euros”. “Em todas essas escolhas”, disse Leitão Amaro, Montenegro “lembrou-nos de outro líder do PSD, Cavaco Silva”.

A campanha vai passar novamente por Viseu no dia 3 de março.

PS: Centro histórico de Guimarães

Foi em Guimarães que arrancou no sábado a campanha do PS. E volta lá no próximo domingo, com uma arruada na zona histórica do “berço da Nação”, que costuma embalar as expectativas socialistas. É mesmo considerado um dos seus bastiões. As ruas do centro histórico de Guimarães são apertadas. E isso faz a diferença na hora de mostrar a mobilização nas televisões.

“É um sítio onde o PS tem hábitos de rua. E como Guimarães é uma cidade com muita gente, histórica, com ruas pequenas, a arruada estende-se imenso. E dá boas imagens para televisão”, confirma Ascenso Simões.

Em 2022, na arruada, António Costa foi levado aos ombros e até subiu a um carro para discursar. Em 2009, para Sócrates, as ruas encheram-se de confetti, beijos e abraços para José Sócrates.

José Sócrates em Guimarães em 2011 (Lusa)

PSD: Rua Direita, em Barcelos

É um dos locais que mais peso e emoção reúne nas campanhas eleitorais por ter ligação a Francisco Sá Carneiro. Durante anos, foi precisamente em Barcelos onde o fundador do PSD passava as suas férias. O pai de Sá Carneiro era natural desta terra e foi na casa da família que o fundador do PSD também se refugiava em tempos de turbulência política. “Neste momento, é muito importante que Luís Montenegro consiga valorizar esta herança ainda muito presente naquela população”, explica o politólogo José Filipe Pinto.  

Por isso, a arruada da Rua Direita, em Barcelos, tem um grande simbolismo. “Na última campanha do Rui Rio, ele chegou a receber um busto do Sá Carneiro durante a arruada daquela rua”, lembra André Coelho Lima, antigo deputado do PSD.  

“A própria cidade de Barcelos tem sempre paragem obrigatória em qualquer campanha”, reforça Coelho Lima-

Até porque desde 1976, que Barcelos, nunca mudou de cor nas eleições legislativas. Aqui ganhou sempre o PSD ou as coligações das quais o partido fez parte.  Durante a última maioria absoluta conseguida pelo PS, Barcelos manteve-se um fiel "laranja"   “É um fenómeno que tem muito a ver com a presença de Francisco Sá Carneiro, na região”, explica o politólogo José Filipe Pinto.

Barcelos, que é o concelho com o maior número de freguesias em Portugal, tem também uma característica sui generis, como descreve o politólogo. “É o concelho com o maior número de movimentos independentes nas eleições locais e, como estes não podem concorrer à Assembleia da República, acabam por transferir a sua lealdade para os sociais-democratas de quem têm uma maior aproximação a nível de valores”.

PS: Rua Ferreira Borges, em Coimbra

Em Coimbra, na hora de percorrer a Rua Ferreira Borges, têm sido muitas as peripécias que esperam o PS. Mas o partido não desiste desta artéria. Também ela apertada, dada a contactos de proximidade, ao contacto com o comércio tradicional. Pedro Nuno deverá passar por aqui a 4 de março.

Voltemos ao passado: António Costa já teve à espera, nesta rua, membros do Sindicato dos Serviços Municipalizados dos Transportes Urbanos de Coimbra em protesto ou um pequeno grupo de lesados do BES.

Em 2009, Sócrates contou com Manuel Alegre no percurso. Horas antes, tinha sido a rival Manuela Ferreira Leite quem pisara o mesmo chão. “As ruas são de todos os candidatos”, reagia o socialista. Na altura, o presidente da Associação Académica de Coimbra furou a bolha para entregar um caderno de reivindicações.

João Portugal, presidente da federação do PS de Coimbra, descarta que esta rua seja um "amuleto" para o PS. Destaca antes que a artéria permite ao secretário-geral contactar com os comerciantes e ouvir os seus contributos. "Lembro-me praticamente de todas as arruadas na Ferreira Borges. Faço desde os 16,17 anos. São todas boas, mesmo quando perdemos as eleições. Há um sentimento de dever cumprido", diz.

“Sempre foi um distrito com uma especificidade própria. Até ao final do século passado, era um dia inteiro de caravana, que parava em mais de 30 sítios. Foi o Jorge Coelho [como diretor de campanha] quem acabou com isso. Com António Guterres, as campanhas passaram a ser feitas para as televisões”, recorda Ascenso Simões.

António Costa em Coimbra em 2019

PSD: Mercado Engenheiro da Silva, na Figueira da Foz

Na tradicional rota da caravana social-democrata na Figueira da Foz, o mercado Engenheiro da Silva é, “normalmente, onde os candidatos param sempre”, confirmou à CNN Portugal Santana Lopes, antigo primeiro-ministro e autarca da região, sublinhando que isto se deve à "tradição". É nesse local que costumam interagir com vários comerciantes artesanais ao som do eco dos pregões das peixeiras.

Para além do mercado municipal, a passagem da caravana da AD pela Figueira da Foz está “carregada de simbolismo”, considera o politólogo José Filipe Pinto. Por um lado, foi naquela cidade que decorreu o congresso onde, como conta o antigo primeiro-ministro no seu livro de memórias, apenas contava aparecer para “fazer a rodagem do carro” e que acabou por o eleger presidente do PSD. “Essa história acabou por ficar colada à herança social-democrata na Figueira da Foz”, diz o politólogo.

Por outro, continua José Filipe Pinto, é “notório que a presença de Santana Lopes, que se voltou a aproximar do PSD depois da experiência falhada na criação de um novo partido, mostra como a campanha de Luís Montenegro quer criar um sentimento generalizado de coesão contra o Partido Socialista”.

O congresso que elege Cavaco Silva, em 1985

PS: Moscavide, em Loures

Diz a tradição socialista que o último dia de campanha tem de contar com a descida do Chiado. É nela que entram as grandes figuras do partido, bem como uma vasta gama de nomes da chamada elite, reconhecidos por todos. Em 2019, Costa enfureceu-se quando ao chegar à etapa final, o Terreiro do Paço, foi acusado de estar de férias enquanto Pedrógão Grande ardia. O idoso acabou por revelar-se um ex-autarca do PS. Mas não é disso que vamos falar agora.

Usamos a descida do Chiado para traçar o seu contraponto em Lisboa: Moscavide. Normalmente acontecem no mesmo dia. Moscavide de manhã, Chiado à tarde. Moscavide, freguesia de Loures onde o PS tem tradição, é vista como o lado popular da Área Metropolitana de Lisboa. Na caravana de Pedro Nuno entra também no último dia de campanha, 8 de março.

“É um bastião nosso e tem muito espírito de bairro. As pessoas tiram a manhã, porque é algo icónico”, descreve o deputado Miguel Costa Matos, que vive perto deste local.

E não é de estranhar que, a cada nova arruada, se encontrem idosos apanhados no meio da agitação, com os sacos de compras nas mãos.

António Costa em Moscavide em 2015 (Lusa)

PS e PSD: Arruada da Rua de Santa Catarina, no Porto

Tambores, bonecos gigantes, as principais personalidades do Porto e arredores. É assim a arruada de Santa Catarina, no Porto. Todos os partidos fazem questão de aqui passar. Mas a mancha humana é sempre diferente no PS e no PSD.

Na última campanha, António Costa recebeu uma carta de uma mulher, em pranto, a pedir-lhe “ajuda”. Na primeira, Costa pediu uma vitória do PS sem “jogos políticos”.

Para os socialistas, a força do norte mede-se como numa balança: se no Porto houver um grande comício de rua, a arruada de Santa Catarina não se reveste de tanta importância. Mas se o comício for fechado, aí há que mostrar força nessa procissão por uma das artérias mais icónicas da cidade.

Pedro Nuno Santos tem passagem marcada por esta icónica artéria do Porto a 7 de março.

Já para o PSD, esta arruada, que muitos sociais-democratas identificam como a mais intensa da campanha, “é normalmente um símbolo de união e enaltecimento à volta do líder”, considera André Coelho Lima. Um exemplo disso foi em 2022, quando Rui Rio viu antigos opositores internos, como Paulo Rangel, Aguiar Branco e Luís Filipe Menezes, a acompanharem-no no desfile laranja. 

É também palco de momentos caricatos, como em 2019, quando Rui Rio, no último dia de campanha, entrou adentro de duas lojas de lingerie, onde distribuiu propaganda eleitoral aos clientes e funcionários.

Socialista Sampaio da Nóvoa na Rua de Santa Catarina em 2016 enquanto candidato presidencial
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